CORONEL JOÃO DOURADO (1854-1927)- Incansável Evangelista do Interior da Bahia

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A imagem pode conter: 1 pessoa, barbaJoão da Silva Dourado nasceu em Caetité, sul da Bahia, no dia 7 de janeiro de 1854. Era filho de João da Silva Dourado e Carolina Cardoso Pereira, e teve apenas uma irmã, Francisca da Silva Dourado. Segundo consta, eram descendentes de portugueses da região do Rio Douro, no norte de Portugal, daí o sobrenome Dourado. Em meados do século 18, o marujo português Mateus Nunes Dourado, natural da cidade do Porto, recebeu do governador da Província da Bahia uma área de terras nas proximidades de Santo Antônio de Jacobina. Atraído pelas minas de ouro, ali fixou residência e constituiu família, casando-se com Joana da Silva Lemos. A mameluca Joana era filha de pai português, proprietária da exploração mineral na região e dona de muitas terras. Tiveram um único filho varão, José da Silva Dourado, que veio a se casar com Maria Custódia e teve três filhos: João José, Francisca e Maria Joaquina.

João José da Silva Dourado foi um rico fazendeiro, mas teve maior interesse pela lavra do ouro, como o avô. Em 1840, comprou a imensa Fazenda Lagoa Grande, com vinte léguas quadradas, à qual deu o nome de América Dourada. Para fazer o negócio, vendeu 1.200 cabeças de bois, uma carga de prata e outra de ouro. Suas terras correspondiam a vários municípios atuais: América Dourada, João Dourado, Irecê, Lapão, Ibititá, Presidente Dutra, Jussara, São Gabriel e outros. Partindo de América Dourada, seus descendentes ocuparam aquela região de caatingas, formando fazendas que deram origem a vários povoados. Essa grande família baiana tornou-se muito influente em toda a região, espalhando-se depois para outras regiões do país. O patriarca João José casou-se com Guardiana Cardoso, com a qual teve trezes filhos, sete homens e seis mulheres, além de um filho natural. Seu oitavo filho, João da Silva Dourado, foi o pai do futuro presbítero.

No dia 7 de janeiro de 1878, na fazenda São João, município de Macaúbas (hoje Paramirim), o jovem João Dourado casou-se com a prima Geraldina Brandelina da Silva Dourado (filha de Bento, o quarto filho de João José), nascida em 6 de janeiro de 1860. Foram residir em Angico, área pertencente à Fazenda Lagoa Grande, e em 1888 fixaram residência no lugar denominado Canal. Pela abundância de águas, essa fazenda era uma das paradas obrigatórias para os boiadeiros que faziam a rota Goiás-Piauí-Bahia. Um desses fazendeiros era o coronel Benjamin José Nogueira (1855-1910), membro de uma importante família da cidade de Corrente, no extremo sul do Piauí. Ele e o irmão gêmeo Joaquim Nogueira Paranaguá estudaram em um seminário no Maranhão, mas não quiseram seguir o sacerdócio. Joaquim estudou medicina em Salvador e Benjamin foi administrar a propriedade da família em Corrente. Ficou viúvo três vezes e teve muitos filhos.

Benjamim converteu-se através da leitura de uma Bíblia obtida pelo irmão e tornou-se o primeiro crente batista do seu estado. Foi o primeiro diácono e moderador da Igreja Batista de Corrente, organizada em 1904, bem como um dedicado evangelista. Destacou-se ainda como incentivador da educação, através do Colégio Correntino Piauiense e outras iniciativas. Em 1902, conduzindo uma boiada com destino a Morro do Chapéu, Benjamin chegou à fazenda do coronel João Dourado. A história registra que havia uma aflitiva estiagem na região, o visitante orou fervorosamente a Deus e não tardou a cair uma grande chuva. Benjamin falou aos presentes sobre a Bíblia e sua mensagem de salvação. Pediu autorização para ler o evangelho e o hospedeiro antes de permitir solicitou que os filhos se retirassem para os seus aposentos. Ao partir, o fazendeiro protestante deixou um Novo Testamento, propondo ao amigo que o lesse. O coronel João concordou, mas disse que também leria a Bíblia verdadeira para fazer a comparação.

Assentou-se na sala grande e pôs-se a ler o livro sem interrupção, não saindo nem para as refeições, já que a esposa as trazia. Queria estar pronto para discutir com Nogueira. Estranhou nada encontrar sobre a missa e o purgatório, doutrinas em que acreditava fielmente. Após um bom estudo, partiu para Morro do Chapéu à procura de um padre, a fim de que lhe emprestasse a Bíblia, pois uma vez lido o livro protestante agora desejava ler o da igreja católica, para provar ao homem o seu erro. O padre replicou alegando que a única Bíblia que possuía estava guardada em Salvador. Além disso, ele, João Dourado, era muito moço e não tinha instrução para entender a doutrina da salvação. João respondeu: “Eu, muito moço? O senhor já batizou os meus catorze filhos!”. O coronel voltou desanimado, mas não desistiu da busca. Percorreu 360 km a cavalo até Vila Nova da Rainha, hoje Senhor do Bonfim. Visitando um advogado, entrou alguém com um livro e perguntou se a Bíblia protestante era igual à católica. O advogado disse que sim e para provar tomou emprestada a Bíblia do vigário e fez a comparação. O visitante e João Dourado ficaram convencidos; este se converteu e passou a pregar o evangelho na sua região.

Em 1903, saindo a cavalo de Senhor do Bonfim, onde residia, o missionário presbiteriano Rev. Pierce Chamberlain foi até o Canal de Irecê, tendo pregado em todas as localidades do percurso. Em Morro do Chapéu, conheceu o coronel João Dourado, que o convidou para visitar os lugares que vinha evangelizando somente com o conhecimento pessoal da Bíblia. Mediante esse contato mais demorado com o Rev. Pierce, as últimas dúvidas do coronel acerca do evangelho foram dissipadas. Ele foi batizado e continuou com mais vigor a sua obra evangelística. O missionário prometeu-lhe uma professora para alfabetizar os seus filhos e parentes. Em março de 1904, chegou ao Canal a professora Damiana Eleonor da Conceição; João iria sustentar essa escola paroquial até 1910. No dia 5 de fevereiro de 1905 a congregação da Fazenda Canal foi organizada em igreja pelo Rev. William Alfred Waddell, cunhado do Rev. Pierce. João Dourado foi eleito presbítero, junto com três outros membros da família. Nessa época, a igreja já era freqüentada por mais de cem pessoas.

Em 1906, o Rev. Waddell mudou-se com a família para Ponte Nova, pouco mais ao sul, onde a missão alugou e depois adquiriu uma grande fazenda junto ao rio Utinga. Ali foi criado um colégio evangélico para os filhos dos sertanejos nordestinos. Seu propósito era preparar professores para escolas primárias e bíblicas, treinar jovens para o trabalho da igreja e encaminhar alguns deles ao ministério. Dos doze alunos iniciais, oito foram enviados pelo coronel João Dourado, sendo quatro deles seus filhos. O coronel Benjamin Nogueira também enviou os filhos e alguns parentes para estudarem em Ponte Nova.

O presbítero João Dourado continuou a sua incansável obra evangelística, ora sozinho, ora na companhia de missionários como os Revs. Pierce Chamberlain, Carl Cooper, William Waddell, Alexander Reese, Harold Anderson, Henry McCall e Cassius Bixler. Em 1912, cansado dos prejuízos com as secas, pensou em mudar-se para São Paulo com toda a família. O Rev. Waddell, sabedor do plano, lhe perguntou: “Se o senhor se mudar para São Paulo, quem irá evangelizar o sertão da Bahia?” Diante dessa pergunta, o coronel resolveu permanecer em Canal e dar continuidade a sua valorosa atividade evangelística. Seu trabalho se estendeu pelas seguintes localidades: Morro do Chapéu, Cafarnaum, Mulungu, Canarana, Barra do Mendes, Ibititá, Lapão, Irecê, São Gabriel, Jussara, Central, Gameleira, Xique-Xique, Traíras, Roçadinho, Macedônia, Descoberta, Lajedinho, Guanabara, Tanquinho, Borges, Sabino, Lagoa, Conquista, Lagoa Nova, Lagedão, Previnido, Angical, Caldeirão, Ipanema, Belo Campo, Limoeiro, Barra, Soares, Mocozeiro, Floresta e Umbuzeiro. Após uma vida produtiva e abençoada, o presbítero João Dourado faleceu aos 73 anos no dia 9 de julho de 1927.

O coronel João Dourado foi também um importante líder político em sua região. Ele dizia: “Canal será uma grande cidade; vejo ao norte entrando uma grande avenida”. Hoje a sede da Fazenda Canal é a cidade de João Dourado. O município, com 1002 km², foi criado em 9 de maio de 1985, desmembrando-se de Irecê. A Igreja Presbiteriana de João Dourado acaba de comemorar o seu centenário. Possui um dos maiores templos presbiterianos do interior do Brasil. Nas suas instalações foi criado o Museu Coronel Benjamin Nogueira.

O casal Dourado teve catorze filhos: Idalina, Maria Rosa, Damiana, Sinésio, Adolfo, Ana Geraldina, Carolina, Renério, Antônia, João, Elizabete, Deraldina, Augusto e Altino. Augusto da Silva Dourado, o 13° filho do cel. João Dourado, tornou-se ministro presbiteriano, tendo sido ordenado em abril de 1917. Exerceu o seu longo ministério nos Estados da Bahia, Sergipe, Minas Gerais e São Paulo. O seu jubileu de ouro ministerial foi comemorado com um culto de ação de graças na Igreja Presbiteriana de Sorocaba, em 30 de abril de 1967, sendo pregador o Rev. Galdino Moreira, que era muito ligado à família. Faleceu no dia 6 de março de 1969; seu nome foi dado a uma escola estadual de Sorocaba, no bairro Iporanga. O Rev. Augusto foi casado com Josefina Fontes de Araújo Dourado, com quem teve cinco filhos: Araci, Adauto, Cefas Augusto, Cecília e Jaci.

Seu filho Adauto Araújo Dourado também se tornou pastor. Nasceu em Estância (SE), em 25 de janeiro de 1919. Estudou no Colégio de Ponte Nova, na Bahia, e no Instituto José Manoel da Conceição, em São Paulo. Formou-se em teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas em 1943. Obteve o grau de Mestre em Teologia pelo Seminário Presbiteriano de Louisville, Kentucky, nos Estados Unidos, e aperfeiçoou-se nesses estudos no Seminário de Princeton, em Nova Jersey. Inicialmente exerceu o ministério em São Sebastião do Paraíso (MG) e depois em Ribeirão Preto (SP), onde consolidou o trabalho presbiteriano e teve ampla participação na sociedade. Lecionou por breve tempo no Seminário de Campinas e a seguir foi eleito pastor da Igreja Presbiteriana Unida, em São Paulo, onde também foi professor universitário. Era casado com Margarida Gouveia Dourado e teve quatro filhos: Cecília, Paulo, Carlos e Augusto. Faleceu no dia 26 de março de 1997. Outros ministros dessa grande família são os Revs. Othon Guanais Dourado e Celso Loula Dourado.

Alderi Souza de Matos

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