João Calvino: Sua Influência na Vida Urbana de Genebra

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Rev. Sérgio Paulo Ribeiro Lyra

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João Calvino

1. INTRODUÇÃO.

Inquestionavelmente João Calvino foi um homem incomum. Ele não apenas foi uma personalidade marcante e influenciadora, mas também demonstrou uma admirável capacidade de organizar e legislar. Os impactos de sua liderança na cidade de Genebra deixaram profundas marcas em uma civilização inteira, marcas essas que se espalharam tanto por onde a fé reformada achava abrigo quanto nos locais onde era rejeitada. Na busca de lançar um pouco mais de luz sobre os princípios da liderança adotados por Calvino durante o seu ministério em Genebra, empreendemos esta pesquisa. Constatamos que a quantidade de material produzido tanto por Calvino como por companheiros seus, além de abundantes obras atuais, nos permitiram produzir um trabalho que focaliza o reformador no desenvolvimento de suas relações como um líder cristão de grande influência, bem como identificar aspectos e impactos produzidos no contexto urbano de Genebra do século XVI.

Buscando ser fiel ao escopo aqui estabelecido, se faz necessário, logo de início, deixar claro que mesmo com o grande volume de informações disponíveis, o que fazemos ainda é uma dedução a partir de escritos sem vida, com os quais não podemos dialogar. Nas palavras de Richard Gable: “Tratar de descrever a influência de Calvino em qualquer país específico é uma tarefa complexa e mais difícil ainda quando sintetizar se faz necessário”. Isto significa que jamais podemos declarar como amplamente conclusivas e totalmente corretas em suas ênfases, todas as conclusões a que chegarmos. Para tanto basta se constar as centenas de livros que ora defendem, ora rejeitam o reformador de Genebra.

Partindo da necessidade de se conhecer a realidade situacional de Genebra de 1500, faremos, de início, uma breve exposição do contexto que envolvia aquela cidade, bem como os aspectos geo-politicos e sócio-econômicos. Em seguida, lançando mão de descrições biográficas acerca de Calvino, buscaremos identificar o perfil de sua formação familiar, acadêmica e espiritual para então focalizar o seu ministério em Genebra, inicialmente como pastor e posteriormente como pastor-legislador. Por fim, no último capítulo, abordaremos os macro impactos causados por sua liderança no povo e nas estruturas urbanas de Genebra.

2. GENEBRA ANTES DE CALVINO

A Genebra do século XVI era um cidade suíça, de fala francesa, estando situada ao sul do lago Leman, conhecido hoje como lago de Genebra. Ela é dividida em duas pelo rio Rhône, tendo uma ponte ao norte, conhecida como St Gervais, que proporcionava o contato entre as duas partes. Até 1536 a situação da cidade era delicada. Genebra foi uma república que estava inserida entre os limites dos cantões suíços, os domínios do duque de Savóia e o reino da França, e uma luta pelo poder gerava disputas na cidade.

2.1 – O Contexto Político

Durante a idade média, Genebra foi uma vila episcopal que deveria ser governada pelo seu bispo. Mas, na realidade, ela estava sob o controle do duque de Savóia, Charles III, desde 1504. Havia uma acirrada luta pelo poder entre o bispo católico Jean e o Duque. Porém, com a morte do bispo o duque Charles tomou para si praticamente toda a autoridade e incorporou ao seu controle as “adjudicações de causas cíveis que rendiam muito dinheiro” e que estavam sob a tutela do bispado. Tal atitude provocou uma revolta nos habitantes de Genebra contra o duque, produzindo uma guerra entre os moradores da cidade e as forças do duque. Nesse tempo, entrou na disputa a poderosa cidade de Berna, cujo governo considerava Carlos V, rei do

Sacrossanto Império Germânico, Espanha e países Baixos, pessoa perigosa por também desejar governar a Suíça. Em 8 de fevereiro de 1520, o concílio de Berna recebeu a cidade de Genebra como sua confederada e concílios desta votaram aprovando a confederação. O então atual bispo de Genebra, que era um representante do duque, ao saber da federação de Genebra a já protestante cidade de Berna, fugiu da cidade com outras 50 pessoas ligadas ao duque. Seguiu-se uma real guerra entre as forças de Genebra e as do duque de Savóia, o qual armou guerrilhas que assaltavam aqueles que se dirigiam à cidade, bloqueando as estradas. Apenas quando o forte exército de 6.000 homens de Berna se movimentou em direção a Genebra, forçando as tropas do duque a recuarem para a França, é que as estradas foram liberadas e Genebra ficou livre.


2.2 – A Situação Estrutural da Cidade

Não há um pleno consenso sobre a população de Genebra antes da chegada de Calvino em 1536. McNeill fala de 12.000 habitantes, Nichols 13.000 e Hermisten Costa, citando Stanford Reid, defende apenas 9.000 habitantes. Contudo, segundo Phillip Schalf, parece ser mais aceito 12.000 habitantes a população no início do século XVI. A cidade era conhecida pelas suas ruas limpas com banheiros públicos, e pelo forte comércio que nela acontecia, fruto de freqüentes feiras setorizadas. Em Genebra se produzia grãos, peixes secos e artesanato. Sua característica econômica diferia da maioria das cidades da região, embora houvesse algumas indústrias. Segundo Bieler, “Em Genebra não havia um proletariado urbano ou mineiros como na Alemanha e França, ou uma classe camponesa numerosa”.

Genebra era também conhecida como a “cidade dos concílios”. Os membros desses concílios eram eleitos pelo povo e tinham a finalidade de exercer tanto o poder executivo quanto o legislativo e judiciário. Os concílios eram em número de quatro: o concílio de 4 síndicos sendo este o que exercia a função executiva; o concílio menor que incorporava os 4 síndicos e mais 21 outros membros; o Concílio dos 200, composto por 200 cidadão eleitos; e o concilio geral, também conhecido como ” Bourgeoisie “, composto por todos homens nascidos de Genebra e chamados de ” Citoyen “. Afora isso, a cidade era uma típica cidade do seu tempo, com muita fumaça produzida pelos fogões à lenha e aquecedores, muita lama nas épocas de chuvas, muitos animais domésticos e muros protetores ao seu redor.

Contudo, foi apenas em um aspecto que Genebra se tornou realmente única em toda Europa, a cidade foi o ponto central para treinamento e expansão da reforma calvinista. Segundo a nossa percepção, talvez, o título de centro da infiltração protestante seria uma terminologia mais descritiva do que a cidade representou para a reforma.


2.3 – A Influência Protestante Externa em Genebra

A cidade de Berna havia abraçado o protestantismo em 1528 pela ação de pregadores influenciados por Lutero e Zwinglio, contudo no que diz respeito a “conversão” de Genebra ao protestantismo, ocorreu algo semelhante ao que se deu na cidade de Antioquia da Síria. Comerciantes protestantes de Nürenberg e soldados de Berna com seus capelães, gradualmente trouxeram o protestantismo para Genebra. Pregadores como Antoine Froment e Guilherme Farel foram tão influentes que já em 1533 a primeira ceia do Senhor foi celebra na cidade. Em 1534 o concílio menor votou que o episcopado deveria ficar vago e em 21 de maio de 1536 o concílio geral votou unânime: “viver de acordo com o evangelho”. É nesse contexto que dois meses depois João Calvino, quando ia de viagem em direção à cidade de Estrasburgo, ao decidir apenas pernoitar em Genebra, propiciou o seu já bem conhecido encontro com Farel e com Genebra.

3. TRAÇOS DA LIDERANÇA DE JOÃO CALVINO


Calvino como Líder Contemporâneo em Genebra

Há uma claro consenso entre os historiadores em apresentar Calvino como um líder claramente relacionado com os problemas do seu tempo e contexto. William Bouwsma no prefácio do seu livro sobre Calvino chega a afirmar que “não pode aceitar a versão ensinada de Calvino como um pensador sistemático” e enfatiza: “eu não acredito que Calvino sequer aspirava construir um sistema, como o termo ‘sistema’ é comumente entendido… Ele (Calvino) procurou, como outros humanistas, desenvolver uma efetiva pedagogia… a urgência do seu tempo requeria isto”. Este mesmo autor reiterando a sua posição de apresentar Calvino como um líder pertinente ao seu tempo, cita o próprio Calvino afirmando: “verdadeiramente nós devemos trabalhar mais para o nosso tempo e tomá-lo com mais afinco. O futuro não deve ser desprezado, mas o que é presente e urgente requer mais de nossa atenção”. Vejamos, pois, como isto se processou nas diversas fases da vida de Calvino.

A. O propósito primevo das Institutas

De particular interesse para nós, é registrar o real propósito pelo qual Calvino decidiu escrever a primeira versão de suas Institutas. Sua liderança como proeminente teólogo e jurista já se destacava pelos constantes questionamentos que lhe eram feitos aonde chegasse. Porém, o ponto de partida foi a atitude do rei francês Francis que para afastar a simpatia dos estrangeiros pelas vítimas de sua perseguição contra os protestantes, declarou em um de seus manifestos que os punidos com torturas e fogueira eram apenas anabatistas e homens perversos. Calvino, vivendo esse momento resolveu escrever suas Institutas com dois propósitos: “Primeiro para vindicar o indesejável insulto ao meu irmão (Etiene de la Furge) cuja morte foi preciosa aos olhos do Senhor, e segundo, uma vez que alguns sofrimentos afligiram muitos homens piedosos, alguma tristeza e cuidados por eles deve mover povos estrangeiros”. John Dillengerber nas suas seleções de escritos de Calvino inclui o prefácio que foi elaborado para o comentário do livro de Salmos onde Calvino explicita o seu propósito em escrever as Institutas:

Vendo eu que esses arengueiros da corte usavam e dissimulações de diligências por fazer não somente que a dignidade desse derramamento de sangue inocente permanecesse amortalhada pelas falsas imputações e calúnias, com as quais enxovalhavam os santos mártires após a sua morte, mas também que a seguir, contavam como meio de produzir a todo extremo para afligir os pobres fiéis, sem que alguém pudesse ter compaixão deles, pareceu-me que, a não ser que a isso me opusesse valorosamente, quanto a mim estava, não podendo eu desculpar-me de, em calando-me, ser eu considerado covarde e desleal. E esta foi a razão que me levou a publicar as Institutas.

Aos dois desejos expressos por Calvino deve ser acrescido o desejo de ver o rei Francis I mudar a sua atitude de perseguição violenta, desejo este que Calvino claramente expõe na carta de dedicação das Institutas enviadas ao rei. Contudo, o que poucos divulgam hoje é que o autor das Institutas as escreveu por causa das perseguições da sua época. Fica assim mais uma vez evidente que o grande Reformador foi um líder do seu tempo, pertinente ao contexto histórico e relevante às necessidades do seu momento. Merece ainda destaque o fato de Calvino não ser um líder isolacionista. Com ele estava um grupo de homens dedicados a Cristo e a sua obra. Eles estavam inconformados com a selvagem perseguição aos protestantes, e igualmente preocupados em esclarecer a muitos as verdades do evangelho.

B. Líder contextualizado com a realidade de Genebra

Focalizando o nosso escopo geográfico urbano, lançaremos luz sobre a determinação de Calvino ser um líder cristão relevante e contextualizado em Genebra. Mesmo reconhecendo que a cidade já havia experimentado resultados transformadores fruto da sua adesão à fé reformada, através das pregações de Farel e do trabalho de Viret, algo ainda faltava à Genebra. Foi por essa razão que Farel insistentemente instou com Calvino para que ele decidisse ficar na cidade e ajudar na implementação de estruturas que refletissem os princípios da reforma protestante. A liderança organizadora, participativa e contextualizada de João Calvino produziu uma verdadeira reforma urbana em todos os níveis. Hörcsik afirma que “o trabalho de Farel produziu um ‘santo triunvirato’ – Farel, Viret e Calvino. Eles eram complementares uns aos outros, bem como à congregação de Genebra e grandemente fortaleceram a Igreja”.

Porém, não foi o apelo intimador de Farel o principal motivo que fez Calvino ficar em Genebra. De acordo com Alexander Ganoczy “Calvino não anuiu ao pedido de Farel até ele reconhecer a real situação de Genebra”. O próprio Calvino, 28 anos após sua decisão de assumir o desafio Genebrense, escreveu: “Quando na primeira vez vi a esta igreja, ela era praticamente nada. Eles pregavam e isto era tudo. Eles procuravam por ídolos e os destruíam mas, não havia a menor reforma. Tudo estava em desordem”. Calvino não era apenas um líder sensível e escrutinador das necessidades do seu contexto, ele era também um líder cujo preparo o habilitava a servir com probidade e capacidade. Foi por assim pensar que André Biéler no começo do seu livro O Pensamento Econômico Social de Calvino atesta que “não seria possível vislumbrar o pensamento econômico social do reformador sem vinculá-lo estreitamente aos principais acontecimentos sociais e religiosos do século XVI”.

4. A INFLUÊNCIA DE CALVINO EM GENEBRA

Charles van Engen no seu livro Povo de Deus, Povo Missionário falando sobre a liderança cristã, afirma que não é uma tarefa simples definir o que seja um bom líder, porém sugere como aceitável a definição de W. Engstron o qual declara: “O líder faz as coisas acontecerem, jamais são marionetes, e agem”. Neste aspecto Calvino se mostrou um líder marcante. A cidade de Genebra chegou a ser conhecida como a cidade de Calvino. Isso começou a acontecer no período intermediário de sua segunda estada em Genebra, época em que os movimentos de oposição à sua liderança praticamente se renderam aos benefícios de sua administração. Segundo Georgia Harkness o reformador francês, como ele o menciona, tinha em mente remodelar as estruturas globais da cidade tornando-a ” Civit Dei – cidade de Deus, “, cidade na qual a Palavra de Deus deveria ser a última autoridade em matéria de moral, bem como de fé”. O desejo de implementar o ideal cristão na vida da cidade produziu mudanças urbanas profundas, não apenas nas estruturas de governo, mas também nos governantes e nos cidadãos. Sem deixar de reconhecer que os impactos resultantes de seu dedicado esforço em Genebra espraiou-se por quase todo ocidente, aqui decidimos focalizar apenas os macro impactos da liderança de Calvino na política, na área econômica e social e na vida religiosa da cidade de Genebra.

4.1 – Impactos na Política de Genebra

Como já dissemos, Genebra era uma cidade governada por concílios. Antes de Calvino não havia uma normatização legislativa organizada e explicitada para todos. Movido pelo seu zelo de sempre ser fiel ao ensino moral da Bíblia, e ajudado por seu conhecimento jurídico, ele foi o agente e mentor de várias mudanças políticas. É bem verdade que Calvino só foi chamado para se envolver ajudando na confecção do corpo de leis para a cidade, posteriormente à sua intensa atividade na reformulação da vida religiosa. Aqui destacamos dois pontos, por considerá-los de maior grandeza, a relação entre a igreja e estado, e o governo com a participação popular.

A. Relações entre o estado e a igreja

Como reflexo da política praticada em sua época, o atrelamento funcional igreja-estado, que fora exercido por séculos pelo catolicismo romano, também foi claramente percebido em Genebra. Reformadores como Martin Bucer se posicionavam favorável à não independência da igreja em relação ao estado, posição que Calvino não apoiava. Nesse assunto parece haver um ponto de discordância entre os estudiosos. Há autores que apresentam o nosso reformador como um ardoroso advogado da plena independência, e outros que lançam dúvida como pode ser notado na avaliação de Wilson Ferreira: “essa separação da igreja e estado existiu para Calvino mais em teoria do que em prática”. Embora não fosse desejado a interferência do estado nas decisões e estruturas de ação da Igreja, Bouwsma alerta que Calvino admitia como ação legítima do estado “defender a igreja e executar vingança sobre os profanos ou sobre aqueles que querem reduzir a nada o evangelho”, e André Biéler também compartilha dessa idéia ao enfatizar que para Calvino “O Estado não é, pois, um mal necessário, mas um instrumento da providência divina”.

Por outro lado, é inegável que a chagada de Calvino em Genebra foi a fonte de vários confrontos com os concílios da cidade em busca de uma autonomia para a liderança eclesiástica e uma maior clareza entre os limites das atribuições e poderes entre a igreja e o estado. Logo no primeiro período, Calvino rejeitou a autoridade da igreja sobre causas civis e restituiu aos magistrados civis, o poder que havia sido exercido pelos bispos católicos. Não pairam dúvidas que ele não permitia a interferência do estado nas decisões da igreja. Na verdade nos parece sensato reconhecer que na estrutura de governo idealizada, a igreja seria autônoma em seus assuntos de crença, fé e disciplina, devendo o estado ouvir e proteger a igreja, e a igreja não deveria exercer o poder civil.

B. Governo político e participação popular

Para o reformador de Genebra não havia uma desassociação entre a vida cristã e a sua participação nos assuntos da comunidade. Exatamente por entender que a participação política é responsabilidade de todo cristão, sua posição quanto a forma de governo refletia uma franca rejeição a qualquer tipo de governo que fosse déspota e tirânico. O poder civil deveria ser uma representação da vontade popular, ao mesmo tempo que o povo, a partir de sua juventude, deveria ser preparado para se tornar politicamente responsável e participativo. O intuito de politizar os cidadão é visto por Bouwsma como “uma busca para produzir (nos cidadãos) uma consciência política e um senso de responsabilidade pública”. O que necessita ficar bem entendido é que Calvino procurou estabelecer que a “Igreja e o estado deveriam estar livres para legislar na extensão da lei e controle, os dois governos deveriam assistir um ao outro”, pois na sua concepção “política e a verdade espiritual são inseparáveis”.

Um fato ocorrido em 1543 tornou decisiva a influência de Calvino na vida pública. O concílio dos 25 o convocou para cooperar na elaboração de uma nova ordem social para Genebra. André Biéler argumenta que dois aspectos principais se destacaram. Primeiro a liberdade civil passou a ter a sua restrição nos princípios do próprio evangelho, pois agora a lei estabelecia que cada cidadão faria “juramento de viver e de morrer para manter o evangelho e a liberdade da cidade”. O segundo destaque é para a liderança, o magistrado, o príncipe ou conselheiro de uma democracia não pode ser indiferente a sua fidelidade à igreja. Tais posições apresentam um certo atrelamento do poder civil ao religioso. Esta posição é também a de William Bouwsma que ressalta o fato de Calvino partir do pressuposto de que “o homem não habita junto sem lei” e, admitindo que é possível e permitido resistir à autoridade publica que “exalta a si mesmo e diminui o direito de Deus”, não poderia deixar de produzir uma ordem pública aonde “o governo civil deve implantar a vontade de Deus” .

Essa estrutura governamental idealizada e implementada em Genebra levou alguns estudiosos a caracterizar a proposta calvinista de governo como uma teocracia, onde a igreja estaria acima do estado. Contudo, a melhor avaliação, ao nosso ver, é a de Harkness ao dizer que “o que se diz da ‘teocracia’ de Calvino é melhor propriamente dito ser chamado governo ‘bibliográfico’.”.


4.2 – Transformações Econômicas e Sociais

É fato já conhecido, antes de Calvino chegar a Genebra, que os impactos provenientes das doutrinas e princípios abraçados pela reforma iniciada por Lutero e Zwinglio, já haviam chegado à cidade. Mudanças significativas modificaram a vida dos genebrenses tornando a administração da coisa pública mais povo-orientada. Isso pode ser visto na área da educação quando em 1536 o governo pediu que os cidadãos de Genebra assinassem um pacto comprometendo-se a enviar seus filhos às recém-formadas escolas púbicas, e também na área da saúde, pois a cidade mantinha um hospital comunitário.

A fortíssima ligação de Calvino com a prática do evangelho não permitiu que houvesse uma desassociação entre a reforma social e a reforma religiosa. O traço holístico da reforma calvinista produziu o que hoje tem sido chamado de missão integral. Segundo Biéler, é tarefa difícil, se não impossível, dizer que Calvino, ao promover o bem estar público e social, desligava-se das formulações teológicas pois “elas seguem juntas”. Genebra havia sido sacudida pelo evangelho, mas lhe faltava organização normativa, a reforma fora, em parte, o reflexo de um desejo popular, contudo a presença de Calvino e sua liderança foram a peça chave de uma estrutura estável e organizada, fator que David Bosh chama de “instituição do movimento”. Historiadores modernos alegam que a reforma popular na cidade “não levaria a nenhum estado duradouro enquanto não recebesse a instrução de intelectuais (Calvino e seus companheiros)”.

Ao contrario da idéia abraçada pela Igreja Católica Romana que havia praticamente dicotomizado o material e o espiritual, sendo o segundo o sagrado, os ofícios não sacerdotais eram ditos inferiores e seculares, não sagrados. A doutrina do sacerdócio universal de todos os santos estabelecida pela reforma, jamais poderia deixar de encontrar amparo no pensamento social de Calvino. Ele não concebia um evangelho que não levasse o cristão a participar relevantemente na vida ativa da cidade.

A sua contribuição na área social levou Graham a considerar “Calvino como o teólogo de maior influência para o contexto urbano de sua época, ao defender que “todo empreendimento humano está marcado com o mal, contudo isto nos impulsiona com o propósito de fazer o evangelho relevante na cidade de comércio na qual vivemos e trabalhamos.”. Dentre o muito que foi conseguido pela participação marcante do reformador em Genebra na área sócio-econômica selecionamos aqui 12 itens:

  • Assistência social aos necessitados sem discriminação de nacionalidade.
  • Ajuda e cuidado com a saúde popular através de um programa de visita médica domiciliar.
  • Esforços do governo na capacitação profissional.
  • Combate ao desemprego com oferta de trabalho pelo governo.
  • Ênfase no amparo aos pobres, idosos e desamparados.
  • Luta contra a insolência do luxo em relação aos pobres.
  • Exemplo de simplicidade por parte dos reformadores-líderes públicos.
  • Limitação dos juros nos empréstimos.
  • Forte combate à especulação.
  • Ataque frontal à escravidão.
  • Combate a bebedice e proliferação das tavernas.
  • Grande esforço na educação de todos.

Merece um pouco mais de pesquisa a liderança de Calvino na área da educação. Em Genebra a sua grande marca educacional ficou indelével através da criação da Academia. Essa escola possuía dois níveis, o fundamental que era conhecido como escola superior ou pública , e o segundo era o inferior ou escola privata equivalente ao nosso terceiro grau. A Academia de Genebra foi fundada em 1559 e Calvino convidou Teodoro Beza para ser o seu primeiro reitor. Essa escola veio a tornar-se o seminário do calvinismo e o modelo para várias outras universidades que foram lideradas por grandes nomes, ex-alunos da Academia de Genebra. No ano da morte de Calvino a escola tinha 1.500 alunos matriculados, onde a maioria era de estrangeiros. A escola de primeiro grau possuía 1.200 alunos, e a universidade 300 estudantes de teologia, direito e medicina .


4.3 – A Revolução na Vida Religiosa em Genebra

Visando a tarefa de reestruturar o governo eclesiástico segundo as Escrituras, em novembro de 1536, Calvino e Farel compilaram um documento que continha regras para uma nova ordem litúrgica dos cultos, uso dos sacramentos e costumes que os fiéis deveriam respeitar. No documento havia pontos pacíficos como a valorização da família, a eleição dos pastores de cada paróquia e a representatividade dos presbíteros nos distritos. Contudo, logo no primeiro artigo do documento, havia uma matéria que Biéler chamou de “equívoco calvinista que irá suscitar tanto controvérsias como interpretações fantasiosas.”. Por ele dava-se ao magistrado civil o poder de intervir para avaliar a fé dos cidadãos, o que não deixava de ser uma espécie de continuidade da política Católico-Romana. Por outro lado, a estrutura hierárquica clerical adotada por séculos pela Igreja Católica, não refletia o ideal bíblico, e o papa era claramente identificado por Calvino como um agente de Satanás. Rejeitando peremptoriamente essa “tirania papista”, ele implementou na igreja um governo com raízes no ensino das Escrituras que estava estabelecido sob quatro ofícios onde leigos e ordenados tomavam parte.

Partindo do pano de fundo no qual a Igreja Católica vivia a longa tradição milenar que ensinava existir vários ofícios no ministério sacramental, a teologia reformada causou grande impacto quando Lutero propagou o sacerdócio de todos os santos. Porém, foi João Calvino, com a sua doutrina da pluralidade dos ministérios eclesiásticos, que abriu definitivamente as portas para o ministério leigo participativo, diretivo e até disciplinador. A modificação se deu pela revisão na concepção do sagrado, quebrando-se a dicotomia profano-sagrado, e consequentemente clero-povo. A designação “ministérios eclesiásticos” passou também a ser utilizada para “funções temporais tais como a administração do dinheiro e a caridade”. Ora, na teologia romana todas as funções administrativas, interpretativas da Palavra, sacramentais e disciplinares, eram exercida pelo clero e somente pelo clero ordenado, posição que Calvino discordava. O teólogo reformado McKee comentando esse posicionamento afirmou: “ele (Calvino), negando quaisquer diferenças essenciais entre os cristãos, admitiu que os leigos também são ministros não somente na vida particular, mas também na liderança da comunidade cristã”. Estes ministérios plurais estavam mais relacionados com as funções necessárias da liderança eclesiástica. O reformador, na verdade, não excluiu totalmente a idéia de “clero” pois os “pastores ordenados” eram os responsáveis pelos sacramentos e pela pregação, e o laicato se ocuparia de todas as outras tarefas religiosas.

O ensino do Calvinismo quanto aos ministérios plurais, apresentava quatro ofícios eclesiásticos: Pastor, Mestre, Presbítero e Diácono. Porém, Calvino é o único a defender que dos quatro, os ofício leigos de presbítero e diácono, são também permanentes. Interessante é a dupla tarefa dos mestres, os quais deveriam ser responsáveis pelo “ensino da doutrina sólida aos fiéis e preparar os jovens para o ministério e para o governo civil”. Assim, para os reformadores calvinistas, os ministérios cristãos leigos de disciplina e caridade, foram entendidos como ofícios da igreja e baseados na Bíblia e ativos na cidade. O leigo, com Calvino, voltou a ter participação ativa na ação, decisão e missão da igreja. Digno de registro é ainda a aceitação, por parte de Calvino, de mulheres no ofício de diácono. Embora ele não tenha enfatizado muito esta questão, os seus escritos claramente o admitem.

O cuidado a ser dispensado aos pobres foi confiado aos diáconos. Contudo, duas espécies são mencionadas na carta aos Romanos: “Aquele que dá, faça-o com simplicidade;… o que exerce misericórdia, com alegria” (Rm 12:8). Visto que é certo que Paulo está falando do ofício público da igreja, aqui tem de haver dois graus distintos. A menos que minha avaliação me engane, na primeira cláusula ele designa os diáconos que distribuem as esmolas. Mas a segunda refere-se àqueles que se dedicam ao cuidado dos pobres e dos enfermos. Nessa categoria estavam as viúvas que Paulo menciona a Timóteo (I Tm 5:3-10). As mulheres não podiam ocupar nenhum ofício público a não ser se dedicarem a cuidar dos pobres. Não havendo mais a autoridade de um padre, em nome da igreja, sobre o povo, a fim de manter a disciplina na igreja, foi criado um conselho eclesiástico chamado consistório. Este órgão era composto de 6 pastores e 6 leigos – presbíteros, sendo presidido pelo primeiro síndico. A disciplina que era imposta aos faltosos possuía três níveis: admoestação particular, admoestação com testemunhas e a excomunhão.

A liderança de João Calvino na igreja geneberense não foi uma tarefa tranqüila. No seu começo ela proporcionou grandes impactos e recebeu fortes ataques. Ao longo de sua influência, essa resistência veio a arrefecer sendo possível traçar dois períodos. O primeiro foi marcado pelo desejo de provocar rápidas e decisivas mudanças e continha um certo sabor de liderança radical em aspectos de conduta, embora estivesse correto nos seus propósitos. O segundo foi marcado pela liderança mais ponderada e comedida, resultando em sólidas alterações religiosas e sociais.

O forte sabor de extremismo do primeiro período não deixou de produzir as suas marcas nas propostas para a área religiosa. O ponto alto, talvez, tenha sido quando o concílio menor, influenciado pelos reformadores, concordou com os termos de um documento elaborado por Calvino e decidiu que “faria uma inquisição acerca das insolências e maus costumes que reinavam por sobre a cidade, e que se viva segundo Deus”. À priori tal proposta até veio a se assemelhar com o propósito de Esdras e Neemias na reconstrução das estruturas morais e religiosas do povo de Israel, contudo, os pastores de Genebra foram além e “proibiu-se cantar cantigas chulas, jogar jogos de azar, abrir qualquer espécie de posto comercial no domingo na hora do sermão ou apregoar nas ruas a venda de comidas”. Além disto, foi também proibida a exibição de dramas e estabelecida uma punição para quem dançasse, mesmo quando praticada entre cônjuges e familiares,. A reação popular foi imediata. A população sentiu-se acuada e aprisionada, logo pressionou o concílio dos 25 e este, por sua vez, esquivou-se creditando a culpa aos pastores, o que veio a tornar-se um dos fatores para a expulsão de Calvino e Farel em 1538.


5. CONCLUSÃO

Não cremos ser incorreto afirmar que o foco principal da influência de Calvino em Genebra recaiu sobre a vida religiosa. Foi a partir de uma sincera prática das verdades e valores do evangelho que ele idealizou tornar Genebra a “cidade de Deus”. Mas a bem da verdade, muitos problemas e dificuldades com a vida moral da população e confrontação à sua liderança foram enfrentados antes que uma estabilidade que se aproximasse dos seus padrões fosse conseguida na igreja de Genebra. A implantação de uma nova ordem religiosa não inibiu o surgimento de imoralidades, inclusive dentro da sua própria família, quando sua cunhada cometeu adultério com o seu secretário particular e depois quando sua enteada ficou grávida sem estar casada. Em nenhuma das duas situações foi permitido o uso de dois pesos e duas medidas, ambos os casos foram tratados e julgados pelo consistório como todos os demais que já haviam ocorridos, inclusive a decretação da prisão de sua cunhada adúltera, esposa de seu irmão Antônio.

Nos últimos anos que João Calvino passou em Genebra, a amplitude do seu trabalho, ensino e liderança já haviam gerado uma nova mentalidade urbana. A academia de Genebra tornou-se uma verdadeira “escola de missões” da Europa, a ordem do governo e a probidade dos governantes da cidade associada a participação civil dos cidadãos ganharam fama. A igreja ensinava e vivia as verdades das Escrituras, a ação social era parte da vida cristã, além disso, promoveu-se uma ampla e reconhecida acolhida aos imigrantes, fugitivos de diversos lugares por perseguições aos protestantes. Genebra não era mais a mesma cidade do início de século XVI, o ideal calvinista não era um céu na terra, mas a busca dos valores do evangelho na vida individual e coletiva, indelevelmente haviam marcado as estruturas religiosas e sociais da cidade.


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Sobre o autor: O autor é pastor presbiteriano, mestre em missiologia pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper da Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP e coordenador da Pós-Gaduação do Seminário Presbiteriano do Norte .


Fonte: 
Missiodei.com.br

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