A SERIEDADE DO MINISTÉRIO DA PALAVRA

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Rev. Valdeci Santos

Notícias sobre pastores deixando o ministério, envergonhando o ministério e usando o ministério para benefício próprio geralmente despertam a atenção nas mídias do setor publicitário. Contudo, pela graça de Deus, muitos pastores têm cumprido fielmente o ministério, zelando de suas vidas e da doutrina bíblica, o que resulta no avanço do Evangelho e benefício da igreja de Cristo. Usando uma explicação comumente atribuída a Billy Graham, é possível afirmar que todos os dias, de diferentes partes do mundo, milhares de aviões levantam voos e pousam em segurança nas pistas dos aeroportos de seus destinos. Mas se acontece algum acidente com algum deles, a exceção vira notícia e alguns passam a desconfiar da eficácia do transporte aéreo. O mesmo acontece com os escândalos no universo pastoral. Infelizmente, nenhuma denominação está imune a essa desventura.

A trágica situação de pastores que não desempenham corretamente o ministério da Palavra é tratada com seriedade nas páginas das Escrituras e deveria servir de advertência àqueles que labutam na obra ministerial. Textos como Tiago 3.1 que ensina que aquele que ensina receberá “maior juízo”, bem como Mateus 18.6 que afirma ser melhor pendurar uma pedra de moinho ao pescoço e ser afogado nas profundezas do mar do que fazer um pequenino do reino tropeçar, deveriam ser suficientes para colocar em alerta qualquer líder sobre o rebanho de Cristo. Contudo, temos também inúmeros exemplos de como algumas pessoas que erroneamente conduziram o povo de Deus foram julgadas pelo próprio Senhor.

Nesse sentido, é importante considerar como o Senhor tratou alguns sacerdotes do Antigo Testamento, pois a função dos sacerdotes não consistia apenas em oferecer sacrifícios, mas em ensinar e liderar o povo de Deus. No livro de Malaquias temos a afirmação de que “os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens procurar a instrução, porque ele é mensageiro do Senhor dos Exércitos” (Ml 2.7). Assim, é possível considerar o ministério da Palavra como uma vocação análoga àquela exercida pelos sacerdotes da antiga aliança. Eles deveriam ensinar e ser reconhecidos como “mensageiros do Senhor”, semelhante ao trabalho exercido pelos pastores atualmente. Por isso, as exortações divinas aos sacerdotes na primeira parte de Malaquias 2, apontam para a seriedade do ministério e são relevantes aos pastores contemporâneos.

Compreendendo o Texto Bíblico

Malaquias 2 é uma mensagem de juízo aos sacerdotes que exerciam o ministério de maneira displicente. A exortação é diretamente dirigida a eles no verso 1: “Agora, ó sacerdotes, para vós outros é esse mandamento”. Em outras palavras, o próprio Deus julga o proceder daqueles que ministram na função de ensino e liderança sobre o seu povo. Essa dimensão espiritual geralmente é esquecida por aqueles que estão “familiarizados com o sagrado”, pois caem na armadilha de considerar o ministério apenas no sentido horizontal e não no vertical. Porém, o profeta Malaquias lembra que Deus está ativamente comprometido em julgar seus ministros e exigir deles seriedade no desempenho de suas funções.

Para enfatizar o juízo divino, o profeta lembra aos sacerdotes as ameaças do próprio Senhor sobre suas vidas e ministérios. No texto em questão, há quatro ameaças divinas claramente dirigidas àqueles sacerdotes que não ouvissem e não se propusessem a honrar o nome do Senhor. Em primeiro lugar, Deus promete enviar maldições sobre eles (v 2). Essas maldições seriam provenientes daquele que é o Senhor do universo, que possui toda a autoridade nos céus e na terra e cuja palavra possui eficácia criadora. Logo, aquela era uma séria ameaça. Em segundo lugar, Deus amaldiçoaria as bênçãos daqueles sacerdotes (v 2). De fato, Deus afirmou que já havia amaldiçoado aquelas bênçãos. Ou seja, as palavras proferidas pelos lábios daqueles homens se transformavam em pragas sobre a cabeça daqueles que os ouviam. O coração daqueles pastores não era reto diante de Deus e as ovelhas sofriam as consequências de suas ações.

Em terceiro lugar, Deus afirmou que reprovaria a descendência e o trabalho daqueles sacerdotes (v 3). A palavra usada para “descendência” aqui não é clara, podendo também significar “colheita”, o resultado da participação laboral daqueles homens. O fato é que os esforços daqueles ministros que desconsideravam a seriedade do ministério seriam punidos pelo próprio Deus. E, em último lugar, Deus prometeu envergonhá-los publicamente (v 3). A linguagem usada pelo profeta é chocante, pois ele diz que o Senhor lançaria excremento na face dos sacerdotes. Em outras palavras, o ministério daqueles homens teria o mesmo valor que excremento aos olhos do Senhor e o próprio Deus transformaria a glória deles em vergonha. Esse castigo parece especialmente irônico, considerando que muitos que exercem o ministério almejam o reconhecimento humano e ambicionam glórias, pois o Senhor os ameaça com a perda da dignidade.

Ao considerarmos a estrutura e as ameaças em Malaquias 2, podemos ter uma ideia da seriedade do ministério da Palavra aos olhos do Senhor. Assim, é possível observar os erros comuns dos que labutam nesse ministério, tanto na antiga quanto na nova aliança, e, por fim, atentar para aquilo que Deus exige de seus ministros.

Fracassos Comuns no Ministério da Palavra

No texto de Malaquias, o Senhor estava irado com os seus sacerdotes por causa de cinco erros cometidos por eles. Infelizmente aqueles erros não eram prerrogativas apenas dos sacerdotes na época de Malaquias, mas continuam sendo praticados por alguns pastores do rebanho de Cristo na atualidade.

1. Deixar de ouvir a Deus (v 2). Aqueles que eram responsáveis por ensinar o povo, não inclinavam seus ouvidos aos ensinamentos do próprio Deus. Isso pode ser especialmente observado em nossos dias entre aqueles pregadores que estudam o texto bíblico, não dizem “absolutamente nada” sobre o que o texto ensina e impõem suas ideias descaradamente na pregação e ainda chamam aquilo de sermão. Esse erro continua atormentando os ministros da Palavra.

2. Deixar de buscar a honra do Senhor em seu coração (v 2). Aqueles sacerdotes eram culpados de não inclinarem o coração para buscar a honra do Senhor. O inverso daquela atitude era que desprezavam o Senhor em seu próprio coração. Assim, um pastor cujo coração não se inclina para buscar a glória de Deus é, em última instância, um fracasso, não importa quantos seguidores ele tenha ou qual o tamanho de sua congregação. Ao final, seu interesse é sua própria glória e não a glória daquele que é o Senhor da igreja.  

3. Se desviar dos caminhos do Senhor (v 8). Os sacerdotes se desviavam do caminho que eles exigiam ser seguidos pelo povo de Deus. Ou seja, eram incoerentes em relação àquilo que ensinavam, pois viviam de modo contrário ao que pregavam. Deus ainda afirma que ele os havia feito indignos diante do povo, pois não guardavam os caminhos do Senhor (v 9). Lamentavelmente esse continua sendo um fracasso de muitos ministros que ensinam uma coisa e praticam outra diferente do que pregam. Malaquias interpreta isso como sendo um “desvio dos caminhos do Senhor”.

4. Parcialidade na aplicação dos mandamentos do Senhor (v 9). Os mandamentos do Senhor não eram ensinados de maneira integral, mas apenas parcialmente. Além do mais, eles também falhavam na aplicação dos ensinamentos do Senhor. No caso dos sacerdotes, assim como eles ofereciam os animais de sua preferência (cap. 1), também selecionavam apenas os temas e tópicos de sua preferência no ensino da Palavra de Deus. Embora eles tivessem sido vocacionados para instruir “toda” a Palavra, ministravam apenas aquilo com o qual concordavam e não lhes traria problemas diante do povo. Esse é mais um erro que persiste entre os ministros de Deus na atualidade.

5. Colaborar com o tropeço de muitos (v 8). Ao considerar todos os erros anteriores, o leitor compreenderá melhor o miolo do verso 8, pois qualquer líder que caminhar nas falhas anteriormente apresentadas, certamente levará muitos ao tropeço. É necessário entender que, embora o pecado do ministro não seja diferente em termos de qualidade, da transgressão de qualquer outro crente, ele difere em termos de gravidade, pois ele pode influenciar muitos ao tropeço por suas falhas. Além do mais, liderança exige confiança e os erros dos líderes corroem a confiança dos seus liderados a tal ponto que eles são desmotivados na busca por uma retidão maior. Assim como os sacerdotes eram culpados por colaborar com a queda e tropeço de algumas pessoas no passado, há pastores hoje laborando no mesmo erro.

Um modelo a ser seguido

É consolador observar que no meio desse texto de maldições e acusações, há alguns versículos que apresentam um sacerdote que foi bem-sucedido em seu ministério. Os versos 4-6 fazem referência a Levi, com quem Deus fez uma aliança perpétua. Embora o procedimento de Levi antes da aliança com o Senhor tenha sido violento e vergonhoso, o fato é que após Deus ter estabelecido uma aliança com ele, seu procedimento e ministério foram elogiados nesses versos.

De acordo com as palavras desses versículos, o sucesso de Levi em seu ministério se deveu ao fato de ele ter “temido e tremido por causa do nome de Deus”. Ou seja, ele compreendeu a seriedade do seu chamado à luz do caráter daquele que o vocacionou. O ministério da Palavra é sério porque o ministro serve ao Deus santo e verdadeiro. Há uma dimensão espiritual no ministério que não pode ser esquecida por nenhum pastor ou obreiro na causa do Senhor. 

Em segundo lugar, o texto ensina que Levi foi fiel ao cerne do seu chamado, ou seja, instruir o povo de Deus. O verso 6 afirma que a “verdadeira instrução esteve em sua boca, e a injustiça não se achou em seus lábios”. Ou seja, o realce do ministério de Levi não foi o número de sacrifícios realizados e nem a estatística de sua popularidade, mas sua fidelidade ao ensino. Infelizmente há muitos pastores que desperdiçam o tempo realizando aquilo para o qual não foram chamados e, lentamente, se desviam do cerne do seu chamado. É comum encontrar alguns cuja paixão por cargos, posições e popularidade é exponencialmente maior do que seu desejo de ensinar os princípios do Senhor ao seu povo.

Por último, é enfatizada a intimidade de Levi com o Senhor, pois o texto afirma que ele andou com Deus em “paz e retidão”. Aquele mesmo caminhar com Deus deveria caracterizar todos os outros sacerdotes que vieram após Levi. Semelhantemente, aquele proceder deve ser uma marca na vida de todo ministro que representa o Senhor no cuidado do seu rebanho. Infelizmente, porém, intimidade com o Senhor raramente faz parte da lista de prioridade de muitos pastores contemporâneos e escândalos continuam se multiplicando na igreja do Senhor. 

O resultado do ministério de Levi mencionado nesses versos é contundente. O texto sagrado afirma que “da iniquidade [ele] apartou a muitos” (v 6). O Senhor certamente abençoa o ministério de alguém dedicado a ele. Se zelarmos por nossa devoção contínua ao Senhor seremos como um daqueles aviões que levanta voo e pousa seguramente em seu destino. 

É necessário que o ministério pastoral seja considerado seriamente. É necessário que os ministros da Palavra considerem os ensinamentos da Palavra, tanto por exortações quanto por exemplos a fim de evitarem que trágicas notícias sobre escândalos ministeriais continuem satisfazendo o apetite desenfreado da mídia publicitária.   

Fonte: Portal IPB | A seriedade do Ministério da Palavra

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Pastor Eli Vieira é casado com Maria Goretti e pai de Eli Neto. Responsável pelo site Agreste Presbiteriano, Bacharel em Teologia, Pós-Graduado em Missiologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, Recife-PE e cursando Psicologia na UNINASSAU. Exerce o seu ministério pastoral na Igreja Presbiteriana do Brasil desde o ano 1997 ajudando as pessoas a encontrarem esperança e salvação por meio de Jesus Cristo. Desde a sua infância serve ao Senhor, sendo educado por seus pais aos pés do Senhor Jesus que me libertou e salvou para sua honra e glória.

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