Reforma Hoje — Os solas da Reforma para a Igreja atual

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A obra e a sua tese


Reforma Hoje — Síntese

Os solas da Reforma para a Igreja atual, de Eli Vieira Filho

Reforma Hoje sustenta uma tese simples: aquilo que os reformadores redescobriram no século XVI não foi uma novidade deles, mas o próprio evangelho, e esse evangelho continua sendo o caminho de volta para a Igreja atual. O livro não é um exercício de nostalgia nem um manifesto de partido. É um convite pastoral para que a Igreja de hoje, como Judá nos dias de Jeremias, pare à margem do caminho e pergunte pelas veredas antigas (Jr 6.16).

A obra está organizada em cinco partes, uma para cada sola, com cinco capítulos cada, entre uma Introdução e uma Conclusão. Cada capítulo parte de um texto bíblico central lido no seu contexto, desenvolve a doutrina, dialoga com as confissões reformadas e com a história da Igreja, ilustra com a vida de cristãos reais e aplica a verdade à vida do leitor, da família e da igreja local.

O público é amplo: membros de igreja, líderes, professores de escola bíblica, seminaristas e pastores. O livro pode ser lido individualmente ou estudado em grupo, capítulo por capítulo. O meu pedido ao leitor resume o espírito da obra: ler com a Bíblia aberta, como os crentes de Bereia (At 17.11), e em oração, porque estas verdades não foram dadas para vencer discussões, mas para conduzir à adoração.

Introdução: por que a Reforma ainda importa

A Reforma começou em 1517 com uma controvérsia sobre indulgências, mas logo revelou duas perguntas mais profundas. A primeira era sobre a salvação: como um pecador é perdoado e aceito por Deus, por méritos e pagamentos ou pela graça revelada no evangelho? A segunda era sobre autoridade: quem decide o que a Igreja deve crer, o papa, os concílios, a tradição ou a Escritura? Lutero já havia escrito, nas suas teses, que “o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus”.

Os reformadores divergiam em pontos importantes, mas concordavam no essencial, que mais tarde se resumiu em cinco expressões: somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé, somente a Deus a glória. O conflito não estava nas afirmações, que nenhum cristão medieval negava, mas na palavra “somente”. Cada sola exclui algo que os homens acrescentaram ao evangelho: a tradição ao lado da Palavra, os mediadores ao lado de Cristo, o mérito ao lado da graça, as obras ao lado da fé, a glória humana ao lado da glória de Deus. E os cinco não são doutrinas soltas: a Escritura revela Cristo, Cristo é a graça de Deus em pessoa, a graça é recebida pela fé, e tudo existe para a glória de Deus.

O livro mostra que a Reforma tocou o Brasil cedo: na Guanabara, em 1557, com os huguenotes franceses; no Nordeste holandês, entre 1630 e 1654; e, de modo permanente, no século XIX, com Kalley, Simonton e as Bíblias de Almeida. O crescimento evangélico recente é motivo de gratidão, mas também de exame, porque nem tudo o que cresceu cresceu segundo a Palavra. As campanhas de bênçãos em troca de ofertas, os “ungidos” e objetos consagrados e as revelações acima do texto repetem, com outras roupas, os erros que a Reforma enfrentou. E as igrejas históricas também precisam ouvir os solas outra vez, porque a Reforma não é propriedade de uma denominação.

Parte I — Sola Scriptura: a Palavra que governa a Igreja

A primeira parte estabelece o fundamento de todas as outras: Deus falou, e a sua Palavra está escrita. Se Deus não tivesse falado, a fé cristã seria apenas a mais antiga das opiniões humanas sobre o divino.

Capítulo 1 — Deus falou (2Tm 3.14-17). A partir da última carta de Paulo, escrita à sombra da morte, o capítulo mostra que toda a Escritura é “inspirada por Deus”, literalmente soprada por Ele, e que homens falaram da parte de Deus “movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). A inspiração é plenária e alcança as palavras, sem anular a humanidade dos autores. Jesus mesmo lia as Escrituras como palavra do Pai. Cremos que a Bíblia é Palavra de Deus pelo testemunho do Espírito Santo, que nos convence da verdade que ela já possui. E porque Deus falou, a Escritura é útil para ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça.

Capítulo 2 — A última palavra (Mc 7.1-13). Jesus repreende os fariseus porque invalidavam a Palavra de Deus pela tradição dos homens. O capítulo mostra como, na Idade Média, a tradição e o magistério tomaram o lugar da Escritura, e como Lutero, em Worms, declarou que a sua consciência estava cativa à Palavra de Deus. Sola Scriptura não é solo Scriptura: a tradição tem lugar legítimo, mas sempre debaixo da Escritura. O desafio brasileiro está nos usos e costumes transformados em critério de santidade, nos líderes blindados por “não toqueis nos meus ungidos” e na experiência colocada acima do texto.

Capítulo 3 — Tudo o que precisamos (2Pe 1.3-21). Pedro afirma que Deus nos deu tudo o que conduz à vida e à piedade, e que a palavra profética é uma candeia em lugar tenebroso. A suficiência significa que nada deve ser acrescentado à Escritura, “nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens” (CFW I.6). O capítulo trata com honestidade o debate entre cessacionistas e continuístas, e aplica a suficiência às decisões da vida e ao cuidado da alma.

Capítulo 4 — Luz para o caminho (Ne 8.1-12). Diante da Porta das Águas, Esdras lê a Lei e os levitas dão “explicações, de maneira que entendessem”. A Escritura é clara no que é necessário à salvação, ainda que não seja superficial. Por isso os reformadores puseram a Bíblia na língua do povo, de Tyndale a João Ferreira de Almeida, e por isso a Igreja precisa voltar a ler, de modo constante e ordenado.

Capítulo 5 — Prega a Palavra (2Tm 4.1-5). A ordem solene de Paulo encerra a primeira parte. O pregador é um arauto, e a sua mensagem não é sua. Em tempos de ouvidos que coceiam, a Igreja é governada pela Palavra pregada, ministrada nos sacramentos e aplicada na disciplina. A conversão de Spurgeon, numa pequena capela de Colchester, mostra que o poder não está na eloquência do pregador, mas no Espírito que acompanha a Palavra. E toda a Escritura, como dizia Lutero, nos conduz das faixas ao Cristo que elas envolvem.

Parte II — Solus Christus: o único Mediador

A Escritura existe para nos conduzir a Cristo. A segunda parte se volta para Ele e confessa que a salvação está somente na sua pessoa e na sua obra.

Capítulo 6 — O Cristo das Escrituras (Jo 1.1-18). O prólogo de João apresenta o Verbo eterno, que estava com Deus e era Deus, e que “se fez carne”. Os séculos de controvérsia, de Ário a Niceia e Calcedônia, guardaram a confissão de que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Só assim Ele pode ser Mediador: estender uma mão a Deus e outra a nós. O capítulo confronta os “Cristos reduzidos” de hoje, como o mestre de moral do liberalismo e o espírito evoluído do espiritismo, e termina com a confissão de Tomé: “Senhor meu e Deus meu!”.

Capítulo 7 — Ferido pelas nossas transgressões (Is 52.13–53.12). O cântico do Servo sofredor, anunciado sete séculos antes, é o centro do capítulo. Cristo levou sobre si os nossos pecados, foi entregue como cordeiro e, na cruz, satisfez a justa ira de Deus. Substituição e propiciação não são invencionices medievais nem “abuso cósmico”, como alguns acusam, mas o amor do Deus triúno que paga o preço do perdão. A história de Maximiliano Kolbe, em Auschwitz, ilustra o que significa um homem morrer no lugar de outro. E o resultado é descrito pelo profeta: “o castigo que nos traz a paz estava sobre ele”.

Capítulo 8 — Um só Mediador (1Tm 2.5-6). Há um só Deus e um só Mediador, Cristo Jesus, homem. A carta aos Hebreus mostra o sacerdócio eterno de Cristo, que intercede por nós. A Igreja medieval multiplicou os mediadores, e Thomas Bilney só encontrou paz ao ler que “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). A Reforma devolveu ao povo o sacerdócio de todos os crentes. Hoje, os novos intermediários são os “ungidos”, os objetos consagrados e as coberturas espirituais. A resposta é o convite de Hebreus: aproximemo-nos com confiança.

Capítulo 9 — Exaltado e Senhor (Fp 2.5-11). O hino de Filipenses mostra o Filho que se esvaziou até a cruz e foi exaltado acima de todo nome. Cristo é profeta, sacerdote e rei, e não pode ser recebido como Salvador e rejeitado como Senhor. Policarpo, em Esmirna, morreu por se recusar a chamar César de Senhor, e a Declaração de Barmen, em 1934, confessou o mesmo diante do nazismo. Para a Igreja brasileira, o senhorio de Cristo é também uma advertência contra confundir o Reino com projetos políticos.

Capítulo 10 — Não há outro nome (At 4.12). Diante do Sinédrio, Pedro afirma que não há salvação em nenhum outro nome. O capítulo examina o pluralismo e o inclusivismo e mostra o que não se pode perder sem perder o evangelho. A história de Jim Elliot e dos seus companheiros, mortos ao levar o evangelho a um povo que nunca o ouvira, mostra o preço e o fruto dessa convicção. Mas a exclusividade de Cristo deve ser anunciada “com mansidão e temor” (1Pe 3.15-16), sem arrogância.

Parte III — Sola Gratia: a salvação pertence ao Senhor

Se a salvação está somente em Cristo, como ela chega até nós? A terceira parte responde que ela vem inteiramente da graça, do diagnóstico ao fruto.

Capítulo 11 — Mortos em delitos (Ef 2.1-3). Antes da cura vem o diagnóstico. Paulo descreve o homem sem a graça como morto, levado pelo curso deste mundo e, por natureza, filho da ira. A morte espiritual não é fraqueza nem doença: é incapacidade de perceber, de querer e de buscar a Deus. O capítulo percorre a controvérsia entre Agostinho e Pelágio e o ensino dos Cânones de Dort, e lembra, com Soljenítsin, que a linha entre o bem e o mal atravessa o coração de todo ser humano. Uma igreja que diz ao homem que ele é essencialmente bom esconde a doença e, com ela, a necessidade da graça.

Capítulo 12 — Escolhidos antes da fundação do mundo (Ef 1.3-14). A eleição aparece na Escritura como motivo de louvor, não de especulação. O Pai escolheu um povo em Cristo, o Filho o redimiu e o Espírito o selou. O capítulo trata a doutrina com o cuidado que Calvino recomendava, apresenta o Sínodo de Dort, responde a três objeções e lembra que irmãos sinceros discordaram sobre ela, como Whitefield e Wesley, e como Simeon e Wesley, que encontraram um terreno comum na dependência total da graça. A eleição produz humildade, segurança e zelo missionário, tudo “para louvor da sua glória”.

Capítulo 13 — Nascer de novo (Jo 3.1-21). Nicodemos, mestre de Israel, ouve que precisa nascer “da água e do Espírito”. O novo nascimento é obra soberana do Espírito, como o vento que sopra onde quer, e se dá pelo chamado eficaz que acompanha a Palavra. O capítulo contrasta duas maneiras de entender o avivamento, a de Jonathan Edwards, que via nele uma obra surpreendente de Deus, e a de Charles Finney, que o tratava como resultado do uso correto de métodos. E descreve as marcas do novo nascimento: fé em Cristo, prática da justiça, amor aos irmãos e vitória sobre o mundo (1Jo 5.1; 2.29; 4.7; 5.4).

Capítulo 14 — Para que ninguém se glorie (1Co 1.26-31). Deus escolheu as coisas fracas e desprezadas do mundo para que ninguém se glorie diante dele. Cristo se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção. A pergunta de Paulo, “que tens tu que não tenhas recebido?” (1Co 4.7), transformou a teologia de Agostinho e continua desmontando as formas atuais do mérito, sobretudo a teologia da barganha. A vida de John Newton, de traficante de escravos a pastor, ilustra o grande pecador diante do grande Salvador.

Capítulo 15 — A graça que educa (Tt 2.11-14). A mesma graça que salva também ensina a renegar a impiedade e a viver de modo sensato, justo e piedoso, aguardando a bendita esperança. O capítulo mostra os dois desvios opostos, o legalismo e a “graça barata” denunciada por Bonhoeffer, e apresenta a vida cristã, como o Catecismo de Heidelberg, sob o título de gratidão. O testemunho de Corrie ten Boom, capaz de perdoar um antigo guarda de Ravensbrück, mostra até onde essa graça pode educar o coração.

Parte IV — Sola Fide: justificados somente pela fé

A quarta parte pergunta como a graça se torna nossa e responde com a doutrina que Calvino chamou de “o eixo principal sobre o qual gira a religião”: a justificação pela fé.

Capítulo 16 — A pergunta de Lutero (Rm 1.16-17). A angústia de um monge em busca de um Deus gracioso levou Lutero a Romanos 1.17. Ele descobriu que a justiça de Deus revelada no evangelho não é a justiça que condena, mas a que Deus dá gratuitamente ao pecador que crê. “O justo viverá por fé” vem de Habacuque e atravessa toda a Escritura. Dois séculos depois, John Wesley ouviu ler o prefácio de Lutero a Romanos, em Aldersgate, e sentiu o coração “estranhamente aquecido”. A pergunta de Jó, “como pode o homem ser justo para com Deus?”, continua sendo a pergunta de hoje.

Capítulo 17 — O veredito do tribunal (Rm 3.19-31). Paulo leva toda a humanidade ao tribunal de Deus, “para que toda boca se cale”. Mas agora, sem lei, manifestou-se a justiça de Deus: o pecador é justificado gratuitamente, pela graça, mediante a redenção que há em Cristo, a quem Deus propôs como propiciação. Assim Deus é justo e justificador. A justificação é um ato, não um processo; um veredito pronunciado uma vez por todas. A experiência de John Bunyan, que encontrou a sua justiça “no céu”, em Cristo, mostra a libertação de quem deixa de olhar para dentro de si.

Capítulo 18 — Revestidos de outra justiça (2Co 5.21). “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.” A imputação é a troca admirável: os nossos pecados lançados na conta de Cristo, e a sua justiça lançada na nossa, como Paulo pede a Filemom: “lança tudo em minha conta”. O capítulo responde à acusação de “ficção legal” e ao debate contemporâneo com N. T. Wright, e aplica a doutrina à segurança do crente, vestido de salvação como Josué, o sumo sacerdote, na visão de Zacarias.

Capítulo 19 — Abraão creu (Rm 4). Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça, antes da circuncisão e sem obras. Ele é o pai de todos os que creem. A fé que salva reúne conhecimento, assentimento e confiança; o seu valor não está na força de quem crê, mas no objeto em quem se crê. Por isso o capítulo desmonta a “fé como força” da confissão positiva e lembra, com Spurgeon, que não é a nossa fé que salva, mas Cristo.

Capítulo 20 — A fé que opera pelo amor (Tg 2.14-26). Tiago não contradiz Paulo. Paulo combate os que acrescentam obras à fé; Tiago, os que separam a fé das obras. Somos justificados somente pela fé, mas a fé que justifica nunca está sozinha. O capítulo trata com equilíbrio a famosa “epístola de palha” de Lutero e mostra a fé visível em Wilberforce, na luta contra o tráfico de escravos, em Spurgeon, com o orfanato de Stockwell, e nas escolas e obras sociais evangélicas no Brasil.

Parte V — Soli Deo Gloria: tudo para a glória de Deus

A última parte mostra para onde conduzem os outros quatro solas: se a salvação vem de Deus, do começo ao fim, toda a glória pertence a Ele. E essa glória precisa orientar o culto, o trabalho, o sofrimento e a vida da Igreja.

Capítulo 21 — Dele, por ele e para ele (Rm 11.33-36). Depois de onze capítulos de doutrina, Paulo irrompe em louvor: “Ó profundidade da riqueza”. Ninguém deu primeiro a Deus para ser recompensado, e todas as coisas são dele, por meio dele e para ele. O capítulo responde à objeção de que um Deus que busca a própria glória seria egoísta, e denuncia o “Deus sem peso” de muitas igrejas, quando a palavra hebraica para glória fala justamente de peso. A criação é o teatro da glória de Deus, como dizia Calvino. Bach assinava as suas partituras com “S.D.G.”, e Calvino pediu para ser sepultado sem pompa, num túmulo que ninguém sabe indicar.

Capítulo 22 — Em espírito e em verdade (Jo 4.19-26). Junto ao poço de Sicar, Jesus desloca a pergunta da mulher samaritana do lugar para a natureza do culto: o Pai procura adoradores em espírito e em verdade. Deus decide como quer ser adorado, e a Igreja não tem liberdade para inventar o culto. O capítulo aponta os dois desvios de hoje, o espetáculo e o formalismo, resgata o canto dos salmos e a herança de Sarah Kalley nos hinários brasileiros, valoriza a leitura pública da Escritura e a ceia, e lembra que a transmissão pela tela não substitui o ajuntamento do povo de Deus.

Capítulo 23 — Fazei tudo para a glória de Deus (Cl 3.17, 23; 1Co 10.31). A Reforma derrubou a divisão entre cristãos de primeira e de segunda classe: toda vocação legítima, exercida diante de Deus, é serviço a Ele. Comer, beber, trabalhar, cuidar da família e descansar podem ser feitos “como para o Senhor”. José no Egito, Bezalel no tabernáculo e o poema de George Herbert sobre quem varre uma sala ilustram essa verdade. A segunda-feira também é culto.

Capítulo 24 — Eterno peso de glória (2Co 4.7-18). Temos o tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus. A tribulação, por mais pesada, é “leve e momentânea” diante do eterno peso de glória. O capítulo mostra como cada sola sustenta o crente no vale, contrasta a teologia da glória com a teologia da cruz e responde à teologia da prosperidade. A vida de Joni Eareckson Tada, tetraplégica desde a juventude, e o hino de Horatio Spafford, escrito depois da perda das filhas, mostram a glória de Deus brilhando na fraqueza.

Capítulo 25 — A ele seja a glória na igreja (Ef 3.14-21). O último capítulo reúne os fios do livro. A Igreja, formada de judeus e gentios, é a vitrine da multiforme sabedoria de Deus, e é nela que Ele quer ser glorificado “por todas as gerações”. Paulo se ajoelha e ora para que a Igreja seja fortalecida pelo Espírito e conheça o amor de Cristo “com todos os santos”. Os cinco solas descrevem o que a Igreja deve ser, e a expressão semper reformanda significa voltar continuamente à Palavra, em arrependimento, e não adaptar-se ao espírito do tempo. Aos desigrejados, o capítulo responde que não existe cristianismo saudável sem igreja, e lembra o “vede como se amam” que os pagãos diziam dos cristãos nos dias de Tertuliano.

Conclusão: Àquele que é poderoso para vos guardar

O livro termina em adoração, com a doxologia de Judas (Jd 24-25). Ela começa como a de Efésios 3.20: “àquele que é poderoso”. O Deus que pode fazer na sua Igreja mais do que ela ousa pedir é o mesmo que pode guardá-la até o fim. Judas escreveu a uma igreja ameaçada por mestres que transformavam a graça em libertinagem, e pediu que os crentes batalhassem pela fé sem perder a misericórdia pelos que hesitam. Esse equilíbrio vale para quem ama a doutrina reformada: firmeza na verdade e compaixão pelos irmãos presos aos desvios, porque muitos nunca ouviram outra coisa.

Na doxologia cabem os cinco solas. Deus nos guarda e nos apresentará imaculados: Sola Gratia e Sola Fide. Ele é o único Deus e Salvador, “mediante Jesus Cristo”: Solus Christus. A Ele pertencem glória, majestade, império e soberania: Soli Deo Gloria. E só sabemos disso porque está escrito: Sola Scriptura. Os solas não são bandeira de partido. Pertencem a toda a Igreja de Cristo, e quem compreende que foi salvo sem mérito não pode usá-los como degrau para se colocar acima dos outros.

Os próprios reformadores viveram, no fim, o que ensinaram. Lutero morreu em 1546 deixando escrito: “Somos mendigos. Isso é verdade”. Calvino, em 1564, declarou no seu testamento que não tinha outro refúgio senão a adoção graciosa de Deus e o sangue de Cristo. A última palavra do livro volta a Jeremias: a Igreja brasileira é chamada a perguntar pelas veredas antigas e, diferente de Judá, a responder “andaremos”. E que a última palavra não seja nossa, mas a que a Igreja de todos os tempos repetirá para sempre: Soli Deo Gloria.

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Pastor Eli Vieira é casado com Maria Goretti e pai de Eli Neto. Responsável pelo site Agreste Presbiteriano, Bacharel em Teologia, Pós-Graduado em Missiologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, Recife-PE e cursando Psicologia na UNINASSAU. Exerce o seu ministério pastoral na Igreja Presbiteriana do Brasil desde o ano 1997 ajudando as pessoas a encontrarem esperança e salvação por meio de Jesus Cristo. Desde a sua infância serve ao Senhor, sendo educado por seus pais aos pés do Senhor Jesus que me libertou e salvou para sua honra e glória.

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