A Vida Rev. Henry John McCall

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Rev. Henry John McCall

Pastor em Pernambuco e missionário na Bahia

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O Rev. McCall, quando em Caetité

Inicialmente Henry McCall veio para o Brasil como obreiro congregacional. Nasceu em Londres no dia 27 de novembro de 1868. Em setembro de 1892, durante uma conferência em Glasgow, ouviu um tocante apelo do Rev. James Fanstone (1851-1937) com respeito ao Brasil. Apresentando-se como voluntário, tornou-se o primeiro missionário da organização congregacional ―Help for Brazil‖ (Auxílio para o Brasil), com sede na Escócia, organizada por Sarah Poulton Kalley (1825-1907), viúva do pioneiro Rev. Robert Reid Kalley. Acompanhando o Rev. Fanstone, McCall embarcou em Southampton no dia 26 de janeiro de 1893 e chegou a Recife em 12 de fevereiro. Veio trabalhar na Igreja Evangélica Pernambucana em substituição ao Rev. Fanstone, que vinha trabalhando em Recife desde 1879. McCall contraiu febre amarela três meses depois de sua chegada, mas recuperou-se enquanto muitos brasileiros pereciam. Obrigado a prover parte da sua manutenção, dava, como seu antecessor, aulas de inglês e ficava impossibilitado de fazer viagens. Tornou-se amigo pessoal do Rev. George Butler, com quem trocou o púlpito, estando a Igreja Pernambucana à Rua da Roda e a Presbiteriana ainda à Rua do Imperador.

Em 1894, uma febre biliar de novo quase o matou. Cuidou dele um engenheiro escocês, David Law, crente na pátria e que se afastara, mas que agora voltava à fé. Ele e sua esposa levaram McCall para Garanhuns, no interior do estado, onde graças ao clima (a cidade está a 900 m de altitude) o doente se restabeleceu. O Sr. Law ponderou que o evangelho nunca havia sido pregado ali e sugeriu a McCall que o fizesse. Obtida uma sala no andar térreo do sobrado em que residiam, fizeram-se bancos de velhas caixas. Noite após noite a salinha se enchia, ficando gente do lado de fora. Certo dia, uma turba insuflada pelo padre dirigiu-se à casa onde se faziam as prédicas gritando ameaças de morte contra os evangélicos. O chefe de polícia disse que não podia garantir a sua segurança. A coragem de uns poucos simpatizantes brasileiros fez com que a multidão se retirasse. O principal defensor de McCall foi um homem da família Gueiros. Os obreiros resolveram suspender as pregações públicas e iniciaram uma classe bíblica, que chegou a ter 37 alunos.

Nesse tempo, recém-chegados dos Estados Unidos, o casal George e Mattie Henderlite e a missionária Winona Evans, ainda em fase de aprendizagem da língua, foram, a convite dos Law, até Garanhuns. A oposição continuava na cidade e McCall chegou a levar pedradas, mas, estando bem restabelecido em sua saúde, voltaram todos para Recife, em virtude dos planos da missão ―Help for Brazil‖. McCall fez um apelo ao pastor presbiteriano de Recife, Rev. Butler, para que fosse a Garanhuns. Butler e sua esposa Rena mudaram-se para lá e lançaram as bases da grande obra presbiteriana que viria a ser realizada naquela cidade e região.

Em 1895, McCall casou-se com a missionária Winona Evans, da Igreja do Sul (PCUS), que havia chegado ao Brasil em 1893. Algum tempo depois passou a trabalhar com os presbiterianos, sendo recebido pelo Presbitério de Pernambuco em sua reunião de 1897. Em maio de 1902, depois do regresso das primeiras férias da família nos Estados Unidos, Winona morreu de febre amarela em Palmares, no interior do estado, onde o casal estava procurando implantar o trabalho presbiteriano. Seus três filhos ficaram sob os cuidados, respectivamente, das missionárias Eliza Reed, Rena Butler e Mattie Henderlite. McCall pensou em voltar com os meninos para os Estados Unidos. Foi então convidado para realizar duas semanas de trabalhos especiais em Cachoeira, na Bahia, chegando ali no mesmo dia em que o Rev. George Chamberlain foi sepultado em Salvador. Em virtude do seu trabalho, muitas pessoas se entregaram a Cristo e se uniram à igreja. A Missão fez então um forte apelo à Junta de Nova York e McCall foi incluído no rol dos seus missionários, sendo designado para o campo de Cachoeira em fevereiro de 1903. Trabalhou também em Muritiba, Feira de Santana, São Gonçalo dos Campos e outros lugares. Em 1904, chegando de uma viagem pastoral a Cruz das Almas, Sapé, Barão de Palmeira, Conceição do Almeida e São Francisco de Mombaça, encontrou pregando na Igreja de Cachoeira o Rev. Álvaro Reis. Mesmo de botas e traje de viagem, terminado o culto foi abraçar com alegria o visitante.

O Rev. McCall casou-se em segundas núpcias com a missionária Margaret Bell Axtell, natural do Kansas, que havia chegado ao Brasil em 1900 e ultimamente trabalhava como professora em São Félix, perto de Cachoeira. Pouco depois, sete membros da Igreja de Cachoeira mudaram-se para Canavieiras, no litoral sul da Bahia. Em fins de maio de 1905, pediram a McCall que fosse até lá, visto que quarenta pessoas queriam fazer profissão de fé. Ele não pôde ir, mas o Rev. William A. Waddell foi a seu pedido e recebeu as quarenta pessoas. Quatro meses depois, agora acompanhado da família, McCall passou um longo período em Canavieiras, tanto na região costeira quanto subindo o rio Pardo, e afinal recebeu mais quarenta pessoas por profissão de fé. Depois disso, passou a fazer visitas regulares ao campo, indo de Ilhéus a Pontal e fazendo uma visita a Prado. Ali não pode fazer reunião por causa de terrível epidemia e do pouco tempo dado pelo vapor, mas gastou todo o tempo dando remédios e distribuindo folhetos. Organizou a Igreja de Canavieiras no dia 26 de setembro de 1906. Pouco antes, no final de agosto, chegou a Canavieiras o Rev. Salomão Ferraz e o missionário entregou-lhe aquele campo. Em 7 de janeiro de 1907 foi organizado em Salvador o Presbitério de Bahia e Sergipe, figurando McCall e Pierce Chamberlain como membros correspondentes ao lado dos Revs. José Ozias Gonçalves, Matatias Gomes dos Santos e Salomão Barbosa Ferraz. Nessa ocasião, McCall pediu carta demissória para o Presbitério de Topeka, no Kansas.

McCall ficou em Cachoeira até 1908, quando foi residir por breve tempo em Vila Nova (Senhor do Bonfim), substituindo Pierce Chamberlain, que seguiu para os Estados Unidos. Durante várias semanas, pregou em algumas fazendas da região (Quixaba, Fortaleza e Campo Formoso), resultando na conversão dos ―coronéis‖ João Francisco da Cunha Régis, Alexandrino Galvão e muitas pessoas das suas famílias. Foram esses os primórdios da Igreja de Campo Formoso, organizada em 1924. O missionário incentivou o grupo a criar na Fazenda Quixaba uma escola, trazendo para dirigi-la uma professora preparada em Ponte Nova, Adelaide Guanais de Lima. Esse foi o embrião da Escola Americana de Campo Formoso, para onde posteriormente se mudaram aquelas famílias, por amor da escola e da evangelização da cidade.

McCall fez visitas pastorais à fazenda Canal, do coronel João Dourado (1854-1927), na região de Morro do Chapéu, onde muitas pessoas haviam se convertido através do trabalho de obreiros da estação missionária de Ponte Nova. João Dourado convertera-se através da leitura do Novo Testamento, que a princípio julgara ser um livro protestante. Seu filho Augusto da Silva Dourado (1889-1969) e seu neto Adauto Araújo Dourado (1919-1997) tornaram-se ministros presbiterianos. Outro membro da família que alcançou o ministério foi o Rev. Oton Guanais Dourado (também nascido em 1919). Os pais e os avós do Rev. Aristeu de Oliveira Pires e de sua esposa também foram evangelizados na Bahia pelo Rev. McCall, em Ibiaporã, nas proximidades de Miguel Calmon. Eudaldo Lima diz que o Rev. McCall era um homem extrovertido e comunicativo que gostava de ensinar hinos e os acompanhava ao som da sua rabeca.

A Missão Central sentia a necessidade de ter um obreiro residente no Vale do São Francisco. Em 1909, depois de suas férias, McCall foi residir em Carinhanha, às margens daquele rio, na divisa com Minas Gerais, onde havia pessoas interessadas. A viagem levou dezenove dias: dois dias de trem de Salvador a Juazeiro e dezessete de Juazeiro a Carinhanha, subindo o rio São Francisco. Dali, visitou Januária e Montes Claros, no norte de Minas, bem como Cocos, Santa Maria da Vitória e Bom Jesus da Lapa, no sul da Bahia. Em seguida, residiu por alguns meses em Santa Maria da Vitória, onde enfrentou novas perseguições. Pregou com excelentes resultados na localidade de Brejo de São José. Em Santa Maria da Vitória já havia algumas famílias convertidas pelo trabalho do Rev. Finley, que realizavam cultos regularmente. Nessa época, houve uma grande onda de perseguições – a casa de cultos foi apedrejada e invadida pela multidão fanática e Bíblias foram queimadas. Falaram até em jogar o missionário no rio. Dona Margaret McCall sofreu um forte ataque de febre, que parecia tifóide e malária ao mesmo tempo, recebendo valiosa assistência da jovem Rosa de Oliveira, que residiu com eles tanto em Santa Maria como em Carinhanha e Caetité.

O impaludismo do São Francisco levou o missionário a buscar um lugar mais salubre, sendo escolhida a cidade de Caetité, para onde se transferiu em 1910. Recebeu o apoio de
alguns crentes que lá viviam e de destacados líderes locais, como o coronel Cazuzinha e o Sr. João Gomes, que, mesmo sendo espírita, vendeu ao missionário por um preço reduzido a casa em que se realizariam os cultos e funcionaria a Escola Americana. Caetité tornou-se o centro das atividades evangelísticas da região. McCall viajava nos seus animais em todas as direções, até 5000 km por ano, indo com freqüência ao São Francisco. Na Escola Americana, que teve pleno apoio da sociedade local, estudaram o futuro Rev. Otacílio Pitombo de Alcântara e a jovem Rosa de Oliveira, que depois ingressaram no Instituto de Ponte Nova, concluindo os estudos em 1922. Rosa voltou para Santa Maria da Vitória e fundou uma escola evangélica que trouxe grandes benefícios para a região, chegando a ter, além do primário, os cursos ginasial e normal.

Em 1914, os McCall foram para os Estados Unidos em gozo de férias, sendo substituídos na escola e na igreja pela missionária Elizabeth Williamson (1862-1935), mulher dotada de grande piedade e capacidade intelectual. Na volta, a família McCall foi recebida com expressiva manifestação de júbilo por boa parte da população. Houve flores em profusão e as duas bandas de música da cidade tomaram parte da recepção. Por esse tempo, já havia uma igreja organizada com 114 membros. Porém, as secas periódicas motivaram o êxodo da maioria dos crentes, especialmente para São Paulo. O progresso da obra evangélica levou a igreja católica a criar um bispado na cidade e os jesuítas estabeleceram um colégio para combater a escola da Missão. Em 1917, McCall foi substituído naquele campo pelo Rev. Alexander Reese. Depois vieram os casais Chester e Aureetta Carnahan e Harold e Evelyn Anderson, mas a escola que prestou tão relevantes serviços foi fechada. O Rev. Augusto Dias de Araújo foi o primeiro pastor nacional a residir em Caetité.

No final da sua carreira no Brasil, McCall já não podia andar a cavalo. Daí precisou ser removido para lugares atingíveis por estrada de ferro ou barco, mas nem assim pode permanecer no serviço. Foi aposentado em 1924 e em julho de 1925 retirou-se para os Estados Unidos, indo residir na Califórnia. Trabalhou com os Presbitérios de Topeka (Kansas), San Francisco e San Jose. Faleceu em Oakland em 15 de julho de 1960, aos 92 anos de idade. Até o fim da vida manteve-se interessado na obra evangélica no Brasil, como atestam as suas cartas ao historiador Júlio Andrade Ferreira. Dona Margaret McCall faleceu com mais de 100 anos. Nos campos da Missão Brasil Central, como escreveu o Rev. Júlio, ―o nome do casal ficou como uma bandeira de bênção‖.

Bibliografia:  Lessa, Annaes, 535.  Ferreira, História da IPB, I:446, 459-61; II:91-93, 97, 142-46, 372s.  Cartas do Rev. McCall, Pasta McCall, Arquivo Presbiteriano.  Livro das Atas do Presbitério de Bahia e Sergipe (1907-1929).  Fanstone, Missionary Adventure in Brazil, 32s, 122.  Octacílio Alcântara, ―O Presbiterianismo na Bahia, no Vale do São Francisco‖, Brasil Presbiteriano (1 a 15-05-1980), 15; ―Perseguições religiosas na Bahia (06-1982), 4.  Lima, Romeiros do meu Caminho, 74s.  Eudaldo Silva Lima, Os Regis da Quixaba (Brasília, 1985), 39s, 51-60.  Ribeiro, Igreja Evangélica e República Brasileira, 274.

Autor  Alderi de S. Matos

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