A vida do Rev. William Alfred Waddell Missionário em São Paulo e na Bahia

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Rev. William Alfred Waddell Missionário em São Paulo e na Bahia, presidente do Mackenzie College

William A. Waddell nasceu em 5 de fevereiro de 1862 em Bethel, Estado de Nova York, onde passou sua infância e aprendeu as primeiras letras. Em outubro de 1881, aos 19 anos, fez a sua profissão de fé na Igreja Presbiteriana de Schenectady, no mesmo estado, com o Rev. Timothy G. Darling. Ingressou no Union College, no qual se bacharelou em Artes e Ciências, formou-se em Engenharia Civil (1882) e foi membro da fraternidade cultural Phi Beta Kappa. Sentindo a vocação ministerial, matriculou-se no Seminário de Princeton, onde concluiu em dois anos (1883-1885) o curso teológico normalmente feito em três anos. O Presbitério de Albany licenciou-o em abril de 1886 e no dia 2 de abril de 1887 ele foi ordenado pelo Presbitério de Los Angeles, em San Diego. Seu primeiro pastorado foi na Igreja de San Pedro, na Califórnia.

Interessado na obra missionária, Waddell deixou o seu país em 20 de agosto de 1890 e chegou ao Brasil no dia 19 de setembro, a bordo do navio Aliança, na companhia de cinco outros obreiros: um casal metodista que vinha para Piracicaba, o Rev. Wilmot Albert Carrington e sua esposa Clara Emory, e a professora Carrie M. Cunningham, que iria trabalhar com o Rev. DeLacey Wardlaw no Ceará. Estudou português em Campanha, Minas Gerais, possivelmente com o Rev. Benedito Ferraz de Campos. Seu primeiro campo de trabalho foi São Paulo, onde assumiu a classe teológica antes confiada ao Rev. Donald C. McLaren e foi um dos fundadores do Ginásio Mackenzie e do Mackenzie College. Supervisionou a construção do primeiro edifício do College, inaugurado em 1895. No ano seguinte, a convite do Dr. Horace M. Lane, organizou e instalou a Escola de Engenharia, da qual foi o primeiro diretor. Dotado de vasta cultura e forte personalidade, exerceu profunda influência sobre os seus alunos e os companheiros de Missão.

Nesses anos, Waddell teve sérias dificuldades com o Rev. Eduardo Carlos Pereira e outros ministros, durante a crise que levou à divisão da igreja. Em 1893, mediante autorização do Presbitério de São Paulo, passou a realizar cultos na Rua da Conceição, com classes de escola dominical sob a direção de professoras da Escola Americana. Ao mesmo tempo, o Rev. Frederik J. Perkins abriu um ponto de pregação na Rua da Glória. No dia 18 de outubro do mesmo ano, Waddell e Perkins uniram os seus grupos e organizaram a 2ª Igreja de São Paulo, uma das antecessoras da Igreja Unida, acolhendo pessoas que já não se sentiam bem na 1ª Igreja, pastoreada pelo Rev. Eduardo. Os membros fundadores foram Mary E. Lenington Waddell, Effie R. Lenington, Mary Ada Lindsay e Margaret K. Scott, todas ligadas à Escola Americana. Em virtude dos problemas eclesiásticos, Waddell desligou-se do Presbitério de São Paulo em julho de 1896.

No mesmo ano em que chegou ao Brasil, Waddell havia se casado com Mary Elizabeth Lenington (filha do Rev. Robert Lenington), que veio a falecer em 2 de novembro de 1893 quando teve o primeiro filho, que também morreu. Alguns anos depois, Waddell foi trabalhar na Bahia, onde substituiu o Rev. John Benjamin Kolb. Desde 1894, ali se encontrava a serviço da Missão, lecionando na escola fundada pelo Rev. Kolb, Laura Annesley Chamberlain, a filha mais velha do Rev. George W. Chamberlain. Waddell e Laura casaram-se no dia 12 de janeiro de 1897, em Feira de Santana. Depois de algum tempo em São Paulo, o casal fixou-se em Salvador em 1899. Como pastor da igreja da capital (1900-1904), Waddell construiu o templo (1902) e deixou a igreja capacitada para chamar um pastor nacional. Depois residiram em Cachoeira, onde Laura lecionou na ―escola de meninas‖, trabalhando também em São Félix e Feira de Santana.

Waddell passou a fazer longas excursões pelo interior do estado. Visitou em maio de 1902 o campo de Palmeiras, já visitado no ano anterior pelo Rev. Chamberlain, onde mais tarde seria organizada uma igreja. Em setembro daquele ano, recebeu as primeiras famílias por profissão de fé em Ponte Nova e Pedrinhas, continuando a visitar o campo até o fim de 1903. Na sua primeira visita a Palmeiras, na Chapada Diamantina, encontrou já crente o Sr. João Capistrano Norato de Souza, um autodidata que mais tarde chegou ao ministério, tornando-se o primeiro pastor nacional ordenado na Bahia. Em 1905, Waddell alargou o campo de atividades de Ponte Nova até Cafarnaum, incluindo América Dourada e outros locais. No dia 5 de fevereiro de 1905, organizou uma igreja na fazenda Canal, do coronel João Dourado, na mesma região.

Em janeiro de 1906, Waddell mudou-se com a família para a região central da Bahia. Inicialmente, quis fundar a sua escola em Itaberaba, Lençóis ou Palmeiras, porém, devido ao preconceito religioso, não conseguiu comprar uma propriedade. Seguiu então para Ponte Nova, onde a Missão alugou e depois adquiriu uma grande fazenda perto da cidade, junto ao rio Utinga, na então zona açucareira. A aquisição foi feita graças a uma doação do senador Lelland Stanford, da Califórnia. Ali foi criado um colégio evangélico destinado aos filhos dos sertanejos nordestinos. Seu propósito era preparar professores para escolas primárias e bíblicas, treinar jovens para o trabalho da igreja e encaminhar alguns deles ao ministério. As moças ajudariam no trabalho doméstico e os rapazes, que foram admitidos mais tarde, cuidariam dos animais e do trabalho externo. Além do currículo do ginásio, seria ensinada a Bíblia. Dos doze alunos iniciais, oito foram enviados pelo coronel João Dourado, sendo quatro deles seus filhos. Posteriormente, organizou-se também uma escola primária, na qual os jovens professores recebiam treinamento prático.

O Instituto Ponte Nova criou em seus estudantes um profundo senso de missão. Em certa época havia cerca de 60 escolas primárias na Bahia e estados vizinhos servidas por professoras formadas no colégio evangélico, e os governos municipais tomaram sob sua manutenção nada menos que vinte e duas dessas escolas. Esse fato causou profunda impressão em toda a região. As moças ensinavam também em escolas dominicais e muitas delas foram consideradas mais capazes que alguns evangelistas pagos. Além de sua contribuição à educação, a escola central de Ponte Nova e as escolas primárias enviaram muitos jovens aos seminários, como foi o caso do futuro pastor, professor e deputado Basílio Catalá de Castro (1904-1972), tido como o príncipe dos pregadores presbiterianos da Bahia, e do Rev. Eudaldo Silva Lima (1909-1988), valoroso pioneiro presbiteriano em Brasília. Também estudou em Ponte Nova o Sr. José César Pires, cunhado de Eudaldo e pai do Rev. Aristeu de Oliveira Pires (nascido em Ibiaporã de Mundo Novo no dia 1º de julho de 1919).

No tempo em que permaneceu no seu campo, o Dr. Waddell manteve um amplo trabalho itinerante de evangelização e supervisionou também as pequenas escolas primárias que constantemente criava. Enquanto isso, Laura cuidava da administração da escola central em Ponte Nova. A vila que cresceu ao redor da escola e do hospital criado mais tarde (1926) veio a chamar-se Itacira, hoje a sede do município de Wagner. Waddell foi sucedido pelo incansável Rev. Cassius E. Bixler. Também serviram à instituição o Dr. Walter Welcome Wood (chegou ao Brasil em 1916), diretor do Grace Memorial Hospital, Samuel Irvine Graham (chegou em 1923), engenheiro agrônomo, e muitos outros. Em 1927 seria
inaugurado em Ponte Nova o pavilhão Waddell. O Instituto Ponte Nova foi nacionalizado no início da década de 1970 e hoje pertence à rede escolar pública do Estado da Bahia.

Waddell retornou para São Paulo em 1914, assumindo a presidência do Mackenzie College. Os tempos eram outros e ele envolveu-se em muitos projetos cooperativos, inclusive com antigos desafetos. Em agosto de 1915, participou com Matatias Gomes dos Santos e André Jensen de uma reunião de aproximação com os independentes, representados por Eduardo Carlos Pereira, Bento Ferraz e Vicente Temudo Lessa. Em dezembro de 1916, participou de entendimentos para um plano de cooperação entre a Igreja Presbiteriana e os missionários americanos, plano esse que ficou conhecido como Modus Operandi ou Brazil Plan (1917). Apoiou com entusiasmo a criação do Seminário Unido, no Rio de Janeiro, um fruto do Congresso do Panamá, realizado em 1916.

O Dr. Waddell presidiu o Mackenzie até 1927, quando se aposentou por motivo de saúde, recebendo em 1º de julho o título de Presidente Emérito. Na sua gestão, foram construídos vários edifícios, criados novos cursos (engenharia civil, elétrica e mecânica, arquitetura, química industrial) e o ensino foi remodelado, adaptando-se às novas exigências legais. Uma importante conquista foi a equiparação da Escola de Engenharia às suas congêneres federais pelo Congresso Nacional, em 19 de janeiro de 1923. Em outubro do mesmo ano foi criado o Conselho do Mackenzie College, ponto de partida para a nacionalização da entidade. Seus primeiros presidentes foram Erasmo Braga e João Pandiá Calógeras.

Em 1928, Waddell iniciou em Jandira, em uma fazenda de propriedade do Mackenzie, o ―Curso Universitário José Manoel da Conceição‖. Era um curso pré-teológico destinado a prover alunos para o Seminário Unido. Estruturado em bases administrativas modestas e rigorosas, daria espaço a muitos alunos pobres, os quais de outra maneira ficariam privados dessa oportunidade. Foi uma obra de cooperação em que participaram as missões filiadas à Junta de Nova York e as igrejas presbiteriana, presbiteriana independente e episcopal. As aulas tiveram início no dia 8 de fevereiro de 1928, com doze alunos, cinco dos quais se formaram no ano seguinte. Os outros só saíram em 1932, seguindo para o Seminário de Campinas, uma vez que o Seminário Unido havia encerrado as suas atividades. Os primeiros professores foram, além do casal Waddell, Charles Roy Harper, Evelyn Harper, Roberto Frederico Lenington, João Marques da Mota Sobrinho, Alfredo Borges Teixeira, Vicente Temudo Lessa e Margaret P. Grotthouse. Waddell lecionou filosofia, matemática, história e outras disciplinas. Ao longo de várias décadas, o JMC ajudou a preparar um grande número de líderes presbiterianos.

Em 1933, Waddell voltou a assumir, interinamente, a presidência do Mackenzie. Em abril de 1934, o casal foi visitar os parentes nos Estados Unidos, mas logo retornou ao Brasil. Antes de regressar a São Paulo, Waddell visitou a Bahia, seu antigo campo missionário. Na velhice, sonhava com a evangelização do Estado do Amazonas. Na última reunião da missão, pediu que os missionários não se esquecessem da Amazônia. Faleceu no dia 22 de fevereiro de 1939. Sua esposa faleceu exatamente quatro anos depois, em 22 de fevereiro de 1943. O Rev. Waddell foi um dos últimos diretores da Imprensa Evangélica, extinta em 1892. Em 1894, recebeu do Union College o título de Doutor em Filosofia (Ph.D.) e em 1910 o grau de Doutor em Divindade (D.D.), honoris causa.

Seu filho Rev. Richard Lord Waddell foi missionário da PCUSA na região do rio São Francisco a partir de 1931, tendo trabalhado em Santa Maria da Vitória, Cocos, Bom Jesus da Lapa, Sítio do Mato e outros locais. Depois, como o pai, foi presidente do Instituto Mackenzie. Era casado com Margaret P. Grotthouse, que foi professora no Instituto JMC. A partir de 1944, teve participação direta na obra missionária em Portugal, para a qual conseguiu o apoio integral das igrejas presbiterianas dos Estados Unidos. Enviado pela Junta de Nova York, ajudou a criar a Junta Presbiteriana de Cooperação em Portugal e lecionou no Seminário de Lisboa. Outro filho, Kenneth Chamberlain Waddell (1898-1959), nascido em Feira de Santana, cursou engenharia no Mackenzie e medicina no Albany Medical College. Foi docente em ginecologia no Albany Hospital e em cirurgia no Henry Hospital, em Detroit. No Brasil, clinicou na Bahia (Ponte Nova), em Belém e no Rio de Janeiro. Foi missionário da PCUSA de 1928 a 1933 e era casado com Grace E. Moldenhawer. O casal Waddell também teve três filhas: Helen, Agnes e Mary. Helen A. Waddell foi missionária no Brasil de 1925 a 1930.

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Autor: Alderi de S. Matos

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