Evangélicos clamam a Deus na fronteira entre Ucrânia e Rússia: “A oração é nossa arma”

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Celebração do Dia de Ação de Graças organizada por igrejas evangélicas ucranianas. (Foto: Movimento Conservador da Ucrânia via Christianity Today)

O conflito na fronteira entre Ucrânia e Rússia não se limita apenas aos governos — mas reflete também nas igrejas.

O Natal dos evangélicos que vivem na Ucrânia foi marcado por jejum e oração. O motivo: milhares de soldados russos a postos próximo à fronteira, levantando temores de uma invasão da Rússia.

“A oração é nossa arma espiritual”, disse Igor Bandura, vice-presidente da União Batista da Ucrânia ao Christianity Today. “Deus pode desfazer o que os políticos estão planejando.”

A grande tensão acontece nas regiões Donetsk e Luhansk, áreas de divisa com a Rússia, conhecidas como Donbass. Desde 2014, Donbass — localizada no sudeste da Ucrânia — está sob controle de separatistas apoiados pelos russos.

A Aliança Evangélica Europeia (AEE) declarou Donbass como “a área da Europa onde a igreja mais sofre”, em novembro de 2021. No total, o conflito matou mais de 14.000 pessoas e deslocou 2 milhões das 5 milhões de pessoas da região.

Na sexta-feira passada (31), o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, alertou o presidente russo, Vladimir Putin, que uma nova invasão da Ucrânia resultaria em “um alto preço a pagar”. 

Putin respondeu que uma nova sanção americana provocaria um colapso completo nas relações entre EUA e Rússia. 

Na segunda-feira (3), Biden disse ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que os EUA e seus aliados iriam “responder de forma decisiva” à agressão russa e Zelensky agradeceu pelo “apoio inabalável”.

Igrejas no campo de conflito

Há anos atuando na zona de guerra, Vitaly Vlasenko, secretário-geral da Aliança Evangélica Russa (AER), já foi rotulado de espião. 

Ele viajou mais de 1000 km do sul de Moscou, na Rússia, a Luhansk, na Ucrânia, às suas próprias custas, para tentar intermediar conflitos no Donbass — região que se tornou perigosa para as igrejas.

Em 2018, os líderes separatistas no Donbass elaboraram leis para voltar a registrar as igrejas, aparentemente sob o princípio da liberdade de consciência e reunião. 

Sem registro, as igrejas eram desconectadas da rede de gás e eletricidade. Todas as igrejas evangélicas operavam ilegalmente, mas agora era inverno e frio.

Dois anos antes, no entanto, as autoridades em Luhansk declararam os batistas e pentecostais uma “ameaça à segurança”. Pastores foram assassinados e igrejas foram confiscadas.


Culto memorial para quatro líderes religiosos mortos na Ucrânia em 2014. (Foto: Church in Chains)

Em dezembro de 2018, Vlasenko foi até o Donbass para falar com autoridades separatistas sobre o processo de registro das igrejas. Ele sabia do risco que corria, já que apenas pessoas conectadas à KGB poderiam ter acesso a eles.

A visita de Vlasenko foi organizada por meio de contatos com a Igreja Ortodoxa Russa em Luhansk. Ele conseguiu entrar em contato com o oficial de assuntos religiosos, que possibilitou que os registros fossem dados a todos os que concluíssem os procedimentos. 

Apesar de ajudar as igrejas da Ucrânia, Vlasenko diz que hoje as relações entre os evangélicos russos e ucranianos ficaram tensas. 

“Nossos irmãos em Cristo na Ucrânia estão clamando: ‘Por que vocês não pressionam a Rússia para parar com essa agressão?’”, disse Vlasenko. “Dizemos a eles que somos uma minoria sem posição e sem informações claras, e oficialmente a Rússia não faz parte deste conflito.”

“Eu entendo que eles estão em uma situação difícil”, acrescenta Vlasenko. “A maioria das igrejas tem sua sede em Kiev (capital da Ucrânia), então como elas podem aceitar o registro [dos separatistas] e explicar isso a seus irmãos na capital?”

Mas as igrejas do Donbass enfrentam uma escolha: continuar sofrendo ou continuar atuando no ministério. 


Igreja Batista Templo da Paz, construída no centro de Kiev, capital da Ucrânia. (Foto: Movimento Conservador da Ucrânia via Christianity Today)

Problemas de liberdade religiosa

Os problemas de liberdade religiosa em Donbass listados pela Aliança Evangélica Europeia incluem:

– Muitas igrejas são ilegais e não podem se reunir, especialmente as evangélicas e as ortodoxas ucranianas. Denominações inteiras são classificadas como extremistas sem justificativa.

– Muita literatura cristã é proibida, incluindo a tradução sinodal russa da Bíblia. Os edifícios das igrejas foram apreendidos à força; a Universidade Cristã de Donetsk é ocupada por soldados.

– O sistema de registro para comunidades religiosas é totalmente injusto. As igrejas tiveram seus pedidos rejeitados por serem supostamente extremistas.

Até o momento, apenas algumas igrejas evangélicas foram “legalizadas” em Luhansk. Igor Bandura, vice-presidente da União Batista da Ucrânia, disse que o processo de registro foi projetado para ser impossível. Mas na Donetsk ocupada, a outra metade da região de Donbass que também opera sob suas próprias leis e autoridades rebeldes, tem havido mais flexibilidade.

Batistas são considerados “terroristas”

Luhansk designou oficialmente a União Batista como um grupo terrorista, disse Bandura. Portanto, a igreja lá é subterrânea. Em Donbass, apenas metade das cerca de 100 igrejas ainda estão funcionando. 

Há procedimentos em andamento com as autoridades rebeldes em Donetsk para unir três grupos batistas sob o mesmo guarda-chuva, a fim de garantir o registro.

“Se é assim que vocês podem preservar suas igrejas e ministérios, não somos contra”, disse Bandura. “Não encorajamos nem recomendamos nada — e presumimos que qualquer acordo seja temporário.”

Outros grupos em Donetsk ainda consideram os requisitos complicados. Mas Yuriy Kulakevych, diretor de relações exteriores da Igreja Pentecostal Ucraniana, acha que as coisas podem estar avançando.

“A Rússia gosta de mostrar que cumpre os padrões internacionais de liberdade religiosa”, disse ele. “Mas, por enquanto, somos ilegais, mandados a sentar e ficar quietos.”


Batismo em massa em Kiev conduzido por igrejas evangélicas ucranianas em 2018. (Foto: Movimento Conservador da Ucrânia via Christianity Today)

A situação é diferente na Crimeia, disse ele, que em 2014 foi anexada por separatistas apoiados pela Rússia. A Rússia conduziu um referendo sobre a anexação (que não foi reconhecido pela comunidade internacional) e incorporou a península do Mar Negro em seu território.

Os pentecostais aprovaram a nova realidade. “Vimos isso como o melhor meio possível para sobreviver”, disse Kulakevych. “Os líderes pentecostais russos são todos missionários ucranianos de 30 anos atrás; nós conhecemos eles.”

Mas nem todas as relações são boas. O segundo maior grupo pentecostal na Rússia, segundo Kulakevych, é liderado por um líder “100% comprometido com a agenda do Kremlin na Ucrânia”.

Já Vlasenko, da Aliança Evangélica Russa, revela que falou com os crimeanos: eles queriam a anexação, mas a Ucrânia nunca teria permitido um referendo.

Conflito entre evangélicos russos e ucranianos

Kulakevych relatou um sentimento de frustração entre os pentecostais ucranianos a partir de 2014, na época da anexação da Crimeia, alegando que os pentecostais russos não protestaram contra seu sofrimento. 

Em agosto de 2021, a Rússia declarou os grupos pentecostais da Nova Geração da Ucrânia “indesejáveis”, os banindo do país. Em outubro, os regulamentos entraram em vigor para exigir que todos os missionários treinados no exterior fizessem um curso oficial sobre as relações entre Igreja-Estado e recebessem uma recertificação de seu ministério.

A indignação foi sentida na Ucrânia, mas Kulakevych tentou acalmá-los. “Eles exigem [que os evangélicos russos] falem abertamente contra o Putin”, disse ele. “Não estamos no lugar deles e não entendemos os riscos que correm pelo Evangelho”.

Igor Bandura entendeu melhor a situação há dois anos, quando a União Batista da Rússia foi para a Ucrânia. Perturbados por anos de conflitos, os líderes batistas russos e ucranianos realizaram reuniões que ajudaram a curar relacionamentos, disse Bandura. 

Após dois dias de sessões a portas fechadas e sem declarações públicas, as questões entre os dois foram resolvidas.

“Entendemos que a situação da liberdade religiosa na Rússia é terrível e não esperamos que eles falem bravamente por nós”, disse Bandura. “Basta que se mantenham em silêncio”.

Vlasenko, entretanto, quer falar — mas com cuidado. Ele acredita na independência da Ucrânia. Ele quer que os evangélicos de ambos os países comuniquem aos seus líderes nacionais que a guerra não é a resposta para os problemas políticos. E como pastor, ele acredita que deve buscar a paz e a reconciliação.


Terceiro Fórum Ucraniano de Líderes Políticos Cristãos, em Kiev. (Foto: Movimento Conservador da Ucrânia via Christianity Today)

A visão dos ucranianos

A situação é simples para os ucranianos. “A Ucrânia sempre irritou a Rússia”, disse Oleksandr Turchynov, ex-presidente interino da Ucrânia e pregador em sua igreja batista em Kiev. “A democracia, e mesmo a nossa própria existência, é uma ameaça ao regime de Putin.”

Turchynov, coordenador do Movimento Conservador da Ucrânia, não está satisfeito com o tom de reconciliação que a Europa quer promover entre a Rússia e a Ucrânia. Ele, na verdade, está ansioso para que a Ucrânia se junte à Otan e fortaleça os valores conservadores dentro da União Europeia.

Mas a esperança final de Turchynov está em outro lugar. “O Senhor vai destruir todas as transgressões do maligno”, disse ele. “A verdade está conosco, portanto, Deus está conosco. E onde Deus está, a vitória também está.”

Os irmãos evangélicos podem encontrar um ponto de unidade? Para Vlasenko, esta ainda é uma questão difícil. “Todos nós dizemos que fazemos parte do reino de Deus juntos. Mas quando se trata de política, nos dividimos novamente”, lamenta.

FONTE: GUIAME, COM INFORMAÇÕES DO CHRISTIANITY TODAY

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Pastor Eli Vieira é casado com Maria Goerretti e pai de Eli Neto. Responsável pelo site Agreste Presbiteriano, Bacharel em Teologia, Pós-Graduado em Missiologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, Recife-PE e cursando Psicologia na UNINASSAU. Exerce o seu ministério pastoral na Igreja Presbiteriana do Brasil desde o ano 1997 ajudando as pessoas a encontrarem esperança e salvação por meio de Jesus Cristo. Desde a sua infância serve ao Senhor, sendo educado por seus pais aos pés do Senhor Jesus que me libertou e salvou para sua honra e glória.

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