A Europa em três tempos – A Europa é hoje um campo missionário

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Samuel Escobar 

Judeus e cristãos compartilham uma visão do ser humano como pessoa histórica, ou seja, como protagonista de um processo que tem direção e sentido. Os profetas do Antigo Testamento estão entre os primeiros escritores que articulam uma visão da história na qual Deus vai cumprindo um propósito. A existência e a história de Israel são parte do cumprimento do propósito divino. Fatos como o surgimento do povo judeu, sua libertação da escravidão no Egito, seu estabelecimento no território que chamamos de Terra Santa, seu exílio, quando se espalharam por todo o mundo antigo, são partes do plano divino para bendizer todas as nações da terra. Passagens bíblicas como a de José no Egito, a de Ester na Pérsia ou a de Neemias são exemplos dessa visão da história. O cristianismo que surge em meio ao povo judeu tem essa mesma visão e considera o nascimento de Jesus em Belém, sua vida e ensinamentos, sua morte e ressurreição como parte do cumprimento do propósito divino. Neste ponto, as visões cristã e judaica diferem, pois não interpretam Jesus da mesma maneira. Na visão cristã, que com o tempo se impôs na Europa, a história se divide em um antes e um depois de Cristo. Nossa maneira de medir o tempo histórico reflete essa visão: vivemos 2012 anos depois do nascimento de Jesus. 

Uma maneira de compreender a Europa de hoje é também por meio da referência a Jesus Cristo. Podemos falar de uma Europa pré-cristã, uma Europa cristã e uma Europa pós-cristã. Moro na Europa, na cidade de Valência, na Espanha, situada na parte leste da península Ibérica, na costa do mar Mediterrâneo. Uma das ruas principais da cidade se chama San Vicente Mártir, pois durante uma das perseguições romanas contra os cristãos, no quarto século, morreu aqui como mártir um cristão conhecido por sua fé e seu ensinamento. No museu histórico da cidade, chamado “La Almoina” (em português, A esmola), podem ser vistos restos da calçada romana que atravessava a cidade no primeiro século, e também restos da igreja visigoda, construída no quarto século, perto de onde o mártir Vicente foi enterrado. Essa perseguição aos cristãos foi uma marca da Europa pré-cristã. 

A Europa pré-cristã

A Europa do primeiro século é a Europa pré-cristã, que estava sob o domínio político do Império Romano — mas na língua e na cultura predominava a influência grega. O domínio de Roma alcançava também o que hoje chamamos Ásia Menor e o norte da África. O idioma predominante, principalmente na parte oriental do império, era o grego koiné, no qual foi escrito o Novo Testamento. A expansão evangelizadora da igreja parte de Jerusalém, que ficava em uma região periférica do império; Roma era o centro. Roma havia forjado o império baseando-se em um exército poderoso e uma política de fundar cidades chaves (urbanização) e construir caminhos (comunicação). Assim como os gregos, os romanos chamavam de “bárbaras” as tribos que, provenientes da Ásia ou de regiões vizinhas ao império, se amontoavam nas fronteiras para entrar. No entanto, a Europa do primeiro século não era nem sombra da Europa de hoje. A economia estava baseada na escravidão, o poder sobre os súditos era exercido sem controle e misericórdia, não havia instituições para ajudar os pobres e o endividamento podia conduzir à escravidão. Os castigos àqueles que infringiam as leis eram de grande crueldade e as autoridades valorizavam a paz social a qualquer custo. Diversas religiões realizavam cultos imperiais, os quais proviam o suporte ideológico para legitimar o império. Ser cidadão romano outorgava certos privilégios e direitos, mas não era fácil alcançar a cidadania. 

Para os historiadores continua sendo um mistério como uma fé brotada na distante Jerusalém, entre pessoas sem poder político, nem prestígio, nem riquezas pôde, em menos de um século, chegar até o coração do império e se estender por todas as suas regiões. Um dos atuais especialistas no assunto, o sociólogo estadunidense Rodney Stark, no livro “The Rise of Christianity”, calcula que o número de cristãos no ano 300 era de 5 a 7 milhões. Ele se baseia em estudos antigos, como os de Harnack, e em mais recentes, como os de Mac Mullen, entre outros. Começando com uma estimativa de que no ano 40 havia mil cristãos, ele apresenta uma escala de crescimento a um ritmo acelerado de 40% por década:  

Ano População cristãPorcentagem
40 1.000 0.0017%
501.400 0.0023%
1007.5300.0126%
15040.496 0.07%
200217.7950.36%
2501.171.3561.9%
3006.299.83210.5%
35033.882.00856.5% 

  Esse crescimento ocorreu especialmente na Ásia Menor, no norte da África e no que hoje é a Europa. Dada a qualidade de vida dos cristãos e os altos valores éticos de sua conduta, o crescimento numérico foi logo acompanhado de um impacto social que mudou a vida no império.1 

Na narrativa do livro de Atos dos Apóstolos vemos que a entrada do evangelho na Europa teve lugar na cidade de Filipos, durante o primeiro século da era cristã. Paulo tinha planejado uma viagem em direção à Ásia Menor, mas de maneira muito explícita o Espírito Santo o guiou e, em uma noite, ele teve uma visão de um homem que lhe dizia: “Passa à Macedônia e ajuda-nos” (At 16.9). De imediato o apóstolo e sua equipe se dirigiram a Filipos, onde a mensagem do evangelho transformou três pessoas-chaves: uma mulher abastada, cuja casa passou a ser lugar de reunião; uma jovem escrava, que ao ser liberta do demônio deixou de dar lucro para seus amos e estes armaram uma confusão; e um carcereiro, funcionário endurecido que passou a comportar-se mais humanamente. Assim foi fundada a igreja que Paulo amou de forma especial (At 16.6-40). Foi uma igreja que se distinguiu por sua generosidade, tal como reconhece o apóstolo em uma de suas epístolas (2Co 8.1-5). 

O tom da narração indica a importância que Lucas dá à entrada na Europa. No primeiro século os judeus haviam se dispersado por todo o Império Romano e, como mostra o livro de Atos, em muitos lugares a colônia judaica foi o contato inicial para a pregação do evangelho de Jesus Cristo. Há estudiosos que consideram Paulo “o primeiro europeu”, pois em sua pessoa se conjugavam o judeu, o grego e o romano. Ele se formou na escola de Gamaliel, o melhor mestre da herança judaica, era familiarizado com a cultura grega, como demonstram seus escritos, e era cidadão romano, algo de que se orgulhava. 

Até o fim do primeiro século, em boa parte do que é hoje a Europa, havia igrejas que cresciam apesar das dificuldades e perseguições. No final do terceiro século, o evangelho já havia se espalhado por todo o território romano e, diante da decadência moral e social do império, a presença cristã foi um fator de correção e renovação espiritual e social. Quando os bárbaros invadiram o império, missionários cristãos evangelizaram os invasores e, assim, a Europa chegou a ser predominantemente cristã. Até o quarto século a decadência do Império Romano se acelerou e aumentou a pressão das invasões bárbaras. Na Europa este é o marco para o contínuo avanço dos monges missionários cristãos, que não só evangelizaram os bárbaros, mas também preservaram a herança cultural da antiguidade em grandes bibliotecas. O missiólogo brasileiro Valdir Steuernagel nos oferece um excelente quadro desta etapa no segundo capítulo de seu livro Obediência Missionária e Prática Histórica. 

Após a perseguição imperial, veio a aceitação do cristianismo, graças à chamada “conversão do imperador Constantino”. Primeiro os cristãos foram aceitos como adeptos de uma religião tolerável (Edito de Milão, ano 313); em seguida, por decreto, o cristianismo passou a ser a religião do Estado (Edito de Tessalônica, ano 381). Alguns evangélicos creem que a união entre a fé cristã e o império traria, com o tempo, a lenta perda da identidade cristã. No entanto, com a nova posição de privilégio, seria possível para os cristãos influírem na legislação e no sistema educativo, criarem instituições que expressassem sua compaixão e espírito de serviço. Os líderes da igreja, bispos e arcebispos chegariam a ser figuras poderosas e influentes na política e nas guerras. É isso que conhecemos como a “cristandade”.  

É preciso reconhecer nos séculos seguintes o trabalho de evangelização na Europa, em que se destacam missionários que seriam pregadores, evangelistas, tradutores e pastores. No extremo sudeste da Europa, por exemplo, onde hoje é a Turquia, Ulfilas (311–383) levou a cabo sua missão entre os godos. Patrício da Irlanda (c. 390–460) evangelizou o extremo noroeste, onde hoje são as ilhas Britânicas. Columba (c. 521–597) foi o missionário irlandês que organizou a comunidade de Iona, na Escócia, de onde se enviaram missionários para toda a Europa.2 Em reação à “mundanização” da igreja, trazida pela aliança com o poder político, surgiu o movimento monástico: um esforço para manter a pureza de vida e doutrina. Assim, o movimento missionário ligou-se intimamente aos monges e monastérios. 

A Europa cristã

Estamos tão acostumados a pensar na Europa como fonte da ação missionária cristã que podemos esquecer que a fé cristã é originária da Palestina e que, nos primeiros séculos, se estendeu marcadamente pelo Egito e norte da África. Entretanto, entre os anos 500 e 1500, essa fé se arraigou na Europa, influindo na cultura que surgia como fusão dos elementos hebraico, grego e romano. A isso se somaria a bagagem peculiar que aportavam francos, britânicos, celtas, visigodos e outros grupos bárbaros. Essa fusão de heranças diversas originou o que chamamos “cultura ocidental”. O regime da cristandade, a união entre poder político e religioso, foi experimentado tanto no cristianismo oriental, que se havia estendido pela Ásia Menor, com sede em Constantinopla, como no cristianismo latino, com sede em Roma e com pretensões de universalidade.  

A obra missionária dos primeiros séculos que mencionamos nem sempre seguiu o modelo evangélico atual de pregação: conversões individuais e formação da igreja com os convertidos. Na evangelização das tribos que chegaram a formar a Europa houve conversões coletivas notáveis.3 Os francos, por exemplo, dominaram a Gália e lhe deram o nome de França. Clóvis, seu rei, se casou com uma princesa cristã chamada Clotilde. Os francos estavam em guerra contra os alemães, que disputavam o território da Gália. Em determinado momento, o rei Clóvis prometeu a Jesus Cristo que, se lhe desse a vitória, se converteria à fé cristã. Os alemães foram derrotados e no dia de Natal do ano 496 o rei gaulês foi batizado em Reims. O evento gerou uma conversão em massa dos francos. De acordo com Alan Kreider, em “The Change” os “Conversion and the Origino f Christendom” (A mudança da conversão e a origem da cristandade), esta “conversão” de Clóvis e dos francos era o equivalente religioso de um “fast-food”, muito diferente das conversões da época do Novo Testamento. Para batizar-se, a pessoa renunciava publicamente aos ídolos e inclinava-se ante os sacerdotes católicos em sinal de submissão. A consequência destas conversões massivas foi que os bispos cristãos passaram a ter um papel político importante e a possuir tanto poder religioso como civil. Bastava então nascer em um destes reinos dominados por um monarca cristão para ser batizado e considerado parte da igreja. 

No regime da cristandade na Europa, os sinais exteriores da presença dos cristãos são evidentes: as catedrais costumam ocupar o centro da cidade e ter os edifícios mais altos, cruzes enormes dominam a paisagem, tanto nas cidades como nos campos, e há crucifixos nos escritórios de instituições médicas, jurídicas, administrativas ou policiais. A cruz também está gravada nos escudos dos guerreiros. A vida das pessoas é regida pelo som dos sinos das igrejas, que marcam as horas de oração; o calendário marca as datas importantes das celebrações cristãs, como a Páscoa e o Natal. Nas universidades, a teologia é a rainha das ciências e o centro do currículo. Os bispos de Roma se impuseram aos demais e copiaram a estrutura do império, fazendo da capital o centro do poder da igreja. Assim surgiu o catolicismo romano, que foi deixando de lado ou reformulando aspectos da fé cristã. Em muitos casos, mesmo com todos os sinais exteriores da fé cristã, não havia vivência do evangelho. Antes, tratava-se de um cristianismo nominal. Os movimentos de reforma e renovação que precederam a Reforma Protestante do século 16, e esta mesma reforma, foram críticos da condição espiritual do cristianismo meramente nominal das sociedades europeias. 

Não exageramos ao afirmar que neste processo de formação da Europa a belicosidade e o espírito de conquista dos reis cristãos, bem como as batalhas entre cristãos, eram uma negação do Espírito de Cristo. Isso explica por que, com o surgimento do Islã como uma força religiosa conquistadora, a resposta da Europa cristã foram as Cruzadas, nas quais se utilizou todo tipo de crueldade e violência. Também na pintura de alguns artistas europeus, Cristo, em vez de ser o profeta e mestre galileu que revelava o amor de Deus a todos os seres humanos, passou a ser o campeão, inspirador e protetor dos europeus em suas guerras.  

Já mencionei San Vicente Mártir da cidade de Valência, onde moro. Há outro San Vicente igualmente popular entre os valencianos. É San Vicente Ferrer (1350-1419), que encarna os valores da cristandade. Ele foi pregador eloquente e também político hábil e astuto. Em seus sermões e escritos há uma nota claramente antissemita; ele queria converter os judeus à força. Ainda que o admire como intelectual, prefiro o outro Vicente, o Mártir, como modelo de vida e entrega a Cristo. Vicente Ferrer incorpora as ambiguidades da cristandade católica: um discurso de vocabulário sublime e categorias cristãs acompanhado de uma atuação política e religiosa com muito pouco da ética derivada da mensagem de Jesus Cristo e seus apóstolos. 

No século 16, com o descobrimento das Américas, saem da Europa cristã os missionários que empreenderão a evangelização do chamado “Novo Mundo”. A experiência de como haviam sido evangelizados os europeus e o conceito de união completa entre poder político e religioso fazem com que a empresa missionária da Espanha e de Portugal esteja intimamente ligada à conquista militar e política. A mesma ambiguidade com respeito à qualidade da vida cristã na Europa medieval se traslada às Américas. O teólogo católico Gustavo Gutiérrez, no livro “En busca de los pobres de Jesucristo” (Em busca dos pobres de Jesus Cristo), demonstra como ao longo dos séculos da história europeia foi se desenvolvendo uma teoria missionária que justificava o emprego da força para “civilizar”, com o fim de em seguida evangelizar, como se fez na conquista ibérica das Américas. Porém, Gutiérrez mostra também que houve pessoas, como o dominicano Bartolomé de las Casas, que queriam seguir o modelo evangelizador de Jesus Cristo. O missiólogo luterano Valdir Steuernagel, no terceiro capítulo do livro que citei acima, nos apresenta um retrato de Francisco de Assis e de seu esforço para reformar a cristandade e fazer missão seguindo o modelo de Jesus. Um resumo útil das ambiguidades da evangelização portuguesa, no caso do Brasil, nos é oferecido por Elben César, em seu livro História da Evangelização do Brasil

No século 16, a Reforma Protestante transformou especialmente o norte da Europa, acarretando o avanço da ciência e da tecnologia e, logo, a Revolução Industrial. A sociedade feudal de grandes senhores e servos da Idade Média foi substituída pela sociedade capitalista, que Marx analisou e criticou. Dos séculos 17 ao 19, os despertamentos espirituais dentro do protestantismo, como o metodismo e o movimento “evangelical” no mundo de língua inglesa, tiveram influência no surgimento do sindicalismo e da evolução em direção a sociedades mais democráticas e menos injustas no aspecto social e econômico. Os intelectuais precursores da Revolução Francesa de 1789 foram críticos do cristianismo feudal e pregaram uma sociedade laica, livre do domínio do catolicismo constantiniano. Em um ambiente polêmico iniciaram-se as definições sobre os direitos humanos. A Igreja Católica adotou uma postura defensiva e reacionária, fazendo com que, na Europa latina (França, Espanha, Itália, Portugal), o cristianismo fosse identificado como inimigo da liberdade e do progresso — o que influiu sobre os latino-americanos, que lutavam para romper o jugo colonial no início do século 19. 

Ainda que nos países protestantes a tensão tenha sido menor, também no mundo de língua inglesa e alemã apareceram intelectuais que, aplicando um racionalismo sistemático à fé cristã, questionaram a influência das ideias cristãs na sociedade. A obra missionária protestante, especialmente a procedente da Grã-Bretanha, floresceu no século 19. Ela estava ligada aos interesses imperiais da missão ibérica do século 16. Contudo, isso não impediu que Ásia, África e América Latina olhassem os missionários protestantes como propagadores do progresso científico, social e econômico da Europa. Os críticos das missões cristãs citaram muito uma frase famosa do missionário David Livingstone em um discurso a uma junta que o enviava da Inglaterra: “Regresso à África para abrir um caminho para o comércio e para o cristianismo”. 

No século 20, as duas guerras mundiais e o surgimento do nazismo e do comunismo foram uma demonstração de que a Europa já não podia orgulhar-se de ser uma Europa cristã. Nas duas guerras mundiais havia capelães cristãos abençoando as tropas de ambos os lados. As igrejas estavam tão débeis que não podiam impedir a guerra? Como os cristãos alemães podiam ter permitido o Holocausto, em que Hitler matou 6 milhões de judeus? Relativamente poucas foram as vozes valentes que protestaram em nome da fé. Por sua vez, os intelectuais que dominavam a cena cultural eram inimigos do cristianismo. Este é o caso dos três conhecidos “mestres da suspeita” (expressão criada pelo teólogo francês Jacques Ellul): Karl Marx, Sigmund Freud e Friedrich Nietzsche. Para Marx, a religião em geral, incluindo o cristianismo, era o “ópio do povo”; e, para Freud, uma ilusão que não tinha futuro. 

A Europa pós-cristã

kaysgeog, Flickr
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Paróquia de Kelvinside em Glasgow, Escócia: centro de eventos, discoteca, bar, restaurante

Na França, no ano de 1943, em plena guerra mundial, os abades católicos Godin e Daniel escreveram um livro que caiu como uma bomba entre os cristãos que pensavam sua fé e se interessavam pela missão cristã. O título do livro era “La France, Pays de Mission?” (França, país de missão?). Usando estatísticas sobre a prática religiosa quase nula dos franceses, sobretudo dos universitários e dos trabalhadores sindicalizados, os autores sustentaram que, ainda que os católicos franceses enviassem missionários à África e à Ásia, na verdade, a própria França era um território de missão, onde era preciso anunciar a mensagem cristã e chamar as pessoas à conversão. Desta tomada de consciência do catolicismo francês surgiu a experiência dos sacerdotes obreiros.  

O próprio conceito de missão mudou durante o século 20. Na situação da cristandade, a ideia da “missão cristã” evocava um deslocamento geográfico de pessoas especialmente dedicadas a levar o evangelho de “países cristãos” a territórios “não cristãos”. Essa foi a visão da famosa Conferência Mundial Missionária realizada em Edimburgo, Escócia, em 1910. Naquela ocasião, representantes da maioria das missões protestantes europeias e estadunidenses se reuniram para formular um ambicioso plano para permitir “a evangelização do mundo nesta geração”. Depois de um século de trabalho intenso e frutífero, as mais antigas juntas missionárias protestantes sonhavam em “completar a tarefa” de evangelizar o mundo inteiro. Essa conferência foi um marco na história do cristianismo. 

 Em Edimburgo aconteceu algo importante para os ibero-americanos. Pela pressão de um setor mais próximo do catolicismo na igreja anglicana, foram excluídos da conferência os missionários protestantes que trabalhavam em países católicos ou ortodoxos. De acordo com Justo González, em seu livro “História del Cristianismo”(História do Cristianismo), alguns luteranos que queriam evitar a presença de missionários metodistas ou batistas em países europeus de maioria luterana também apoiaram isso. Considerava-se que esses países já eram cristãos e que neles não havia lugar para missões protestantes. Foram inúteis os protestos de missões e missionários evangélicos que sabiam que a realidade espiritual dos países católicos, por exemplo, estava longe de ser uma realidade em que se pudesse considerá-los como já evangelizados. Assim, predominou o conceito de igreja territorial, próprio da situação da cristandade. 

Via wherecoolthingshappen.com

Igreja Broerenkerk em Zwolle, Holanda: Livraria
a wherecoolthingshappen.com

Hoje, a ideia de “país cristão” já não é aceitável nem sequer na Europa ou nos Estados Unidos. Em 1928, na reunião do Conselho Missionário Internacional, em Jerusalém, os missionários e teólogos fizeram soar uma voz de alerta, mostrando que os países europeus precisavam de missionários, pois estavam se “descristianizando”. O conceito de missão como deslocamento geográfico foi substituído por um conceito mais bíblico, que entende que a igreja deve ser missionária onde quer que esteja, em seu próprio ambiente ou em terras distantes. Uma igreja não é missionária simplesmente porque envia missionários a terras distantes, como se sua missão já estivesse cumprida em seu próprio contexto. A igreja estará sempre em estado de missão, pois o mundo todo é campo missionário para o povo de Deus.4 

A Europa é hoje um campo missionário. A vida cômoda em uma sociedade de consumo trouxe consigo a indiferença espiritual. As “sociedades de bem estar”, nas quais tantos imigrantes da Ásia, África, e América querem se instalar, se caracterizam por uma notável diminuição da prática religiosa cristã. De acordo com os dados apresentados por Philip Jenkins em “Europa ateia”?, o número de franceses que se declaram cristãos, por exemplo, baixou de 80% em 1990 para 51% no ano de 2007. Quando perguntados se a religião ocupa um lugar importante em sua vida, apenas 21% dos europeus responderam afirmativamente. Dentre os países, os números são de 27% na Itália, 21% na Alemanha e França e 11% na República Checa. Um estudo de 2004 na Inglaterra revelou que somente 44% das pessoas admitiam crer em Deus, enquanto 35% negavam a crença e 21% respondiam “não sei”. Com respeito à Alemanha, o cardeal católico William Meister, da cidade de Colônia, afirma que na arquidiocese de Colônia há 2,8 milhões de católicos, mas nos últimos trinta anos eles perderam 300 mil. Para cada batismo há três funerais. 

A realidade da Espanha é significativa. Desde 1939, quando os franquistas triunfaram na cruel guerra civil (1936–1939), a Espanha estava dominada pelos vencedores, entre os quais estavam os bispos católicos. Estes decidiram que a Espanha era a “reserva espiritual da Europa” e instalaram um regime constantiniano ao extremo, que durou até 1978. Hoje, a situação pós-cristandade chama a atenção na Espanha em relação às atitudes das pessoas para com a Igreja Católica Romana. Um artigo do jornal “Público”, reproduzido no site Protestante Digital (29 de dezembro de 2009), oferece cifras e comentários eloquentes comparando dados entre 2007 e 2009. A proporção de espanhóis que se declaram católicos (praticantes ou não) baixou de 80,2% no final de 2007 para 78,3% no final de 2009. A proporção de católicos praticantes baixou de 30% para 26,2%. A queda se nota especialmente entre os jovens: os de 18 a 29 anos que se declaravam católicos praticantes em 2007 eram apenas 15,2%; mas, em 2009, a proporção caiu para 10,4%, uma perda de quase um terço dos efetivos. 

 É curioso comprovar que este retrocesso das crenças cristãs acompanha um avanço das superstições pagãs. Cada vez há mais espanhóis que creem na astrologia (quase cinco pontos a mais), na existência de bruxas e em outras pessoas com poderes maléficos (três pontos a mais), ou na possibilidade de adivinhar o futuro (um ponto e meio a mais). Parece que se cumpre estatisticamente a famosa frase de Chesterton que afirma que quando as pessoas deixam de crer em Deus são capazes de crer em qualquer coisa.  

O outro lado da moeda é que a presença massiva de imigrantes em quase todos os países desenvolvidos criou uma nova situação religiosa. Lembremos que durante os séculos 19 e 20 a fé cristã deixou de ser “a religião do homem branco”, europeu ou estadunidense, e passou a ser uma igreja global cuja força estatística está hoje na África, certos países asiáticos e América Latina. O movimento migratório deu lugar à formação de “diásporas” cristãs, por exemplo, salvadorenhos e filipinos nos Estados Unidos, africanos no Reino Unido, bolivianos na Argentina, sul-americanos na Espanha. Na Europa, as diásporas vieram para revitalizar as igrejas — no caso dos imigrantes que se integram a elas — e para aumentar o número de igrejas — no caso dos que se reúnem em separado. Vejamos alguns exemplos com três breves histórias. 

Começamos com a história de uma igreja africana, a Embaixada do Bendito Reino de Deus Para Todas as Nações, em Kiev, Ucrânia, fundada em 1994 pelo evangelista Sunday Adelaja. Ele chegou à Ucrânia vindo da Nigéria, sua terra natal, com uma bolsa de estudos para receber uma formação comunista. Com a queda do marxismo e a dissolução da União Soviética, Adelaja fundou esta igreja pentecostal com sete membros na nova República da Ucrânia. Hoje, a igreja tem 30 mil membros, em sua maioria brancos, cinquenta igrejas filhas em Kiev, mais de cem em toda a Ucrânia, e umas duzentas no resto do mundo. Segundo Jenkins, estima-se que seus programas de rádio e televisão alcancem cerca de 8 milhões de pessoas.  

Em Londres está a Comunidade Cristã de Londres, fundada em 1980 por Edmundo Ravello, um missionário peruano. Com seus 3 mil membros, esta igreja de imigrantes hispano-falantes é uma das maiores igrejas evangélicas da cidade. Tem um rosto latino-americano definido e nela cada culto é uma festa. Para Miguel Palomino, em seu livro “Latino Immigration in Europe” — “challenge and opportunity for mission”(“Imigração latina na Europa — desafio e oportunidade para missão”), as igrejas organizadas segundo o sistema de células reproduzem modelos da família latino-americana e, por isso, constituem um lar espiritual para milhares de migrantes hispano-americanos que moram em Londres. 

Por fim, temos um fato relativamente recente: o estabelecimento de uma “conexão chinesa” para a educação tecnológica em Castelldefels, próximo a Barcelona. Dentro da diáspora chinesa por todo o mundo há organizações que têm uma visão global informada e fazem um uso racional de seus recursos materiais e humanos. A diáspora chinesa na Espanha entrou em um convênio com o Instituto Bíblico y Seminario Teológico de España (IBSTE) — uma entidade evangélica espanhola muito conhecida — e usará o local e os recursos educativos da faculdade para formar missionários chineses para a Europa. A primeira formatura de nove obreiros cristãos foi assistida por 500 cristãos chineses vindos da Europa. Quem diria aos missionários que fundaram o IBSTE há várias décadas que essa escola entraria em um convênio para capacitar missionários chineses? 

Estes três exemplos ilustram a variedade de formas que a presença da igreja global assume na Europa. Não os apresento aqui necessariamente como modelos a serem imitados, mas como casos ilustrativos da diversidade de atividades e estilos com que os migrantes provenientes de igrejas relativamente jovens respondem às realidades missionárias da Europa hoje. Seu dinamismo provém de um sentido de missão e obediência ao Senhor que somente pode ser impulsionado pelo Espírito Santo, que é quem sempre impulsionou a missão cristã. 

Além da presença migrante que adquire um caráter missionário, temos hoje na Europa uma força missionária enviada por países que antes foram campos de missão. É necessário reconhecer que o dinamismo missionário foi trasladado para o sul. As igrejas africanas e latino-americanas, por exemplo, são pobres e enfrentam desafios pela crise social e econômica de suas regiões. No entanto, estas igrejas estão enviando missionários a outras partes do mundo. Algumas igrejas asiáticas jovens, como as da Índia e da Coreia, irromperam no mundo missionário com força inusitada. 

“Passa à Europa e ajuda-nos” é o pedido de um bom número de irmãos em Cristo — europeus que levam a sério o desafio missionário que a Europa representa neste ano de 2012. Este pedido é dirigido aos cristãos e igrejas da África, América Latina e Ásia, onde, neste momento, o Senhor tem permitido que floresçam igrejas que crescem e onde surgem muitas vocações missionárias. Neste ano de 2012, a Europa chegou a ser um novo campo de missão.

 É urgente o anúncio do evangelho. Muitos dos imigrantes que vêm da América Latina, Ásia e África trazem uma fé vigorosa e estão estabelecendo igrejas que respondem a suas profundas necessidades materiais e espirituais. É necessário cooperar com esse trabalho missionário espontâneo, formar líderes, pastorear pessoas em crise, encaminhar novas gerações à fé, ajudar a ganhar outra vez credibilidade para a mensagem cristã. Para isso, além dos missionários espontâneos, é urgente que venham missionários que possam capacitar-se e dedicar-se por completo às tarefas docentes e pastorais, ao acompanhamento de novas igrejas e a formas criativas de evangelização e comunicação da mensagem do evangelho.  

“Passa à Europa e ajuda-nos”: aqui são necessários missionários e missionárias capacitados, sensíveis, abertos a situações novas e difíceis, preparados para um serviço sacrificial e que sintam um chamado inequívoco de Deus. Faltam igrejas, grandes ou pequenas, que reconheçam e enviem estes mensageiros e mensageiras do evangelho, que os apoiem em oração, que os acompanhem de longe e que tornem possível seu envio e sustento. É um novo tempo de missão na Europa. Notas1. Uma excelente síntese deste processo é a de Michael Green, em “A Evangelização na Igreja Primitiva” (Desafío, 1997). O autor estuda a fundo a mensagem e o estilo de vida dos cristãos e os obstáculos e vantagens que foram providos pela “Pax Romana”.2. Timothy Yates, em “La Expansión del Cristianismo” (San Pablo, 2007), faz um excelente resumo do assunto.3. Uma boa síntese histórica deste processo está no capítulo 26 de “História del Cristianismo”, Justo González (Unilit, 1994).4. Dedico-me com mais amplitude a este conceito no primeiro capítulo de meu livro “Cómo Comprender la Misión” (Editorial Certeza Unida, 2008). Traduzido por Wagner Guimarães 

• Samuel Escobar trabalhou com estudantes universitários da América Latina e Canadá durante 26 anos. É professor na Faculdade de Teologia Protestante de Madri e autor de  “de La Fe Viva que Impulsa a La Misión”(Tiago — a fé que impulsiona a missão).

Fonte:
https://www.ultimato.com.br/revista/artigos/337/capa

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