A Vida de Sarah Edwards – FIEL EM MEIO AO MUNDANO

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Autora: Noël Piper

O século XVIII, no Novo Mundo, treze pequenas colônias britânicas se amontoavam próximas à costa do Atlântico — colônias separadas, não um país. A América não era uma nação, mas um continente quase totalmente desconhecido. Além das colônias, em direção ao oeste, nenhum europeu havia ainda descoberto ou medido a terra que se estendia até o desconhecido.

A Nova Inglaterra e as outras colônias eram uma frágil ponta de terra conhecida, à margem do continente. Os colonos eram cidadãos britânicos, cercados de territórios de outras nações. A Flórida e o sudoeste pertenciam à Espanha. O Território da Louisiana pertencia à França. Os franceses, em particular, eram ávidos por aliarem-se aos índios, os habitantes locais, contra os ingleses.

Portanto, qualquer história iniciada em meio a esse tênue contexto político devia evocar a visão de tropas nos topos das montanhas, os sons de tiros à distância, o desconforto dos soldados se posicionando nas propriedades dos colonos, o choque e o terror das notícias sobre massacres nas colônias vizinhas. Este era o contexto da vida diária, num grau maior ou menor, nas colônias inglesas, durante todo o século XVIII.

SARAH PIERREPONT

Em meio a esse contexto, Sarah Pierrepont nasceu, em 9 de janeiro de 1710. Toda a sua vida seria desgastada no cenário de incerteza política e de guerra iminente. Sua família vivia no presbitério de New Haven, Connecticut, onde seu pai, James, era pastor. Ele foi um dos fundadores do Yale College e uma autoridade proeminente na igreja da Nova Inglaterra.

A mãe de Sarah foi Mary Hooker, cujo bisavô, Thomas Hooker, foi um dos fundadores de Connecticut. Thomas Hooker teve um papel importante quando as Ordens Fundamentais da colônia foram escritas, provavelmente a primeira constituição escrita da história.

 Como filha de uma das famílias mais distintas de Connecticut, Sarah teve a melhor educação que uma mulher daquele tempo poderia receber. Aperfeiçoou-se nas habilidades refinadas da sociedade. As pessoas que a conheciam mencionavam sua beleza e sua maneira de fazer as pessoas se sentirem bem. Samuel Hopkins, que mais tarde a conheceu, enfatizou a “peculiaridade de sua encantadora expressão, como resultado da combinação de inteligência e bondade”.1

JONATHAN EDWARDS

Diferentemente dela, Jonathan Edwards, seu futuro marido, era introvertido, tímido, inquieto e de pouco falar. Iniciou seus estudos na faculdade aos treze anos e formou-se como orador oficial. Comia pouco, naquele tempo de mesas fartas, e não era inclinado à bebida. Era alto, desajeitado e muito esquisito. Faltava-lhe cordialidade. Ele escreveu em seu diário: “Uma virtude que necessito em mais alto grau é a gentileza. Se eu tivesse um ar mais gentil, seria muito melhor”.2

(Naquele tempo, gentileza significava cordialidade, o que caracterizava um cavalheiro.)

SARAH E JONATHAN

Em 1723, aos dezenove anos, Jonathan se formou, em Yale, e foi pastor em Nova York, por um ano. Quando terminou seu período de pastorado naquela igreja, começou a trabalhar como professor em Yale e voltou para New Haven, onde Sarah Pierrepont morava. É possível que Jonathan já a tivesse conhecido três ou quatro anos antes, quando estudara em Yale. Naquele tempo de estudante, quando tinha mais ou menos dezesseis anos, Jonathan provavelmente viu Sarah, quando frequentava a Primeira Igreja de New Haven, onde o pai dela pastoreou até a sua morte, em 1714, e onde seus familiares continuaram como membros.3

Em seu retorno, em 1723, Jonathan tinha vinte anos e Sarah treze, num tempo em que era comum as moças se casarem aos dezesseis anos.

Ao iniciar seu trabalho como professor, no início do ano letivo, parece que Jonathan se distraiu um pouco de sua dedicação habitual aos estudos. Uma história popular nos conta que ele sonhava diante de sua gramática de grego, a qual tencionava estudar, a fim de preparar sua aula. Em vez disso, encontramos sobre a página de rosto daquela gramática, um relato de seus verdadeiros pensamentos:

Dizem que em [New Haven] existe uma moça amada do Grande Ser, Aquele que criou e governa o mundo. Dizem que em certos períodos este Grande Ser vem ao encontro desta moça e, de uma maneira invisível, enche-lhe os pensamentos com extraordinário deleite; e que ela dificilmente se interessa por qualquer outra coisa, exceto meditar nEle… [Você] não pode persuadi-la a fazer qualquer coisa errada ou pecaminosa, ainda que prometa dar-lhe o mundo inteiro, pois ela receia ofender a este Grande Ser. Ela possui muita doçura, tranquilidade e total benevolência de pensamento; especialmente depois que este Grande Deus se manifestou a ela. Às vezes, anda de um lugar a outro, cantando com doçura; e parece estar sempre cheia de alegria e gozo… Ela ama estar sozinha, passeando pelos bosques e campos, e parece ter Alguém Invisível sempre a conversar com ela.4

Todos os biógrafos mencionam o contraste entre os dois. Porém, uma coisa que tinham em comum era o amor pela música. É possível que Sarah soubesse tocar alaúde.(No ano de seu casamento, cordas para alaúde era um dos itens da lista de compras que Jonathan levou em uma viagem.5 Pode ter sido para um músico do casamento ou mesmo para Sarah.) Jonathan mencionava a música como o modo mais perfeito pelo qual as pessoas deviam se comunicar umas com as outras.

O melhor, mais bonito e mais perfeito modo que temos de expressar um ao outro a doce concordância de pensamento é por meio da música. Quando construo em minha mente a ideia de uma sociedade no mais alto grau de felicidade, penso nessas pessoas expressando seu amor, sua alegria, a concordância, a harmonia e a beleza espiritual de suas almas, cantando um para o outro.6

Aquela imagem era apenas o primeiro passo para um salto da realidade humana para a realidade celeste, onde Jonathan viu a doce intimidade humana como uma simples canção, comparada à sinfonia de harmonias na intimidade com Deus.

Enquanto Sarah crescia e Jonathan tornava-se, de certa forma, mais gentil, eles começaram a passar mais tempo juntos. Gostavam de conversar e caminhar juntos; e ele aparentemente encontrou nela uma mente que combinava com sua beleza. De fato, ela lhe apresentou um livro de Peter van Mastricht, o qual mais tarde muito influenciaria o pensamento de Jonathan.7 Eles ficaram noivos na primavera de 1725.

Jonathan era um homem cuja natureza enfrentaria incertezas, tanto em seus pensamentos quanto em sua teologia, como se tais incertezas lhe causassem grande tensão física. Além disso, os anos que teve de esperar até que Sarah tivesse idade para casar trouxeram-lhe pressão ainda maior. Aqui estão algumas palavras que ele usou para descrever a si mesmo, extraídas de seu diário, em 1725, um ano e meio antes de casarem-se:

29 de dezembro – Entediado e desanimado

9 de janeiro – Abatido

10 de janeiro – Recuperando

Provavelmente seus sentimentos por Sarah fizeram com que Jonathan temesse pecar por pensamentos. Em seu esforço por manter-se puro, fez a seguinte resolução: “Quando sou violentamente atacado por uma tentação, ou não consigo livrar-me de pensamentos impuros, decido fazer alguma operação aritmética ou de geometria, ou algum outro estudo, que necessariamente envolva toda a minha mente e a impeça de ficar vagueando”.9

COMEÇO DA VIDA CONJUGAL

Jonathan Edwards e Sarah Pierrepont se casaram, finalmente, em 28 de julho de 1727. Ela tinha dezessete anos, e ele, vinte e quatro. Jonathan vestia uma peruca e uma nova veste clerical, que ganhou de sua irmã, Mary. Sarah usava um vestido de cetim verde bordado.10

Temos apenas vislumbres do grande amor entre eles. Certa vez, Jonathan usou o exemplo do amor entre um homem e uma mulher para exemplificar o amor a Deus. “Quando temos uma ideia do amor de alguém por determinada coisa, se for o amor de um homem por uma mulher… não conhecemos completamente o amor dele; temos apenas uma ideia de suas ações que são os efeitos do amor… Temos uma leve e vaga noção de suas afeições.”

Jonathan tornou-se pastor em Northampton, seguindo os passos de seu avô, Solomon Stoddard. Começou este ministério em fevereiro de 1757, apenas cinco meses antes de seu casamento, em New Haven.

Sarah não passou desapercebida em Northampton. De acordo com os costumes da época, um biógrafo imagina a chegada de Sarah à igreja de Northampton:

Qualquer pessoa bonita que chegue a um vilarejo gera curiosidade. Contudo, quando tal pessoa é também a esposa do novo pastor, causa intenso interesse. A maneira como os bancos da igreja eram dispostos naquela época, davam destaque à família do pastor como uma bandeira tremulando… Por isso, os olhos de cada pessoa da cidade estavam sobre Sarah, enquanto ela se movia em seu vestido de noiva.

 O costume ditava que uma noiva, em seu primeiro domingo na igreja, vestisse seu vestido de noiva e caminhasse vagarosamente, para que todos pudessem observá-lo bem. As noivas também tinham o privilégio de escolherem o texto a ser pregado no primeiro domingo após o seu casamento. Não há registro a respeito do texto que Sarah escolheu, mas seu versículo favorito era: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8.35). É possível que ela tenha escolhido este versículo como texto para a pregação.

Ela tomou seu lugar no assento designado a simbolizar o seu papel – um banco alto de frente para a congregação, onde todos poderiam perceber o menor sinal de expressão. Sarah havia sido preparada para esta posição de evidência a cada domingo de sua infância, na comunidade de New Haven, mas era diferente de ser, ela mesma, a esposa do pastor. Outra mulher poderia bocejar ou mover furtivamente o pé, numa manhã fria de janeiro, dentro de uma igreja sem aquecimento. Ela nunca.12

Marsden diz: “No outono de 1727 [cerca de três meses após o casamento], Jonathan tinha recuperado sua conduta espiritual, principalmente sua habilidade em aprofundar a intensidade espiritual que havia perdido por três anos”.13

O que fez a diferença? Talvez ele estivesse mais apto para uma posição na igreja do que para o cenário acadêmico, em Yale, onde lecionava, antes de aceitar o cargo pastoral. Aparentemente, sua recuperação também estava relacionada ao casamento. Durante cerca de três anos antes de casar-se, além de sua rigorosa ocupação acadêmica, Jonathan se refreara sexualmente, ansiando pelo dia em que ele e Sarah seriam uma só carne. Quando iniciaram a vida juntos, ele era um novo homem. Tinha encontrado seu lar e o céu na terra.

SARAH COMO ESPOSA

Quando Sarah iniciou seu papel de esposa, deu a Jonathan liberdade para buscar os combates filosóficos, científicos e teológicos que fizeram dele o homem que nós honramos. Edwards era um homem a quem as pessoas reagiam. Era diferente, intenso. Sua força moral era uma ameaça às pessoas inclinadas ao rotineiro. Após adentrar seus pensamentos às verdades bíblicas e implicações teológicas ou aos assuntos eclesiásticos, ele não voltava atrás em suas descobertas.

Por exemplo, ele compreendia que somente os crentes deveriam tomar a Ceia do Senhor na igreja. A igreja de Northampton não ficou feliz quando Edwards foi contra os padrões mais fracos de seu avô, que permitia que mesmo os descrentes tomassem a Ceia, desde que não tivessem participação em pecado aberto.14 Esse tipo de controvérsia significava que Sarah, em segundo plano, também era afetada pela oposição que seu marido enfrentava.

Edwards era um pensador que mantinha ideias em sua mente, ponderando-as, separando-as, juntando-as a outras ideias e testando-as contra outras partes da verdade de Deus. Tal homem alcança o auge quando as ideias separadas juntam-se numa verdade maior. Mas, também é o tipo de homem que pode encontrar-se em covas profundas, no caminho à verdade.15

Não é fácil viver com um homem assim. Mas Sarah encontrou meios de construir um lar feliz para ele. Ela o assegurou de seu amor constante e criou uma atmosfera e uma rotina, nas quais ele gozava de liberdade para pensar. Ela entendia que, quando ele estava absorto em um pensamento, não queria ser interrompido para jantar. Compreendia que suas sensações de alegria ou tristeza eram intensas. Edwards escreveu em seu diário: “Frequentemente, tenho visões muito comoventes de minha própria pecaminosidade e perversidade, a ponto de me levar a um choro alto… que sempre me força a ficar a sós”.16

A cidade via um homem sereno. Sarah conhecia as tempestades que existiam dentro dele. Ela conhecia o Jonathan da intimidade do lar.

Samuel Hopkins escreveu:

Enquanto ela tratava seu marido com acatamento e inteiro respeito, não poupava esforços para conformar-se às inclinações dele e tornar tudo em família agradável e prazeroso, fazendo disso sua maior glória e o modo como poderia melhor servir a Deus e à sua geração [e a nossa, podemos acrescentar]; e isso tornava-se o meio de promover o benefício e a felicidade de seu marido.17

Portanto, a vida no lar dos Edwards era moldada, em sua maior parte, pelo chamado de Jonathan. Uma das notas de seu diário dizia: “Penso que, ao ressuscitar de madrugada, Cristo nos recomendou levantar bem cedo pela manhã”.18 Levantar-se cedo era um hábito de Jonathan. Durante anos, a rotina da família era acordar cedo, junto com ele, ler um capítulo da Bíblia à luz de velas e orar, pedindo a bênção de Deus para aquele novo dia.

Jonathan tinha o hábito de fazer algum trabalho físico durante uma parte do tempo, todos os dias, para exercitar-se – por exemplo, cortar lenha, consertar cercas ou trabalhar no jardim. Mas Sarah tinha a maior parte da responsabilidade em cuidar da propriedade.

Com frequência, Jonathan estudava treze horas por dia. Isto incluía muita preparação para os domingos, com o ensino bíblico. Mas também incluía os momentos em que Sarah ia conversar, ou quando os membros da igreja paravam para uma oração ou aconselhamento.

À noite, os dois andavam à cavalo pela floresta para exercitar-se, respirar ar puro e conversar. E, então, oravam juntos novamente.

SARAH COMO MÃE

Em 25 de agosto de 1728, os filhos começaram a chegar na família– onze ao todo –com quase dois anos de intervalo entre cada um: Sarah, Jerusha, Esther, Mary, Lucy, Timothy, Suzannah, Eunice, Jonathan, Elizabeth e Pierpont.19 Este foi o começo do próximo grande papel de Sarah, o de mãe.

Em 1900, A. E. Winship fez um estudo contrastando duas famílias. Uma tinha centenas de descendentes que apenas exploraram a sociedade. A outra família, descendentes de Jonathan e Sarah Edwards, foram destaque por suas contribuições à sociedade. Ele escreveu sobre o clã dos Edwards:

Tudo que a família fez foi de maneira competente e nobre… E muito da capacidade, do talento, da inteligência e do caráter dos mais de 1400 membros da família Edwards é devido à senhora Edwards.

Por volta do ano 1900, quando Winship fez seu estudo, o casamento de Jonathan e Sarah havia produzido:

13 presidentes de universidades

65 professores

100 advogados e um reitor de uma faculdade de Direito

30 juízes

66 médicos e um reitor de uma faculdade de Medicina

80 encarregados de ofício público, inclusive:

3 senadores nos Estados Unidos

Prefeitos de 3 grandes cidades

 Governadores de 3 estados

Um vice-presidente dos Estados Unidos

 Um diretor do Ministério da Fazenda dos Estados Unidos

Os membros da família escreveram 135 livros… editaram 18 jornais e periódicos. Iniciaram o ministério em grandes grupos e enviaram cem missionários além-mar, como também muitos membros da família foram diretores de organizações missionárias.20

E Winship continua listando instituições, indústrias e empresas que pertenceram ou foram dirigidas pelos descendentes dos Edwards. “Dificilmente existe uma grande indústria americana que não tenha tido um dos membros dessa família entre seus principais promotores.” Bem podemos perguntar como Elisabeth Dodds: “Que outra mãe contribuiu tão essencialmente para a liderança de uma nação?”

Seis dos filhos de Edwards nasceram num domingo. Naquele tempo, alguns ministros não batizavam bebês que nasciam aos domingos, porque acreditavam que os bebês nasciam no dia da semana em que foram concebidos, e esta não era uma atividade tida como apropriada para o Dia do Senhor. Mas todos os filhos de Edwards foram batizados, a despeito da data de seu nascimento.

E todos os filhos viveram ao menos até a adolescência. Às vezes, isso gerava ressentimento em outras famílias da comunidade, visto que este fato era raro numa época em que a morte estava sempre próxima.

O SERVIÇO DOMÉSTICO

Em nossas casas modernas, com aquecedores centrais, é difícil imaginar as tarefas que Sarah tinha de fazer ou delegar: quebrar gelo para tirar a água do poço, trazer lenha e acender o fogo, cozinhar e preparar lanches para os viajantes que os visitavam, fazer roupas para a família (desde a tosquia das ovelhas até o tear e a costura), plantar e cultivar, fazer vassouras, lavar roupa à mão, tomar conta de bebês, tratar enfermidades, fabricar velas, alimentar as aves domésticas, supervisionar o abate de animais, ensinar aos meninos tudo que não aprendessem na escola e observar se as meninas estavam aprendendo a realizar as tarefas do lar. Isto era apenas uma pequena porção das responsabilidades de Sarah.

Certa vez, quando Sarah estava fora da cidade e Jonathan ficara encarregado das tarefas da casa, escreveu, quase desesperado: “Temos vivido sem você, mas ainda não sabemos como fazer isso”.22

Muito do que sabemos a respeito das tarefas domésticas da família Edwards vem de Samuel Hopkins, que viveu com eles durante algum tempo, e escreveu:

Ela possuía um jeito excelente de governar os filhos; sabia como fazê-los respeitar e obedecer alegremente, sem palavras iradas ou gritos e, muito menos, sem bater neles… Se alguma correção era necessária, não a ministrava com cólera; quando tinha necessidade de repreender e reprovar, ela o fazia com poucas palavras, sem irritação [isto é, sem impetuosidade] nem barulho…

Seu sistema de disciplina começava desde a mais tenra idade. A sua norma era resistir à primeira, assim como a toda subsequente exibição de descontrole ou desobediência da criança… considerando sabiamente que, se a criança obedece aos pais, será capaz de obedecer a Deus.23

Seus filhos eram onze pessoas diferentes, provando que a disciplina de Sarah não deformava suas personalidades – talvez porque um aspecto importante de sua vida disciplinada era, como Samuel Hopkins escreveu, orar “por [seus filhos] de modo determinado e constante, e os levar em seu coração, diante de Deus… e isto mesmo antes de nascerem”.24

Dodds diz:

A maneira de Sarah lidar com os filhos fez mais do que apenas evitar que Edwards fosse importunado enquanto estudava. A família proveu a ele um fundamento sólido para a sua ética… O último domingo em que [Edwards] esteve no púlpito, como pastor da igreja de Northampton, disse estas palavras: “Toda família deve ser… uma pequena igreja, consagrada a Cristo e totalmente governada e influenciada por seus mandamentos. E a educação e a ordem da família estão entre os principais meios da graça. Se isto falhar, todos os outros meios provavelmente não terão efeito”.25

Ainda que o papel de Sarah tenha sido vital, não devemos imaginar que ela criou os filhos sem a ajuda do marido. A afeição de Jonathan e Sarah um pelo outro e a rotina devocional regular da família foram alicerces firmes para os filhos. Jonathan teve parte integral em suas vidas. Quando já estavam crescidos, ele sempre levava um ou outro junto consigo, quando viajava. Em casa, Sarah sabia que Jonathan gastaria uma hora, todos os dias, com os filhos. Hopkins o descreve como alguém “que penetrava facilmente nos sentimentos e preocupações dos filhos e estimulava-os com conversas alegres e animadas, acompanhadas frequentemente de observações vivazes, acessos de riso e humor… Então, ele retornava ao escritório para trabalhar um pouco mais, antes do jantar”.26 Este era um homem diferente daquele que a congregação frequentemente via.

É possível juntar muitas informações sobre o lar dos Edwards, porque eles economizavam papel. O papel era caro e tinha de ser encomendado de Boston. Por isso, Jonathan guardava notinhas velhas, listas de compras e os rascunhos de cartas, juntando-os em pequenos blocos para usar o lado branco para escrever sermões. Uma vez que seus sermões foram guardados, as anotações dos detalhes do dia-a-dia também ficaram guardadas. Por exemplo, muitas das listas de compras incluíam um lembrete para comprar chocolate.27

A AMPLA ESFERA DE INFLUÊNCIA DE SARAH

Naquela época colonial, os viajantes entendiam que, se uma cidade não tinha hospedaria, ou se esta era ruim, a casa do pastor era um lugar agradável para se passar a noite. Portanto, desde seu começo em Northampton, Sarah exerceu seus dons de hospitalidade. A casa dos Edwards era bem conhecida, ocupada e elogiada.

Sarah não era somente esposa, mãe e anfitriã; ela, além disso, sentia-se espiritualmente responsável por aqueles que entravam em sua casa. Uma grande fila de jovens pastores apresentava-se à porta de sua casa, ao longo dos anos, na esperança de viver com eles e absorver a experiência de Jonathan. Por esse motivo, Samuel Hopkins morou com eles e teve a oportunidade de observar a família. Em dezembro de 1741, ele chegou à casa dos  Edwards. Aqui está o seu relato das boas-vindas que recebeu:

Quando cheguei, o senhor Edwards não estava em casa, mas fui acolhido com grande gentileza pela senhora Edwards, juntamente com a família, e recebi o encorajamento de que poderia ficar ali durante o inverno… Eu era um tanto melancólico e a maior parte do tempo ficava retirado em meus aposentos. Depois de alguns dias, a senhora Edwards veio… e disse que eu me tornara membro da família por uma temporada e, por isso, estava interessada em meu bem-estar. Observara que eu parecia triste e desanimado e esperava que eu não a achasse intrometida [por causa] de seu desejo de saber e de perguntar-me por que me sentia assim… E eu lhe disse… que estava num estado desesperador, longe de Cristo… e nisto iniciamos

uma conversa franca… e ela me disse que havia [orado] a meu respeito desde que eu entrara na família; que confiava que eu receberia luz e conforto e que, sem dúvida, Deus ainda faria grandes coisas através de mim.28

Sarah tinha sete filhos nessa época – entre um ano e meio e treze anos de idade – e, ainda assim, tomou este homem sob seus cuidados e o encorajou. Ele recordou disso por toda a sua vida.

O impacto da certeza de Sarah Edwards a respeito da obra de Deus na vida de Hopkins não parou naquela conversa pessoal. Ele continuou sua caminhada a fim de tornar-se pastor em Newport, Rhode Island, uma cidade dependente da economia escrava. Ele ergueu uma voz forte contra a escravidão, embora muitos ficassem ofendidos. No entanto, um jovem se impressionou. William Ellery Channing estava desorientado e procurava um propósito para sua vida. Ele conversou longamente com Hopkins, voltou para Boston, tornou-se um pastor e, além de influenciar Emerson e Thoreau, participou de forma decisiva no movimento abolicionista.29

Certamente Hopkins admirava Sarah Edwards. Ele escreveu: “Ela cultivava como regra pessoal o falar bem de todos, tanto quanto podia fazê-lo com verdade e justiça a si mesma e aos outros…” Isto parece muito com as primeiras reflexões de Jonathan a respeito de Sarah – uma confirmação de que o seu amor por ela não o cegava.

Hopkins comentou sobre o relacionamento entre Jonathan e Sarah:

Em meio a tantos trabalhos complicados… [Edwards] encontrou em casa alguém que, em todos os sentidos, era uma auxiliadora para ele, alguém que fazia de sua simples habitação um lar de ordem e limpeza, de paz e conforto, de harmonia e amor para todos os que moravam ali, e de bondade e hospitalidade ao amigo, ao visitante e ao estranho.30

Outra pessoa que observou a família Edwards foi George Whitefield, quando visitou a América do Norte durante o Grande Despertamento. Em outubro de 1740, ele foi a Northampton passar um fim de semana e pregou quatro vezes. No sábado pela manhã, ele falou aos filhos de Edwards, em sua casa. Whitefield escreveu que, quando pregou no domingo pela manhã, Jonathan chorou durante quase todo o culto. A família de Edwards também teve um grande efeito sobre Whitefield:

Senti grande satisfação por estar na casa dos Edwards. Ele é um filho de Abraão e tem uma filha de Abraão como esposa. Que casal agradável! Seus filhos não se vestiam de cetim e seda, mas de trajes simples, como os filhos daqueles que, em todas as coisas, devem ser exemplo da simplicidade de Cristo. Ela é uma mulher adornada de um espírito manso e tranquilo, alguém que fala de maneira franca e firme das coisas de Deus; parece ser tão grande auxiliadora para seu marido, que isto me fez renovar aquelas orações, as quais, por muitos meses, tenho feito a Deus, para que se agrade em me enviar uma filha de Abraão para ser minha esposa.31

No ano seguinte, Whitefield casou-se com uma viúva a quem John Wesley descrevia como “uma mulher de integridade e benevolência”.32

A CRISE ESPIRITUAL DE SARAH

Jonathan Edwards teve um papel chave no Grande Despertamento, o avivamento que atingiu todas as colônias. Frequentemente, ele era chamado para pregar em outros locais e precisava viajar. Durante esse tempo, em casa, a família ficou em meio a uma tensão por causa de finanças. Em 1741, Jonathan pediu um salário fixo à igreja, o qual possibilitasse suprir as necessidades crescentes de sua grande família. Isto fez com que a congregação inspecionasse o estilo de vida da família Edwards, a fim de detectarem possíveis sinais de extravagância. O comitê responsável pelas finanças da igreja decidiu que Sarah teria de manter uma declaração de cada gasto, item por item.

Em janeiro de 1742, durante este período de avivamento público e tensão pessoal, Sarah passou por uma crise, que mais tarde relatou a Jonathan. Ela contou sua experiência e Jonathan a transcreveu. Publicou-a em Some Thoughts Concerning the Present Revival of Religion (Pensamentos a Respeito do Presente Avivamento da Religião).33 Para preservar a privacidade dela, ele não revelou o nome nem o sexo do protagonista.

A alma habitava nas alturas, estava perdida em Deus e parecia quase sair do corpo. A mente  desfrutava de um deleite puro que a alimentava e satisfazia; tendo prazer sem o menor incômodo ou qualquer interrupção…

[Havia] extraordinárias visões das coisas divinas e sentimentos religiosos, acompanhados frequentemente de grandes efeitos no corpo. A condição humana sucumbia ao peso das descobertas divinas e o vigor do corpo desapareceu. A pessoa não tinha capacidade de permanecer de pé ou falar. Às vezes, as mãos ficavam travadas, o corpo frio, mas os sentidos ainda continuavam. A natureza física estava em grande emoção e agitação e a alma ficava tão dominada por admiração e um tipo de alegria incontrolada, que levava a pessoa a pular com toda a sua força, com regozijo e intensa exultação…34

Os pensamentos de humildade perfeita, com os quais os santos adoram a Deus no céu e se prostram diante do seu trono, venciam frequentemente o corpo, deixando-o em grande agitação. 35

Não devemos imaginar que ela estava retraída e sozinha durante este período de duas semanas, ou que cada minuto era marcado por este êxtase. Jonathan estava ausente de casa, exceto nos dois primeiros dias. Então, ela ficou responsável pela casa – cuidar das sete crianças, dos hóspedes e frequentar as reuniões na igreja. Talvez, naquele momento ninguém compreendesse como Deus a abalava e transformava, quando ela estava sozinha com Ele. Isto aconteceu somente um mês após Samuel Hopkins ter se mudado para a casa dos Edwards; portanto, as impressões dele sobre a família foram moldadas em meio aos dias mais transformadores da vida de Sarah.

No esforço em explicar este período na vida de Sarah Edwards, muitos biógrafos abordam o assunto de modo muito diferente, deixando-nos o desafio de tentar entender o que realmente aconteceu.

Ola Winslow, um biógrafo que rejeitava a teologia de Edwards, usou o relato da experiência de Sarah para minimizar o impacto da aceitação de Edwards, no que se referia às manifestações ativas e exteriores do Espírito Santo. Winslow escreveu: “O fato de que sua esposa tinha estas extremas manifestações, sem dúvida, o inclinou a uma atitude mais acolhedora para com tais manifestações…” Isto parece implicar que, em circunstâncias normais, Jonathan teria falado contra manifestações incomuns, como as de Sarah; porém, desde que teve de responder pela experiência de sua esposa, foi forçado a aceitá-las.

Outro perito na vida de Edwards, Perry Miller, que rejeitou a ideia de qualquer coisa sobrenatural, pôde apenas concluir que a história de Sarah deu a Jonathan uma prova para usar contra aqueles que pensavam que “entusiasmo” era coisa de Satanás. Miller pressupõe que, apesar de nós, pessoas modernas, sabermos que tais manifestações podem não ser realmente sobrenaturais, Edwards era antiquado e pensou equivocadamente que algo sobrenatural estivesse acontecendo. Portanto, Miller diria, era conveniente para Edwards ter uma experiência em mãos para usar como prova contra dúvidas.37

Elisabeth Dodds descreve Sarah como alguém “visivelmente necessitada, grosseira – tagarela, dada a alucinações, profundamente desanimada”.38 Ela chama esse estado de colapso, e o atribui ao estoicismo anterior de Sarah, à sua luta com um marido difícil e muitos filhos, às pressões financeiras, ao criticismo de Jonathan a respeito de seu modo de agir com certa pessoa, e ao ciúme dela por causa do sucesso de um pastor visitante enquanto Jonathan pregava longe de casa. Dodds diz que não podemos saber se tal reação foi um êxtase espiritual ou um colapso nervoso.39

A experiência de Sarah foi primeiramente psicológica? Provavelmente não. É raro que uma pessoa, sem razão aparente, tenha um colapso psicológico e logo depois volte ao normal. Portanto, Dodds, que acredita que isto foi realmente um tipo de colapso, sugere que Jonathan estava agindo como um precursor inconsciente de um psiquiatra, quando fez Sarah assentar-se e contar-lhe tudo que havia acontecido.40

Sua experiência teve uma causa espiritual? Parece que sim. Sabemos que ninguém jamais tem motivações, ações ou causas totalmente puras em suas atividades espirituais, contudo não há dúvida de que tanto Jonathan quanto Sarah reconheceram que as experiências dela vieram de Deus, e que tinham o propósito de deleitá-la e beneficiá-la espiritualmente. Sarah fala a respeito de sua experiência como um encontro espiritual, e o faz sem ambiguidade. Portanto, o leitor deve perguntar: Os Edwards provaram ser pessoas cujo julgamento em questões espirituais é confiável? Se a resposta for positiva, seria um erro tentar explicar o entendimento dela sobre sua própria experiência. Nem tampouco desejaríamos minimizar a confirmação de Jonathan a respeito da natureza espiritual da experiência de Sarah, explícita em sua disposição em publicar o relato.

 Tensões a respeito de finanças, aflição por ter irritado o marido, ciúmes por causa de outro ministro – tudo isso era real na vida de Sarah. E Deus usou estas coisas para revelar-Se a Sarah, para mostrar-lhe o quanto precisava dEle e para revelar a fraqueza dela. E quando vieram sobre ela as sensações quase físicas da presença de Deus, Ele era o mais precioso e amável para ela, por causa do que Ele fez e venceu por ela.

É bom lembrar a descrição feita anteriormente por Jonathan a respeito de Sarah, escrita em sua gramática de grego. Admitamos que ele era um amante inebriado. Mas ele não fez aquela descrição sem motivo. Ele escreveu a respeito de uma determinada pessoa, e podemos ver como era esta pessoa, ainda que seja através das lentes coloridas de Jonathan.

…em certos períodos este Grande Ser vem ao encontro desta moça e, de uma maneira invisível, enchelhe os pensamentos com extraordinário deleite; e que ela dificilmente se interessa por qualquer outra coisa, exceto meditar nEle.41

Isto é muito parecido com a maneira como Sarah descreve sua experiência. E lembrese que aos treze anos, ela amava

…estar sozinha, passeando pelos bosques e campos, e parece ter Alguém invisível sempre a conversar com ela.42

Adolescentes solitários geralmente se tornam adultos solitários. Onde estava aquela solidão para Sarah, uma mulher que quase a cada ano dava à luz um novo bebê, com um fluxo constante de viajantes e pastores iniciantes morando em sua casa, e com uma cidade que percebia cada mínimo movimento que ela fazia?

A vida de Sarah se tornou diferente depois destas semanas – diferente como se espera, depois de Deus ter visitado alguém de modo especial. Jesus disse: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.16). Jonathan disse que Sarah mostrava

…grande humildade, gentileza e benevolência de espírito e de conduta; e uma grande mudança naquelas coisas que, em tempos passados, eram falhas que a pessoa cometia. Ela parecia estar repleta e transbordante de grande aumento de graça. E aqueles com quem ela mais conversava e que lhe eram mais íntimos podiam observar isso.43

Ele também assegurou a seu leitor que Sarah não se tornara excessivamente espiritual a ponto de não cumprir seus deveres terrenos:

Oh, como é bom, disse certa vez esta pessoa, trabalhar para o Senhor durante o dia, e à noite deitar sob seus sorrisos! As grandes experiências e afeições religiosas desta pessoa não têm sido vivenciadas com qualquer disposição para negligenciar as ocupações necessárias do chamado secular… Mas as responsabilidades da vida secular têm sido cumpridas com grande disposição, como parte do serviço a Deus: a pessoa declara que, o serviço sendo assim realizado, descobriu ser tão bom quanto orar.44

Sua vida transformada levava as marcas de Deus, e não de um desequilíbrio psicológico. É evidente que Jonathan concordava com ela na crença de que ela havia tido um encontro com Deus:

Se tais coisas são entusiasmo e frutos de uma perturbação mental, que a minha mente seja sempre mais possuidora de tão feliz perturbação! Se isto for loucura, oro a Deus para que a humanidade do mundo inteiro seja capturada por esta afável, branda, benéfica, beatífica e gloriosa loucura!45

O DESERTO

Após mais de vinte anos de ministério, Jonathan foi injustamente exonerado de sua igreja em Northampton. Até que ele tivesse novo cargo, permaneceram em Northampton. Não é necessário muito esforço para termos empatia com a pressão financeira e emocional em que Sarah vivia. Já seria um grande desafio permanecer no lugar onde seu marido fora rejeitado. Mas, além disso, não havia sustento. E, durante um ano, Sarah viveu num cenário hostil, administrando sua ampla responsabilidade doméstica sem uma quantia fixa para o sustento.

Em Stockbridge, havia uma comunidade de índios e alguns poucos brancos. Eles procuravam com urgência por um pastor, ao mesmo tempo em que Jonathan buscava de Deus o próximo passo para sua vida. Em 1750, os Edwards mudaram-se para Stockbridge, ao lado oeste de Massachusetts, nos limites do domínio britânico no continente.

Em 1871, a Harpers New Monthly Magazine publicou um artigo sobre Stockbridge. Isto ocorreu cem anos após a morte de Edwards e, ainda assim, por ocasião daquele artigo ele conquistou apreço internacional, sendo ultrapassado somente por George Washington. Muitos parágrafos deste artigo descreveram o importante papel de Edwards na história da cidade de Stockbridge. E ainda que décadas tenham se passado, eles não esqueceram a controvérsia de Northampton que levou ao chamado de Jonathan para Stockbridge.

A vaga ao pastorado naqueles bosques selvagens foi ocupada por alguém cujo nome não é apenas altamente honrado nesta terra, como também muito conhecido e honrado em outros países, talvez mais do que qualquer de nossos conterrâneos, com exceção de Washington. Ele é insuperável como pregador, filósofo e uma pessoa de devotada piedade… Depois de um ministério muito bem sucedido por mais de 20 anos, surgiu uma controvérsia entre ele e sua congregação, e eles o exoneraram grosseiramente e quase em descrédito. A aceitação posterior de suas opiniões, não apenas em Northampton, como também nas igrejas da Nova Inglaterra, vindicou abundantemente sua posição naquela controvérsia lamentável…

Ele não se considerava importante em sua própria avaliação para aceitar o lugar que lhe ofereciam [na distante Stockbridge]…

Edwards era quase uma máquina de pensar… Não seria estranho que um homem tão pensativo fosse indiferente a diversas coisas de importância prática. Assim, somos informados que o cuidado de seus afazeres domésticos e seculares era confiado quase inteiramente à sua esposa. Felizmente, ela, que possui um modo de pensar semelhante ao dele em muitos aspectos, e que estava preparada para ser sua companheira, também era capaz de assumir os cuidados lançados sobre ela. É dito que Edwards “não conhecia suas próprias vacas, nem sabia quantas lhe pertenciam. Entre todos os cuidados que tinha com seu gado, parece que se envolvia ocasionalmente no ato de levá-las ao pasto. Ele fazia isso espontaneamente, por causa da necessidade de exercitar-se. A respeito disso, conta-se uma história que ilustra a sua falta de conhecimento dos assuntos triviais. Certa ocasião, enquanto conduzia o gado ao pasto, um rapaz abriu a porteira para ele, fazendo-lhe reverência. Edwards reconheceu a gentileza do rapaz e perguntou-lhe de quem era filho. “Sou filho de Noah Clark”, foi a resposta… Ao retornar, o mesmo rapaz… abriu novamente a porteira para ele. Edwards [perguntou novamente quem ele era]… “O filho do mesmo homem de quinze minutos atrás, senhor.”46

ÚLTIMO CAPÍTULO

Esta era uma família que raramente experimentara a morte, ainda que sempre estivessem conscientes de sua proximidade. Uma mulher poderia facilmente morrer ao dar à luz. Uma criança poderia facilmente morrer de febre. Alguém poderia facilmente ser atingido por uma bala ou uma flecha na guerra. Era fácil uma fagulha da lareira espalhar um incêndio pela casa, enquanto todos estivessem dormindo.

Quando Jonathan escrevia aos filhos, sempre os alertava – não de maneira mórbida, mas como um fato – de quão próxima a morte poderia estar. Para Jonathan, a realidade da morte levava automaticamente à necessidade de vida eterna. Ele escreveu ao filho de dez anos, Jonathan Jr., a respeito da morte de um coleguinha do menino: “Este é um chamado altissonante para que você se prepare para a morte… Nunca dê a si mesmo descanso até que haja uma boa evidência de que você é convertido e nascido de novo”.47

Uma tragédia na família foi a página de abertura do último capítulo de suas vidas.

A filha de Sarah e Jonathan, Esther, era esposa de Aaron Burr, o presidente do Colégio de Nova Jérsei, que mais tarde veio a se chamar Princeton. Em 24 de setembro de 1757, este genro morreu repentinamente, deixando Esther com duas crianças pequenas. Esta foi a primeira de cinco mortes na família, dentro de um ano.

A morte de Aaron Burr deixou em aberto a presidência do Colégio de Nova Jérsei; e Edwards foi convidado a tornar-se presidente da escola. Jonathan se mostrava extremamente produtivo em seus pensamentos e escritos, durante os seis anos que passou em Stockbridge; portanto, não foi fácil deixar aquele lugar. Contudo, em janeiro de 1758, ele partiu para Princeton, esperando que sua família fosse ao seu encontro, na primavera.

George Marsden ilustra aquele momento:

 Ele deixou Sarah e os filhos em Stockbridge, como Suzannah, com dezessete anos, relatou: “Tão afetuosamente, como se não fosse mais voltar”. Quando ele estava do lado de fora da casa, virou-se e declarou: “Confio-vos a Deus”.48

Jonathan mal tinha se mudado para a Residência Presidencial em Princeton, quando recebeu notícias de que seu pai havia morrido. Marsden relata: “Um grande estímulo em sua vida tinha, finalmente, partido; embora a força da personalidade tivesse enfraquecido alguns anos antes”.49

Neste capítulo final da vida de Jonathan e Sarah, há momentos que expressam com clareza e confirmam a obra de Deus na vida de Sarah Edwards, nas muitas funções que Ele lhe confiou.

1. O papel de Sarah como mãe, com o desejo de criar filhos piedosos

Quando Aaron Burr morreu, temos um vislumbre de quão bem esta mãe preparou a filha para uma tragédia inesperada. Esther escreveu à sua mãe, Sarah, duas semanas após a morte de seu marido:

Deus parecia sensivelmente próximo, de maneira tão confortante e consoladora que penso jamais ter experimentado… Não duvido que tenho as suas orações e as de meu honrado pai, diariamente, por mim, mas permita-me rogar-lhe que supliquem fervorosamente ao Senhor para que eu não desanime com este golpe severo da parte dEle… Tenho receio de que me comporte de tal modo a desonrar… o cristianismo que professo.50

No momento mais obscuro de sua vida, a filha de Sarah desejou ardentemente não desonrar a Deus.

2. O papel de Sarah como esposa de Jonathan

 Logo que Jonathan chegou a Princeton, foi vacinado contra rubéola. Este era ainda um procedimento experimental. Ele contraiu a doença e morreu, em 22 de março de 1758, enquanto Sarah ainda estava em Stockbridge, na atividade de fazer as malas da família para a mudança para Princeton. Menos de três meses se passaram, desde que Jonathan despedira-se dela, na frente da casa. Durante os últimos minutos de sua vida, seus pensamentos e palavras foram para sua amada esposa. Ele sussurrou a uma de suas filhas:

Parece-me ser a vontade do Senhor que eu vos deixe em breve; por isso, transmita o meu amor mais sincero à minha querida esposa, e diga-lhe que a união incomum, que tanto tempo houve entre nós, foi de tal natureza, que creio ser espiritual, e que, portanto, continuará para sempre: e espero que ela encontre suporte sob tão grande tribulação e submeta-se alegremente à vontade de Deus.51

Alguns dias depois, Sarah escreveu a Esther (cujo marido havia morrido apenas seis meses antes):

Minha querida filha, que posso dizer? O Santo e bom Deus nos cobriu com uma nuvem escura. Que aceitemos a correção e fiquemos em silêncio! O Senhor o fez. Deus me fez adorar sua bondade, porque tivemos o seu pai por tanto tempo. Mas o meu Deus vive; e Ele possui meu coração. Oh! que legado meu marido, o seu pai, nos deixou! Estamos todos entregues a Deus; e aí eu estou, e gosto de estar.

Com carinho, de sua mãe, Sarah Edwards52

Esther nunca chegou a ler a carta de sua mãe. Em 17 de abril de 1758, menos de duas semanas depois da morte do pai, Esther morreu de uma febre, deixando os pequenos, Sally e Aaron Jr.53  Sarah viajou a Princeton para ficar com os netos durante algum tempo e, então, levá-los a Stockbridge, para junto dela.

3. O papel de Sarah como filha de Deus

Em outubro, Sarah estava viajando para Stockbridge com as crianças de Esther. Ao fazer uma parada na casa de alguns amigos, foi acometida de uma disenteria, e sua vida na terra chegou ao fim, em 2 de outubro de 1758, quando tinha quarenta e nove anos. As pessoas que estavam com ela relataram que “ela entendeu que sua morte estava próxima, quando expressou sua inteira resignação a Deus e seu desejo de que Ele fosse glorificado até o fim; e continuou com uma disposição calma e resignada, até que morreu”.54

A morte de Sarah Edwards foi a quinta morte na família dentro de um ano, e o quarto túmulo da família Edwards acrescentado ao Cemitério de Princeton durante aquele ano fatídico, que marcou o fim das vidas terrenas de Jonathan e Sarah Edwards.

Depois de mais de 250 anos, Jonathan Edwards ainda é o maior teólogo da América do Norte e provavelmente o maior filósofo. Ele influenciou nosso modo de entender o mundo e de ver a Deus. É claro que isto nos deixa curiosos a respeito da esposa dele. Como Sarah poderia saber que dom estava nos concedendo, ao deixar Jonathan livre para cumprir seu chamado?

Contudo, como em qualquer outra biografia, perderíamos tempo, se nos satisfizéssemos apenas em ler com o propósito de achar fatos interessantes. Por isso, tenho orado para que esta história nos faça olhar e voltar nossas afeições em direção à verdade bíblica, para que sejamos edificados e encorajados.

É comum, quando lemos biografias, identificarmos alguma coisa de nós mesmos na história de outra pessoa. Sarah Edwards foi esposa de um pastor que era um pensador profundo, com convicções firmes e alicerçadas na Bíblia. Vejo nela uma mulher que amava Romanos 8.35: “Quem nos separará do amor de Cristo?” Vejo alguma coisa de mim mesma em sua vida. E quando ela se depara com dificuldades e desafios, sinto-os de modo impactante, porque se parecem com os fardos que carrego. Posso ver como Deus agiu, ao levar os fardos dela; portanto, reconheço com mais clareza quando Ele faz isto por mim.

Vejo uma mulher muito reservada e que, ainda assim, experimentou um enlevo espiritual extraordinário que mudou a sua vida. Penso que minha tendência, se eu tivesse passado por duas semanas similares às que ela passou, seria menosprezar a experiência, racionalizá-la de alguma maneira – assim como vários biógrafos tentaram fazer com Sarah. Mas vejo Sarah olhando para Deus, a fim de obter a explicação. Colossenses 3.16 diz: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria”. Sou aconselhada pela vida de Sarah.

Ela aconselhou, de forma mais direta, a Samuel Hopkins, quando ele não conseguia interpretar corretamente a obra de Deus em sua vida. Esta conversa foi para mim um grande encorajamento, quando a li pela primeira vez, durante a minha experiência com vários filhos pequenos. Todos nós temos conversas pessoais que podem ser esquecidas. Do mesmo modo, a conversa de Sarah com Samuel seria esquecida, se não fosse o diário de Hopkins. A conversa entre eles fazia parte de uma sequência de acontecimentos que o levaram, pelo menos, até Emerson e Thoreau, e que certamente não terminaram aí – nós apenas não temos registros a respeito do que aconteceu depois. Frequentemente, não sabemos como Deus entrelaça sucessivamente as linhas de nossa vida.

Também fiquei impactada pela santa liberdade com que Jonathan e Sarah criavam seus filhos. Numa época em que a morte pairava tão próximo – em função de guerras, enfermidades, animais selvagens, infecções, partos e ferimentos – eu esperava que os pais mantivessem seus filhos bem perto de si; que os tivessem sempre diante de seus olhos. Ao contrário, Jonathan e Sarah, quando viviam em Stockbridge, perigosamente próximos à lugares selvagens, permitiam que seu filho Jonathan, de dez anos de idade, viajasse com um evangelista para o oeste distante, em missão entre os índios, nas montanhas – o filho de dez anos de idade!

Isto não significa que eles eram ignorantes acerca dos perigos. Este foi o momento em que Jonathan escreveu a Jonathan Jr. a respeito da morte de um de seus amiguinhos. “Este é um chamado altissonante para que você se prepare para a morte… Nunca dê a si mesmo descanso até que haja uma boa evidência de que você é convertido e nascido de novo.” 55  Não, todos eles estavam conscientes da proximidade da morte física. Mas a morte do corpo não foi o que os fez orar e clamar por seus filhos. A iminência da morte física os fez temer não a perda da vida, mas a ausência da vida eterna. Esta é uma perspectiva que quero ter para com os que amo.

Sarah Edwards era a auxiliadora, a protetora e a edificadora do lar para Jonathan Edwards, cuja filosofia e paixão por Deus ainda está viva trezentos anos após a sua morte. Ela foi mãe piedosa e exemplo para onze filhos, que se tornaram pais de cidadãos importantes dos Estados Unidos e – imensamente mais importante para ela – muitos são também cidadãos do céu. Ela foi anfitriã, consoladora e encorajadora de Samuel Hopkins, e, quem sabe, de tantos outros, que em continuidade ministraram a outros… os quais ministraram a outros… Ela foi exemplo para George Whitefield (e, quem sabe, para tantos outros) do que é ser uma esposa piedosa.

E, no cerne de tudo, ela foi filha de Deus e, desde os mais tenros anos, experimentou doce comunhão espiritual com Ele e, através dos anos, cresceu em graça, sendo, ao menos uma vez, visitada por Deus de um modo tão extraordinário que transformou sua vida.

Assim como Sarah Edwards não tinha ideia das subsequentes gerações que influenciaria por meio de sua interação com Samuel Hopkins, existem duas mulheres que provavelmente não têm qualquer noção de seu impacto causado em mim e, consequentemente, em meu marido, meus filhos, meus amigos e minha igreja. Bem antes de meu marido ser chamado para o ministério de pregador, admirei o testemunho de duas mulheres, esposas de nossos pastores, uma na Califórnia, outra em Minnesota. Deus as usou como auxiliadoras na preparação para a minha futura função, que nenhum de nós esperava. Esta história de Sarah Edwards é dedicada a Delores Hoeldtke e Anne Ortlund.

NOTAS DO CAPÍTULO 1

1 Citado no livro de Elisabeth D. Dodds, Marriage to a dif icult man: the uncommon union of Jonathan and Sarah Edwards. Laurel, Miss.: Audubon Press, 2003. p. 15. Devo a possibilidade de escrever esta curta biografia a respeito de Sarah Edwards especialmente ao livro de Dodds. Conheço esta obra há muito tempo e é possível que, às vezes, possa ter incluído algum de seus pensamentos sem citar as devidas notas de rodapé. Percebo que há imperfeições na apresentação de Dodds. Portanto, recomendo que os leitores interessados em uma cronologia mais criteriosa, uma compreensão e interpretação teológica do homem que moldou a vida de Sarah e que por ela foi afetado consultem Jonathan Edwards: a life, escrito por George Marsden, e Jonathan Edwards: a new biography, escrito por Iain Murray.

2 Citado no livro de Dodds, Marriage to a dif icult man. p. 17.

3 Murray, Iain H. Jonathan Edwards: a new biography. Edinburgh, Scotland: Banner of Truth, 1987. p. 91.

4 Idem. p. 92.

5 Marsden, George. Jonathan Edwards: a life. New Haven, Conn.: Yale University Press, 2003. p. 110.

6 Idem. p. 106.

7 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 21. (Dodds soletrava o nome como Peter Maastricht.)

8 Idem. p. 19.

9 Idem (ênfase acrescentada).

10 Idem. p. 22.

11 Idem.

12 Idem. p. 25.

13 Marsden, George. Jonathan Edwards. p. 111.

14 Para obter mais informações a esse respeito, veja Mark Dever, “How Jonathan Edwards Got Fired and

Why It’s Important for us Today”, em A God entranced vision of all things: the legacy of Jonathan Edwards,

editado por John Piper e Justin Taylor. Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2004. p. 129-144.

15 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 57.

16 Idem. p. 31.

17 Idem. p. 29-30 (ênfase acrescentada).

18 Idem. p. 28.

19 O nome de Pierpont era soletrado de modo diferente do sobrenome de Sarah, Pierrepont. O soletrar

padronizado não tinha ainda se tornado uma prática comum.

20 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 31-32.

21 Idem. p. 32.

22 Citado no livro de Marsden, George. Jonathan Edwards. P. 323.

23 Citado por Dodds, Elisabeth. Em Marriage to a dif icult man. p. 35-36.

24 Idem. p. 37.

25 Idem. p. 44-45.

26 Idem. p. 40.

27 Idem. p. 38.

28 Idem. p. 50.

29 Esta cadeia de influência é descrita por Dodds, Elisabeth. Idem. p. 50-51.

30 Idem. p. 64.

31 Winslow, Ola. Jonathan Edwards: 1703-1758: a biography. New York: Macmillan, 1940. p. 188.

32 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 74-75.

33 A seção que conta a história de Sarah Edwards é publicada como Apêndice E em idem. Edição 2003. p.

209-216.

34 Edwards, Jonathan. Some thoughts concerning the present revival in New England. In: Hickman, Edward.

Ed. The works of Jonathan Edwards. 2 vol. Reimpressão de 1834. Edinburgh: Banner of Truth, 1974. p. 376.

35 Idem. p. 377.

36 Winslow, Ola. Jonathan Edwards. p. 205.

37 Miller interpretou de maneira errada a narrativa deste acontecimento. Miller, Perry. Jonathan Edwards. New York: W. Sloane Associates, 1949. p. 203-206.

38 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 81. Dodds descreve a experiência de Sarah no capítulo 8.

39 Idem. p. 90.

40 Idem. p. 88.

41 Murray, Iain. Jonathan Edwards. p. 92.

42 Idem.

43 Edwards, Jonathan. Thoughts on the revival. p. 378.

44 Idem.

45 Idem.

46 “A New England Village”. Harpers New Monthly Magazine. November, 1871.

47 Marsden, George. Jonathan Edwards. p. 412.

48 Idem. p. 491.

49 Idem.

50 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 160.

51 Dwight, Sereno E. “Memoirs of Jonathan Edwards”, em Edwards, Works, 1:clxxviii.

52 Idem. clxxix.

53 Aaron Burr Jr. tornou-se vice-presidente do presidente Thomas Jefferson. Ele caiu em desfavor político e pessoal quando desafiou Alexander Hamilton para um duelo e o matou.

54 Dodds, Elisabeth. Marriage to a dif icult man. p. 169.

55 Marsden, George. Jonathan Edwards. p. 412

Fonte: Extraídos do Livro “Mulheres Fiéis e o seu Deus Maravilho”(páginas 11-29)  de autoria de Noël Piper

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