João Francisco da Cunha Regis e Alexandrino da Silva Galvão: presbíteros pioneiros do norte da Bahia

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Nos primórdios do presbiterianismo no Brasil, uma das regiões de maior atuação dos missionários norte-americanos foram os Estados da Bahia e de Sergipe. Os primeiros evangelistas, ainda nas últimas décadas do século 19, foram os Revs. Francis Schneider (1871-1882), Alexander Blackford (1880-1890), John Benjamin Kolb (1884-1900) e George Chamberlain (1892-1902), cujas atividades se concentraram em Salvador e em áreas próximas ao litoral. As primeiras igrejas foram as de Salvador (1872), Cachoeira (1875) e Laranjeiras (1884). Em 1896, o crescimento da obra levou à criação da Missão Brasil Central, ligada à Igreja Presbiteriana do Norte dos Estados Unidos (PCUSA). Iniciado o século 20, os missionários começaram a penetrar mais profundamente no sertão baiano. Um obreiro valoroso foi o Rev. William Alfred Waddell, que a partir de 1902 visitou muitas localidades das Lavras Diamantinas. Nessa época surgiram igrejas em Palmeiras, Orobó (Rui Barbosa) e na fazenda Canal (João Dourado). Em 1906, Waddell mudou-se para essa região e criou o famoso Instituto Ponte Nova (na atual cidade de Wagner), que prestou valiosos serviços ao interior nordestino.

O pioneiro presbiteriano no extremo norte da Bahia, perto do local em que o rio São Francisco começa a fazer a divisa entre esse estado e Pernambuco, foi o Rev. Pierce Chamberlain, filho de George Chamberlain e cunhado de Waddell. Começando em 1900, ele passou a subir o grande rio desde Juazeiro até o sul do estado. Por volta de 1902, fixou residência em Vila Nova da Rainha (Senhor do Bonfim), de onde visitou muitas localidades do noroeste baiano (Campo Formoso, Jacobina, Miguel Calmon, Canal, Morro do Chapéu e outras). Devido à enfermidade dos três filhos nascidos em Bonfim, a família voltou para Salvador em junho de 1908 e em janeiro de 1909 seguiu para os Estados Unidos. O colportor Cirilo Santana havia falado ao Rev. Pierce sobre um certo coronel João Regis, proprietário da fazenda Quixaba, que era muito interessado pelas Escrituras. Ele duvidava da validade das Bíblias protestantes até que obteve uma católica através de um primo de Juazeiro. Ao comparar as duas, convenceu-se da verdade e pediu a Cirilo que transmitisse ao Rev. Pierce o convite para visitá-lo. Como este estava de partida, solicitou ao colega Henry McCall que o fizesse.

Logo que pôde, acompanhado da esposa e da filha o Rev. McCall visitou a fazenda Quixaba. Estavam à sua espera não só a numerosa família do fazendeiro, mas grande número de trabalhadores e arrendatários. O coronel Regis também chamou os parentes das fazendas Fortaleza, Alazão e arredores, formando-se um grande acampamento. O missionário realizou reuniões que duravam o dia inteiro, ensinou hinos e formou classes bíblicas. No último domingo, dia 8 de agosto de 1909, foram recebidos por profissão de fé os coronéis João Francisco da Cunha Regis e Alexandrino da Silva Galvão, suas respectivas esposas, Joaquina de Oliveira Regis e Alexandrina de Oliveira Galvão (que eram irmãs), bem como vários filhos de João Regis: Isaura, Rosalvo, Durval, Bertolino e Guiomar. Esse fenômeno repetiu-se muitas vezes na história do presbiterianismo brasileiro: a evangelização produziu alguns dos seus melhores frutos nas regiões rurais, nas quais surgiram sólidas famílias e comunidades comprometidas com a fé reformada.

Em 29 de setembro de 1910, durante nova visita à região, McCall recebeu várias pessoas por profissão de fé na fazenda Fortaleza: Maria Francisca Nunes da Cunha, Ana Isaura da Cunha Melo, Umbelina Nunes da Cunha, Elvira Nunes da Cunha, Joaquim Nunes da Cunha e Ana Nunes da Cunha. No dia 2 de outubro, outra vez na fazenda Quixaba, foram recebidos Aníbal de Oliveira Regis, Artur de Oliveira Regis, Ana Rodrigues da Silva, Antônio Ferreira da Silva, Antônia Souza Menezes e João Francisco Menezes. Dessas famílias haveria de nascer alguns anos mais tarde a Igreja Presbiteriana de Campo Formoso. Muitas dessas informações baseiam-se em depoimentos pessoais dos Revs. Pierce e McCall (ver Júlio Andrade Ferreira, História da Igreja Presbiteriana do Brasil, 2ª ed., vol. II, págs. 95s, 142s). Em seu livro Os Regis da Quixaba (págs. 37-40), o Rev. Eudaldo Silva Lima apresenta uma versão um pouco diferente dos fatos, talvez por ter sido colhida da tradição oral da família.

O patriarca João Francisco da Cunha Regis nasceu no dia 11 de janeiro de 1859 na fazenda Fortaleza (município de Juazeiro), na casa dos seus pais, João Francisco Regis Sobrinho e Mariana do Nascimento Regis. Com cerca de vinte e cinco anos, recebeu por herança do pai a fazenda Quixaba (nome derivado de uma árvore da região), no município vizinho de Campo Formoso. Essa fazenda era um verdadeiro oásis no meio da região árida, sendo regada pelas águas do rio Salitre, às margens do qual ondulavam os canaviais. Havia muitas árvores frutíferas como mangueiras, laranjeiras, jaqueiras, goiabeiras e coqueiros, o que permitia a produção dos mais variados doces graças ao açúcar mascavo e à rapadura ali também produzidos. Esses produtos eram levados às cidades mais próximas, Juazeiro (dez léguas) e Campo Formoso (quinze léguas).

João Regis casou-se em primeiras núpcias com Umbelina Nunes da Cunha Regis, com a qual teve os filhos Edelvira, Isaura, Rosalvo, Durval, Bertolino e Guiomar. Falecida Umbelina, ele contraiu um segundo matrimônio com Joaquina de Oliveira Regis, que lhe deu muitos outros herdeiros: Aníbal, Artur, Sílvia, Manoel, João, Edgar, Maria, Edelvira, Alzira e Aline. Ao todo, uma prole de dezesseis filhos. Durante muito tempo houve um forte entrelaçamento, por meio de laços matrimoniais, entre as famílias Regis, Galvão e Oliveira. João Regis foi um autodidata, sendo perito como fazendeiro, vaqueiro, carpinteiro, pedreiro, ferreiro, sapateiro, mecânico e engenheiro. Era um leitor assíduo de livros, jornais, revistas e tudo o que lhe caísses sob os olhos. Entre seu pequeno, mas seleto número de livros, estava uma Bíblia Sagrada, na tradução do padre Figueiredo, a cuja leitura se dedicava, e que contribuiu para a sua conversão, sob a influência do missionário Henry McCall. O presbítero João Regis faleceu aos 75 anos no dia 7 de junho de 1934, sendo o seu ofício fúnebre realizado pelo Rev. Basílio Catalá Castro.

Seus filhos se destacaram como profissionais em diversas áreas e deram apreciáveis contribuições à igreja e à coletividade. Muitos deles fizeram os estudos secundários em Ponte Nova e quase todos chegaram a uma idade avançada. Artur foi presbítero, vereador e prefeito. Edgar estudou no Seminário Presbiteriano de Recife (1927-1930) e lecionou por breve tempo no Instituto JMC, em Jandira (1932-1933); depois ingressou na Escola Superior de Agricultura de Lavras, ligada ao Instituto Gammon; foi agrônomo de destaque e ocupou cargos importantes em diversos órgãos públicos da Bahia. Suas irmãs Maria (Mary) e Aline tiveram carreiras brilhantes como enfermeiras especializadas. As gerações posteriores, até os dias atuais, têm buscado preservar esse valioso legado de fé e trabalho dos seus antepassados.

João Regis, que havia cursado na juventude o Ateneu Bahiano, tinha grande desejo de que os filhos estudassem. Ao professar a fé, mostrou ao Rev. McCall a necessidade de uma professora em sua fazenda. O missionário conseguiu o envio de Adelaide Guanais de Lima, uma professora preparada em Ponte Nova. A “Escola Americana” de Quixaba iniciou as suas atividades em 1911 e poucos anos depois foi transferida para Campo Formoso, exercendo uma grande influência em toda a região. Outras professoras que ali trabalharam foram Florentina Lessa, Sancha dos Santos Galvão, Joana Araújo Regis (D. Joaninha), Eurídice de Castro Morais Lima e Josefina Araújo Dourado. Finalmente, em 10 de outubro de 1946 foi fundado o Colégio Augusto Galvão, cujo primeiro diretor foi o Rev. Eudaldo Silva Lima. O ato de lançamento da pedra fundamental contou com a presença do governador Otávio Mangabeira e do secretário de educação Anísio Teixeira, levados pelo deputado Rev. Basílio Catalá Castro. Dentre os alunos do colégio, destacaram-se Rômulo Galvão (deputado estadual e federal, constituinte, Secretário de Educação da Bahia), Aluísio Palmeira Lima (desembargador, presidente do Tribunal Regional Federal – Brasília), Gilberto Caribe (desembargador, presidente do Tribunal de Justiça da Bahia) e Manoel Nunes da Cunha Regis (médico, professor, prefeito e deputado estadual).

O coronel Alexandrino da Silva Galvão nasceu em 14 de maio de 1874. Ele e a esposa Alexandrina de Oliveira Galvão tinham ambos o mesmo apelido – Sr. Dudu e D. Dudu. Tiveram três filhos: Augusto, Cora e Rute. Depois de viver na fazenda Alazão, Alexandrino mudou-se para Campo Formoso, onde estabeleceu a firma Silva, Regis e Cia., tendo como sócios o filho Augusto e o sobrinho Artur de Oliveira Regis. Dedicou-se ao comércio dos produtos da terra, como cereais, feijão, mamona, couros e peles, e também explorou com os sócios uma jazida de salitre em terras da família. Ao lado de João Regis, foi um dos membros fundadores e um dos primeiros presbíteros da Igreja de Campo Formoso, que foi organizada pelo Presbitério Bahia-Sergipe em 21 de janeiro de 1924 e teve como primeiro pastor o Rev. Augusto da Silva Dourado, filho do coronel João Dourado, da fazenda Canal. Outro pastor dessa igreja foi o ilustre Rev. Basílio Catalá Castro (1904-1972), que se casou com Edelvira, uma das filhas de João Regis, com a qual teve as filhas Célia, Anete, Gláucia e Sônia.

Graças ao seu conhecimento da Bíblia, o Sr. Dudu foi um excelente professor da Escola Dominical. Ele e a esposa eram os principais hospedeiros dos missionários, pastores e professores que passavam pela região. Alexandrino participou da vida política do município, sendo consultado sobre diferentes questões e gozando da estima de todos. Quando moço, durante a guerra de Canudos (1896-1897), foi incumbido de requisitar gado de corte para a manutenção das forças do governo na frente de combates. Para tanto, viajou por todo o sertão da Bahia e transpôs os limites dos estados vizinhos. Faleceu aos 86 anos, no dia 13 de dezembro de 1960. Sua firmeza na fé era marcante, como ficou provado em junho de 1946, quando chegou à sua firma um telegrama dando a notícia do falecimento do seu filho Augusto Galvão. Ao ser lida a mensagem, ele exclamou: “O Senhor o deu, o Senhor o levou, bendito seja o nome do Senhor”. Nessa época, pastoreava a igreja o Rev. Eudaldo Silva Lima (1909-1988); o novo templo da igreja havia sido inaugurado no final do ano anterior.

Augusto de Oliveira Galvão nasceu na fazenda dos pais no dia 17 de março de 1910. Estudou no Instituto Ponte Nova, onde se destacou pela sua profunda integridade moral e compromisso cristão. Professou a fé na adolescência perante o Rev. Cassius Edwin Bixler. Posteriormente, cursou a Escola de Comércio de Recife, voltando para Campo Formoso a fim de trabalhar no comércio com o pai. Casou-se com Aline, a filha caçula do veterano João Regis, com a qual teve as filhas Marline, Arlete e Corália. Foi eleito presbítero em 12 de fevereiro de 1942 e ordenado no dia 1º de março. Também se tornou tesoureiro do seu presbitério. Foi grande entusiasta da criação do colégio que hoje leva o seu nome e de muitas outras causas relevantes. Faleceu no dia 2 de junho de 1946, aos 36 anos, num acidente automobilístico na serra de Petrópolis. Estava indo ao Rio de Janeiro em busca da autorização oficial para o funcionamento do colégio e também iria participar da reunião do Supremo Concílio da IPB, como representante do seu presbitério.

Os sucessores de Henry McCall no campo missionário de Campo Formoso foram os Revs. Chester Carnahan, Alexander Reese, Harold Anderson e Frederick Johnson. Este último viajou extensamente pela região e encontrou-se por duas vezes com o bando do cangaceiro Lampião. Na primeira vez, deu-lhes algum dinheiro e exemplares do Novo Testamento. Pouco antes do segundo encontro, os bandidos, que fugiam da polícia, passaram pela fazenda Quixaba, lá encontrando somente o velho João Francisco da Cunha Regis, que lhes deu o alimento disponível (ovos e rapadura) e ofereceu a Lampião um Novo Testamento e uma Vida de Cristo, de James Stalker. Esses e muitos outros episódios tocantes ou pitorescos foram narrados pelo Rev. Eudaldo Lima em seu livro Os Regis da Quixaba (1985). Outros pastores que trabalharam naquele campo até os anos 80 foram os Revs. Antônio Elias da Silva, Aristeu Oliveira Pires, Celso Dourado Loula, Joel Cavalcanti, Cefas Reinaux de Barros, Jerônimo Rocha, Iraildo Oliveira Gomes e Adel Campos.

Alderi Souza de Matos

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