LIÇÕES SOBRE LIDERANÇA PASTORAL

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Se liderança é uma arte, confesso que muitas vezes me vejo desprovido de qualquer veia artística nessa área. Se o seu exercício for comparado a uma maratona, me sinto arrastando na pista, enquanto outros me ultrapassam rapidamente. Todavia, contrário aos que acreditam que liderança é um “dom nato”, defendo a tese de que o Deus que vocaciona é o mesmo que capacita seus servos para essa atividade. Isso é especialmente verdadeiro em se tratando de liderança pastoral. Parte do processo de capacitação inclui o aprendizado com outros líderes mais experientes e mais capacitados para esse ministério.

Nesse sentido, tenho sido especialmente abençoado pelas ministrações do Dr. Guy Richardson, no módulo de Liderança Pastoral, que faz parte do Programa de Doutorado em Ministério (DMin) na parceria entre o Reformed Theological Seminary (RTS) e o Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ). Guy é um grande amigo e alguém que geralmente tenho o privilégio de traduzir em sala de aula naquela disciplina. Até antes de sua aposentadoria em meados de 2021, ele foi diretor presidente do RTS-Jackson, por quase 22 anos. Mas sua experiência em liderança também incluiu a coordenação do Programa de Aconselhamento nas unidades do RTS-Jackson e RTS-Orlando. Atualmente Guy continua na direção de outras instituições internacionalmente conhecidas, como, por exemplo, a RUF – Reformed University Fellowship. No entanto, as aulas ministradas por ele não se fundamentam apenas em suas experiências pessoais, mas em seus estudos acadêmicos e reflexões sobre esse importante assunto. 

As aulas ministradas por Guy têm me ensinado e desafiado em vários aspectos. Destaco aqui quatro lições nem sempre encontradas em livros sobre liderança pastoral, mas extremamente úteis à dinâmica do pastoreio do rebanho de Cristo.

1. Pastor, você lidera um exército de voluntários

Muitos problemas e tensões em liderança pastoral provém da incompreensão de alguns pastores quanto ao grupo liderado por eles. Lamentavelmente, alguns pastores esperam que suas ovelhas respondam ao trabalho a ser desempenhado da mesma maneira que um assalariado procede na empresa onde foi contratado. Essa expectativa empresarial requer dedicação e comprometimento contratual que, na realidade, não possui fundamento. O assalariado trabalha motivado por um ganho salarial, expectativas de promoções e deveres estabelecidos no contrato de trabalho. O assalariado é responsável por apresentar boa produtividade, número de horas trabalhadas e, muitas vezes, obediência passiva a seus superiores. Nada disso prevalece no universo das atividades voluntárias!

O voluntário não pauta suas atividades por demandas contratuais. No geral, ele é motivado para trabalhar por um ideal a ser atingido. Essa motivação é alimentada pelo benefício resultante de suas ações e o reconhecimento por parte daqueles com quem colabora. Se o voluntário não percebe o valor de seu trabalho, logo desanima e desiste. Assim, a função do líder pastor consiste, em grande medida, em ajudar a manter o interesse do voluntário no trabalho a ser realizado. Voluntários precisam saber que são participantes não apenas de uma tarefa, mas de um projeto maior.

Como líder, o pastor precisa desenvolver paciência e boa compreensão em relação ao seu exército de voluntários. Embora o pastor lidere pessoas com grandes potenciais, essas mesmas pessoas possuem agendas e recursos limitados na execução de suas tarefas. Além disso, ele necessita aprender a motivar pelo exemplo e empolgação com o trabalho a ser realizado, nunca se esquecendo de ser um encorajador de seus liderados.

2. Gentileza é mais importante em liderança do que imaginamos. Muito mais!

Infelizmente alguns líderes, inclusive cristãos, se esquecem de praticar gentileza e generosidade em relação aos seus liderados. A mentalidade de celebridade do líder pode levá-lo a exigir que outros sejam gentis com ele, enquanto desconsidera seu dever em relação aos outros. Isso já parece tão comum na sociedade que algumas pessoas até se surpreendem quando notam gentileza em seus líderes. Mas no contexto da igreja a gentileza deve sempre ser uma norma, principalmente na liderança pastoral.

Algo que o pastor precisa sempre se lembrar é “as pessoas não se interessam pelo quanto sabemos até que saibam, de fato, o quanto nos interessamos”. Em suas aulas, Guy Richardson normalmente lembra seus alunos que nosso interesse pelas pessoas é mais efetivamente comunicado nas expressões de generosidade e gentileza com elas. Algumas de suas sugestões para a prática nesse sentido incluem: lembrança de datas de aniversário de membros do rebanho, o envio de mensagens de encorajamento a pessoas em situações difíceis, visitação de enfermos e enlutados, celebração de ocasiões especiais, auxílio financeiro quando possível, etc. Essas pequenas ações podem ser extremamente importantes para solidificar a confiança e determinação de alguns em seguirem a liderança do pastor. No geral, as pessoas seguem um déspota por medo, mas alegremente seguem um líder gentil por amor.

3. As pessoas que parecem menos importantes são, de fato, mais valiosas do que consideramos

Em 1974, Francis Schaeffer publicou uma série de dezesseis sermões sob o título: No little people [Não há pessoas pequenas]. Nessa obra ele esclarece que a perspectiva bíblica sobre as pessoas é muito diferente da cultura ao redor. Schaeffer lembra os leitores de seu livro que: “Não há pessoas pequenas aos olhos de Deus”. Todavia, diferente de Schaeffer, vários líderes tentam minimizar a importância de seus liderados, tratando-os quase como se eles fossem “descartáveis”. O líder dedicado, porém, notará que aqueles que parecem menos importantes são extremamente valiosos. Uma frase que Guy sempre repete em suas aulas é que “quanto mais elevado o cargo e função desempenhamos, mais dependentes somos dos que estão sob nosso cuidado e liderança”.

O pastor sábio procurará atentar para as pessoas que parecem menos importantes em seu rebanho. Por exemplo, ele prestará atenção e interesse especial pelas crianças, chamando-as pelo nome e cumprimentando-as sempre que se encontra com elas. O próprio Jesus ensinou que devemos atentar para os pequeninos (cf. Lucas 18.15). Também, o pastor poderá atentar para os menos favorecidos em seu rebanho e receber a esses com o mesmo entusiasmo e alegria com os quais ele recebe os mais abastados. Cada pessoa é importante para Deus, para o rebanho e para o sucesso do trabalho do pastor, inclusive aqueles que parecem menos importantes. O pastor deve “velar” pela alma de todos, pois ele prestará contas a Deus por cada ovelha de seu rebanho (cf. Hebreus 13.17).

4. O líder não é avaliado apenas pelo que ele faz, mas também pelo que deixa de fazer

Normalmente estamos conscientes que seremos avaliados pelas nossas palavras e ações. Isso faz com que sejamos cuidadosos com aquilo que falamos e fazemos. Mas as pessoas sob nossa liderança também nos julgam pelo que deixamos de fazer, seja isso positivo ou negativo. O melhor nesse caso é que elas percebam as coisas negativas que deixamos de fazer, pois, isso reforça nosso comprometimento com o progresso de cada uma delas.

As pessoas notam como o pastor trata suas ovelhas, especialmente se ele recusa cometer alguns erros comuns de outros líderes. Por exemplo, se ele evita tratar as pessoas de maneira pejorativa, se ele não trata seus liderados com opressão e imposições, se ele luta para não ser um peso para o seu rebanho, se ele luta para não agir como um dominador das ovelhas, mas procura liderar pelo bom exemplo (cf. 1Pedro 5.1-5), etc. É necessário lembrar que as pessoas comentam não apenas os defeitos de seus líderes, mas também seus esforços em deixar de praticar alguns “vícios da liderança”. Quando evitamos esses defeitos comuns na área da liderança, facilitamos para que as pessoas se submetam à nossa direção. Por isso, o líder pastor deve estar atento não apenas em “fazer o que é certo”, mas também em “evitar o que é errado”. Isso é especialmente verdadeiro na área dos relacionamentos.

Eu espero continuar aprendendo outras lições de liderança pastoral com meus amigos e pessoas que o Senhor providencialmente coloca ao meu redor. Também espero não me esquecer desses pontos mencionados acima, pois até o apóstolo Pedro escreveu que nossa mente esclarecida precisa ser lembrada devido ao nosso esquecimento. Contudo, também espero que essas lições por mim aprendidas sejam úteis para ajudar outros pastores amigos que desejam crescer nessa área. 

Rev. Valdeci Santos

Fonte: Portal IPB https://www.ipb.org.br/conteudos_detalhe?conteudo=436

RETIRO IP SEMEAR 2023

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