DESAFIOS DO PLANTADOR DE IGREJA

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Desafios do Plantador de Igreja

Rev. Valdeci Santos

A literatura cristã revela haver muita produção boa sobre plantação de igrejas, sobre o perfil do plantador e até sobre estratégias a serem empregadas para esse fim. Contudo, pouca coisa tem sido escrita sobre os “desafios enfrentados pelo plantador de igrejas”. As dificuldades pessoais, familiares e ministeriais daquele que se apresenta para servir a Deus nessa obra, nem sempre são contempladas pela literatura sobre essa temática.

É verdade que o processo de iniciar uma nova igreja resulta em grande júbilo para o plantador.  A possibilidade de contribuir com o avanço do Reino em regiões não alcançadas, a alegria de observar “o poder do Evangelho na prática”, resgatando vidas e transformando relacionamentos, estão entre essas bênçãos que são experimentadas “de primeira mão” por aquele que se compromete com esse ministério. Mas há também alguns momentos de intensa dor e aflição nesse empreendimento. Em determinadas ocasiões, o plantador pode se sentir emocionalmente exausto e mentalmente confuso em relação às decisões a serem tomadas. De fato, ninguém é suficiente para essa obra (2Co 2.16), mas somente quando capacitado por Deus.

Dentre os inúmeros desafios enfrentados por um plantador de igrejas, ressalto apenas três nesse momento. A escolha desses tópicos obedeceu ao critério da habitualidade, pois esses desafios são os mais comuns entre os obreiros que se dedicam à plantação de igrejas.

Uma das primeiras adversidades experimentadas pelos plantadores de igrejas tem a ver com a pressão por resultados. As igrejas que enviam normalmente esperam, e até cobram, por resultados. Os investidores dos projetos de plantação de igreja aguardam relatórios positivos sobre crescimentos e estatísticas de pessoas alcançadas. Contudo, nem sempre o plantador possui um bom relatório para apresentar e, com isso, ele se sente pressionado. Nenhum plantador de igrejas quer decepcionar aqueles que confiaram nele para esse projeto e, também, não querem perder o apoio financeiro para seus projetos.

É necessário considerar que qualquer ministério que implique em conversão espiritual, mudança de vida e amadurecimento espiritual, não pode ser estimado com precisão. Jesus afirmou que “o vento sopra onde quer” e o Espírito opera com a liberdade que lhe é peculiar (Jo 3.8). O que importa a todo servo do Senhor é ser encontrado fiel na aplicação dos seus talentos e do tempo que lhe foi concedido. Assim, é necessário ser orientado pelas verdades bíblicas para não sucumbir à pressão por resultados.

Outra dificuldade enfrentada pelos plantadores de igrejas sãos os conflitos interpessoais. Relacionamentos interpessoais podem ser tanto uma fonte de alívio como uma causa de desgaste e frustrações. Os conflitos experimentados nessa esfera podem ter repercussões que abalam os esforços em prol da plantação de uma igreja, quando não faz com que o projeto seja totalmente prejudicado. Muitos plantadores precisam dedicar tanto tempo e atenção à resolução de conflitos interpessoais que se desviam quase completamente do propósito de plantar uma nova igreja. Pior ainda é quando o conflito diz respeito a eles ou a sua própria família!

Devido ao fato de trabalhar com pessoas, depender de pessoas e aguardar o amadurecimento de pessoas, poucas coisas abatem mais um plantador de igrejas (ou qualquer outro obreiro) do que os conflitos interpessoais. Nesse sentido, é necessário agir com prudência e compreender qual é nossa esfera de responsabilidade, qual é a esfera de responsabilidade das pessoas envolvidas no conflito, e qual é a esfera que somente a intervenção divina poderá solucionar. A maneira como Paulo lidou com conflitos interpessoais na carta aos Filipenses é elucidativa a esse respeito. Depois de ter apresentado a gloriosa doutrina do esvaziamento e encarnação de Cristo, ele se dirigiu aos seus leitores dizendo: “tenham em vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Fp 2.6). A humildade de Cristo é o modelo para nossas relações interpessoais.

A terceira provação comumente vivenciada pelo plantador de igrejas é a falta de colaboradores. Muitos obreiros não podem contar com conselheiros, intercessores ou apoiadores para a obra que realizam. Alguns não possuem acesso a conselheiros experientes que poderia sugerir e indicar “o caminho das pedras”. Na maioria das vezes, os plantadores acabam aprendendo com seus próprios erros e com parcos acertos. Ademais, o número de intercessores acaba sendo limitado. No geral, há muitos palpiteiros, mas poucos intercessores. Ou seja, sempre haverá alguém que se apresenta como um expert na obra de plantação de igrejas, que geralmente aponta o que foi feito errado, mas poucos se apresentam para orar com o obreiro e interceder por ele em meio às suas dificuldades. Por último, o número de colaboradores pode ser tão pequeno que acaba sobrando muitas atividades e coisas corriqueiras para desviar o plantador do seu verdadeiro chamado e intento. Não deveria ser surpresa alguma observar que o plantador de igrejas se sinta sobrecarregado na maioria das vezes.

A melhor maneira do obreiro lidar com essa dificuldade é se lembrar que ele não é apenas um plantador, mas também um pastor. As deficiências encontradas ao redor são apenas indícios de que a igreja de Cristo carece de aperfeiçoamento e amadurecimento. Pastores sempre reconhecem que lideram ovelhas imperfeitas. Afinal, se assim não fosse, o rebanho não necessitaria de pastores. A mentalidade do pastor o leva a olhar para as ovelhas como pertencentes ao Supremo Pastor e agir com paciência com as deficiências de algumas delas. Além do mais, como pastor auxiliar do Supremo Pastor, o plantador de igrejas pode carecer de colaboradores, mas nunca padece do consolo do Supremo Pastor.

Em meio a inúmeras dificuldades, o plantador de igrejas deve contemplar sua missão também como uma oportunidade para o seu crescimento espiritual. Logo, é importante que ele considere, no mínimo, cinco lições principais.

Em primeiro lugar, que as dificuldades possuem a capacidade de revelar o que está dentro de nosso coração. É justamente nos momentos mais difíceis e frustrantes de nosso ministério que percebemos se nosso coração está sendo dominado pela ansiedade, insegurança, irritabilidade, inveja ou se o fruto do Espírito tem sido uma realidade a ponto de respondermos às adversidades com amor, paz, bondade, benignidade, domínio próprio e assim por diante (cf. Gl 5.19-24). O importante, então, não é tanto a experiência que temos, mas como reagimos a ela. O que nossa reação revela sobre a virtude ou defeito dominante em nosso coração. Dificuldades são, em certo sentido, oportunidades para autoavaliação e percepção das áreas nas quais precisamos crescer. Dessa forma, nenhum plantador de igrejas (ou crente no Senhor Jesus) deveria desconsiderar suas dificuldades mais acirradas.

Em segundo lugar, o plantador deve cuidar para que sua atenção com os desafios e dificuldades não seja maior do que seu cuidado com sua família. Normalmente, quando alguma parte do nosso corpo se machuca, toda a nossa atenção se volta para ela. Por exemplo, aquele pequeno corte no dedo incomoda mais do que os inúmeros compromissos atrasados que temos em nossa lida diária. Além do mais, aquele machucado parece exigir nossa atenção em outras circunstâncias. O dedinho machucado certamente receberá os golpes, apertos e esbarros que acontecerem durante o dia. Semelhantemente, quando experimentamos algum problema ou angústia, nossa atenção automaticamente se dirige para aquela mazela a ponto de nos esquecermos dos que estão mais próximos a nós. Com isso, é comum que os pastores, plantadores de igrejas e outros obreiros dediquem tanta atenção a suas dificuldades que acabam se esquecendo do cuidado que devem aos seus familiares.

O plantador de igrejas (e qualquer outro obreiro) deve se lembrar que, de fato, ele possui um chamado ministerial. Mas ele também possui um chamado para ser um marido carinhoso e cuidadoso e um pai exemplar e presente na vida de seus filhos. Assim, em meio às dificuldades, é necessário avaliarmos continuamente se não estamos negligenciando nosso chamado àqueles que estão mais próximos a nós.

Em terceiro lugar, é necessário que o plantador de igrejas se esforce para plantar igrejas que ele gostaria de frequentar mesmo que não fosse o pastor delas. O esforço nesse sentido é por uma comunidade marcada pelo amadurecimento espiritual e isso toma tempo, paciência e muita dedicação. O objetivo do plantador de igrejas não é apenas apresentar um relatório positivo, mas apresentar a igreja como “virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (2Co 11.2). Em outras palavras, qualquer obreiro de Cristo trabalha para a eternidade e não para satisfazer a algumas poucas demandas imediatistas.

Em quatro lugar, é necessário que os plantadores de igrejas se lembrem que, embora nem sempre eles sabem o que está acontecendo, Cristo sempre sabe. Ou seja, a dependência em Cristo é uma necessidade fundamental para qualquer ministério de serviço a Ele, principalmente para o serviço de plantar uma igreja para Ele. Jesus é o Supremo Pastor do qual todos nós somos apenas auxiliares. Assim, nos momentos de confusões e indecisões, a melhor atitude é se voltar para o Senhor em oração e busca por sabedoria. Às vezes consumimos muito tempo e energia tentando encontrar respostas para a obra de Deus sem buscar o Senhor e meditar em sua Palavra. Em 1Coríntios 3, o apóstolo Paulo deixa claro que a obra do Senhor deve ser realizada na dependência do Senhor e segundo os princípios estabelecidos pelo Senhor. Resultados podem até aparecer pelo mero esforço e habilidade pessoal, mas eles não perduram e não possuem valor para eternidade.

Em quinto lugar, o plantador deve se lembrar que é melhor caminhar devagar e firmemente por caminhos certos do que nos apressarmos por trilhas erradas. Certamente o desejo do plantador é obter resultados rápidos! Experimentar a bênção de um crescimento numérico acelerado, organização rápida e autonomia eclesiástica é algo que, no geral, todos desejam. Todavia, há inúmeros riscos a serem evitados na aceleração do processo de plantação de igrejas. Esse esforço, por exemplo, pode ser apenas o cumprimento idólatra do plantador “provar sua eficácia aos outros”. Todos queremos parecer eficazes em algo e quando o fazemos com alguma missão que nos foi confiada, logo nos sentimos valiosos e merecedores de respeito. Por outro lado, alguns se apressam no plantio com o desejo de se verem “livres da igreja mãe”. Isso acaba exaltando o orgulho e sentimento faccioso no Corpo de Cristo, o que nunca contribui para o verdadeiro crescimento espiritual.

Na verdade, há vários paradoxos envolvidos no processo de plantação de uma nova igreja. Esse ministério revela incontáveis bênçãos, mas também pode cobrar um preço alto do plantador dedicado. A recomendação bíblica é que a dedicação a essa obra, assim como tudo na vida cristã, seja uma extensão de nossa devoção ao Senhor da Igreja. Nesse caso, o princípio enfatizado por um dos maiores plantadores de igrejas do Novo Testamento foi: “fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). E isto, é claro, à despeito das dificuldades.

Autor: Rev. Valdeci Santos

Fonte: Portal IPB https://www.ipb.org.br/conteudos_detalhe?conteudo=567

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