OS LÍDERES E O POVO

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Juízes, Reis, Sacerdotes e Pessoas do Povo

Deuteronômio 16:18-18:8; 26:1-19

Ao prosseguir em sua preparação da nova geração para entrar na Terra Prometida, Moisés não apenas os instruiu sobre sua história passada e suas obrigações quanto à adoração, como também lhes explicou o tipo de governo que Deus desejava que organizassem. Quando seus antepassados estavam no Egito, os hebreus possuíam uma organização mínima constituída de anciãos (Êx 3:18; 4:29-31), e durante a jornada pelo deserto, Moisés tinha oficiais das tribos que o ajudavam na resolução dos problemas que o povo trazia até eles (Êx 18:1 3ss). Cada tribo também tinha um líder (Nm 1:5-16; 7:10-83), e havia setenta anciãos que assistiam Moisés na supervisão espiritual do povo (Nm 11 ;1 Oss).

Essa organização básica era adequada para governar um povo nômade que seguia um líder talentoso, mas não seria suficiente quando a nação se mudasse para a Terra Prometida. Em primeiro lugar, Moisés não estaria mais com eles para transmitir-lhes as mensagens que recebia diretamente do Senhor. Além disso, cada uma das doze tribos estaria vivendo em seus respectivos territórios, e Rúben, Gade e Manassés estariam do outro lado do rio Jordão. De que modo iriam lidar com as diferenças tribais? Quem protegeria o povo e executaria as leis de Deus? O Senhor, em sua graça, deu-lhes o tipo de governo que supriria suas necessidades.

Com frequência, os cristãos subestimam a importância do governo para a paz, segurança e progresso da sociedade. Mesmo com todos os defeitos do governo humano, sem ele a sociedade se desintegraria, e nenhuma nação poderia progredir nem se defender

adequadamente. “As autoridades que existem foram por ele [Deus] instituídas” (Rm 13:1). Isso não significa que Deus seja responsável pela nomeação ou eleição de cada governante individual ou das decisões que os políticos tomam uma vez que assumem seus cargos. Significa, sim, que a autoridade para governar vem de Deus e que aqueles que servem em cargos públicos são ministros do Senhor e prestam contas a ele (Rm 13:4). “Tudo, porém, seja feito com ordem e decência” (1 Co 14:40). Esse é um princípio que se aplica não apenas ao culto na igreja, mas também ao serviço daqueles que ocupam cargos públicos. O povo de Deus recebeu a ordem de orar pelas autoridades (1 Tm 2:1-6), mas muitas vezes somos culpados de criticá-las em vez de interceder por elas.

1 . JUÍZES COMPETENTES (Dt 16:18-17:13) A repetição do termo “cidades” (16:5, 11, 14, 18; 17:2, 5 [“portas”], 8) indica que o conselho local da cidade era a unidade básica de governo em Israel. Esse conselho era constituído de juízes e de oficiais que, juntamente com os anciãos, tratavam dos negócios nas portas da cidade (Rt 4:1-12). É provável que os juízes e oficiais fossem nomeados ou eleitos pelos cidadãos do sexo masculino que tivessem terras, mas não temos mais detalhes. A palavra traduzida por “oficiais” significa “escrivãos, secretários” e refere-se aos homens que mantinham os registros oficiais e genealogias, que serviam como conselheiros dos juízes e que executavam suas decisões. Deus era o Legislador supremo da terra, pois foi ele quem deu as leis; os juízes locais formavam o poder judiciário do governo, e seus oficiais constituíam o poder executivo.

Caráter piedoso (w. 19, 20). O mais importante sobre os juízes e oficiais era que fossem homens de caráter, pois somente homens justos poderiam julgar com justiça. Os juízes não deveriam “torcer a justiça” nem fazer “acepção de pessoas”, o que, numa tradução literal do hebraico, significa “considerar a aparência”. O importante era determinar o que o acusado havia feito e não entrar em todos os detalhes da vida dele. O Senhor advertiu os juízes para que não favorecessem os amigos absolvendo os culpados, reduzindo suas sentenças ou adulterando o processo legal, assim como não deveriam aceitar subornos. A justiça, normalmente, é retratada como uma mulher de olhos vendados segurando uma balança. “Não é bom ser parcial com o perverso, para torcer o direito contra os justos” (Pv 18:5).

A decisão dos juízes não apenas afetava os indivíduos envolvidos no julgamento, mas também a nação como um todo. Se os juizes soltassem o perverso à custa do inocente, a terra seria contaminada, e Deus acabaria tirando a nação de lá. Infelizmente, foi isso o que aconteceu durante os anos que antecederam a queda de Israel e Judá. Os tribunais tornaram-se corruptos, permitindo que os ricos roubassem dos pobres e necessitados, e não demorou para que os ricos se tornassem latifundiários e controlassem a economia. Pelo fato de os líderes não obedecerem às leis sobre o ano sabático e sobre o ano do jubileu, a economia desequilibrou-se, e a terra foi tirada de seus verdadeiros donos. Deus não podia permitir uma desobediência tão flagrante de sua lei, de modo que castigou seu povo severamente ao enviá-lo para o cativeiro.

A liderança da igreja local deve ser dada somente àqueles que são qualificados (At 6:1-7; 1 Tm 3; Tt 1:5-9). O Dr. Lee Roberson tem toda razão quando diz: “A ascensão e a queda estão nas mãos da liderança”. Como é triste quando as igrejas escolhem pessoas inadequadas e inexperientes para “preencher” cargos em vez de colocar esses cargos a serviço da igreja e para a glória de Deus (1 Tm 3:10). Na liderança da igreja local, o caráter espiritual é muito mais importante do que a popularidade, a personalidade, o talento ou a ocupação da pessoa.

Devoção ao Senhor (16:21 – 17:7). A idolatria era o grande inimigo da vida espiritual de Israel como nação, e era preciso que os juízes estivessem atentos para detectá-la e que fossem corajosos o suficiente para tratar dela. “Plantar qualquer árvore” é uma referência ao fato de que certas áreas arborizadas eram

dedicadas à adoração de Aserá, a consorte de Baal, e dentre os símbolos do casal estavam os postes-ídolos, que representavam o órgão masculino. Observe que os idólatras procuravam colocar seu lugar de adoração o mais próximo possível do altar de Deus (Dt 16:21; “junto ao altar”). Os idólatras desejavam incentivar o povo a adorar tanto Jeová quanto Aserá, e a deusa acabaria sendo preferida. Se os juizes fossem devotos ao Senhor, investigariam cuidadosamente tais práticas, descobririam os fatos, condenariam os culpados e removeriam os ídolos da terra. Era preciso que colocassem Jeová em primeiro lugar.

Nunca é demais enfatizar quanto a religião das nações cananeias era indescritivelmente obscena e misturava superstição cega com imoralidade repulsiva. A própria natureza humana levava os israelitas a se sentirem atraídos pelos deuses que podiam ver e pelas cerimônias que satisfaziam seus desejos sensuais. Isso explica por que Deus ordenou que os israelitas eliminassem da terra todo e qualquer vestígio da religião cananeia (Dt 7:1-11): ele sabia que, apesar das leis santas e das advertências divinas, o coração humano tem pendor para o mal.

A sabedoria de Deus (17:8-13). Muitas vezes, os juízes e tribunais locais teriam de julgar casos complicados, confusos e difíceis demais para eles, casos envolvendo matanças, demandas, litígios e vários tipos de violência. Para auxiliar os oficiais locais, o Senhor instituiria uma “corte” central em seu santuário, na qual sacerdotes e levitas compartilhariam sua sabedoria e explicariam a lei de Deus. Em Israel, a lei de Deus era a lei nacional, e os mais indicados para interpretar e aplicar a lei eram os sacerdotes e levitas.

Essa “corte do santuário” não era um tribunal superior para recorrer de sentenças nem um comitê deliberativo cujas decisões podiam ser aceitas ou rejeitadas. Era um tribunal que julgava os casos com grande cautela e cujas decisões eram peremptórias e definitivas. Qualquer um que desrespeitasse as autoridades dos tribunais locais ou suas decisões, na verdade, estaria desrespeitando Deus e sua lei. Esses rebeldes eram culpados de crime capital e estavam sujeitos à pena de morte. Deus não aceitaria cidadãos rebeldes em sua nação nem permitiria que as pessoas resistissem presunçosamente à sua lei. De acordo com a lei, não havia sacrifício para quem cometesse pecados atrevida e deliberadamente (Nm 15:30-36).

Quando Woordrow Wilson era presidente dos Estados Unidos, disse: “Há um bocado de problemas diante do povo norte-americano e diante de mim como presidente, mas espero encontrar a solução para esses problemas de modo diretamente proporcional à minha fidelidade em estudar a Palavra de Deus”. Nas palavras do estadista Daniel Webster: “Se formos fiéis aos princípios ensinados na Bíblia, nosso país continuará prosperando, mas, se em nossa prosperidade nos esquecermos das instruções e da autoridade da Palavra, é impossível dizer quão súbita será a catástrofe que sobrevirá e que sepultará nossa glória em profunda obscuridade”. Tendo em vista que vivemos numa sociedade democrática pluralista, não podemos esperar que o governo faça da Bíblia seu guia oficial, mas seria de grande ajuda à nação se igrejas e cristãos confessos se tornassem proficientes na pregação, no ensino e na obediência à Palavra de Deus.

2. REIS PIEDOSOS (Dt 17:14-20) As nações de hoje são governadas por líderes eleitos e não por monarcas hereditários. Na antiguidade, porém, os reis e imperadores governavam as nações e impérios com autoridade despótica. Mas Israel era diferente das outras nações, pois a lei do Senhor era a “argamassa” que unia as doze tribos. Os levitas encontravam-se espalhados por toda a terra, ensinando ao povo a lei de Deus, e os sacerdotes e juízes providenciavam para que a lei fosse cumprida com justiça. Os israelitas deveriam levar seus dízimos e sacrifícios ao santuário central e, três vezes por ano, todos os homens adultos deveriam reunir-se lá para celebrar a bondade do Senhor. Jeová era o Rei de Israel (Êx 15:18; Jz 8:23) e estava “entronizado acima dos querubins” (Sl 80:1) no Santo dos Santos.

O desejo de ter um rei (v. 14). No entanto, o Senhor sabia que chegaria um dia em que, em seu desejo de ser como as outras nações, Israel pediria um rei (1 Sm 8). No tempo dos juízes, a unidade política e espiritual das doze tribos deteriorou-se gravemente (Jz 17:6; 21:25), e Israel viu-se constantemente sob o risco de ser invadido por seus inimigos (1 Sm 9:16; 12:12). Em vez de confiar em Deus, o povo quis um rei e um exército que conduzissem a nação à vitória. Infelizmente, a liderança espiritual em Israel havia decaído, e os filhos de Samuel não estavam andando nos caminhos do Senhor (1 Sm 8:1-5). Contudo, o principal motivo de os israelitas quererem um rei era seu desejo de ser como as outras nações. A distinção de Israel, porém, vinha justamente do fato de não ser igual a nação alguma! Era o povo escolhido de Deus, reino de sacerdotes e propriedade peculiar do Senhor (Êx 19:5, 6). “Eis que é povo que habita só e não será reputado entre as nações” (Nm 23:9).

Imitar o mundo em vez de confiar no Senhor sempre foi uma grande tentação para o povo de Deus, e cada vez que se entregou a ela, o povo sofreu. Em sua jornada pelo deserto, Israel comparava tudo o que acontecia com suas experiências no Egito e em Cades-Barneia; até quiseram escolher um líder e voltar para o Egito (Nm 14:1-5)! Mas a Igreja de hoje é igualmente culpada de incredulidade. Quando os líderes da Igreja adotam métodos e parâmetros do mundo, a Igreja dá um passo gigantesco no sentido de tornar-se como o mundo e de perder suas distinções divinas. Em vez de confiarmos na Palavra de Deus e na oração (At 6:4), dependemos da sabedoria do mundo, imitando seus métodos e satisfazendo seus desejos, dando às pessoas aquilo que elas querem em vez de lhes dar aquilo de que precisam. Os cristãos de hoje deveriam dar ouvidos ao lembrete de Deus para Israel: “Eu sou o S e n h o r , v o s s o Deus, que vos separei dos povos” (Lv 20:24).

Requisitos para um rei (vv. 15-17). O rei não seria eleito pelo povo, mas sim escolhido por Deus. O primeiro rei de Israel foi Saul (1 Sm 9 – 10), mas não fazia parte dos planos de Deus que Saul estabelecesse uma dinastia real em Israel. Saul era da tribo de Benjamim, mas a tribo real era Judá (Gn 49:8-10), e o Messias viria de Judá. Na verdade, Deus deu Saul ao povo como forma de disciplina por terem rejeitado ao Senhor (1 Sm 8:7). O maior juízo de Deus é dar ao seu povo aquilo que ele quer e permitir que sofra as consequências.

O rei não apenas deveria ser escolhido por Deus como também precisava ser de Israel e não um estrangeiro. Sempre que desejasse disciplinar seu povo, o Senhor colocaria sobre Israel um governante estrangeiro e deixaria que o povo sentisse a diferença entre a bondade de Deus e a opressão dos gentios idólatras. O rei de Israel deveria confiar inteiramente no Senhor e não depender de cavalos, nem de exércitos (Dt 17:16), nem de alianças com outras nações realizadas por meio de casamentos (v. 17a) ou de riquezas materiais (v. 17b). O rei Salomão transgrediu essas três prescrições, o que levou tanto o rei quanto a nação a cair em pecado. Salomão casou-se com uma princesa egípcia (1 Rs 3:1), sendo essa a primeira de várias alianças políticas por meio de casamentos com estrangeiras (1 Rs 11:1-6). O rei foi ao Egito não só para buscar uma esposa, mas também para trazer cavalos para seu exército, e construiu em Israel “cidades para os carros” (1 Rs 10:26, 28, 29) que serviam de estábulos para seus cavalos e carros. Quanto à sua riqueza, era fabulosa e incalculável (vv. 14-25, 27).

Sabedoria para o rei (w. 18-20). O requisito mais importante para o rei era o conhecimento pessoal da lei de Deus (vv. 18-20). Deveria escrever para si uma cópia da lei usando a cópia oficial providenciada pelos sacerdotes (Dt 31:9, 24-26), deveria lê-la regularmente e guardar suas palavras (ver a ordem de Deus para Josué em Js 1:7, 8). Esse estudo da lei não iria ajudá-lo apenas a governar o povo com justiça, mas também serviria para revelar-lhe o caráter de Deus e para encorajá-lo a temer ao Senhor e a amá- lo cada vez mais (Pv 4). A submissão do rei a Deus e a sua lei o guardaria de tornar-se arrogante e de abusar da autoridade que o Senhor havia lhe concedido. Se demonstrasse uma atitude de superioridade em relação a seus irmãos, crendo que tinha o privilégio de viver acima da lei de Deus, indicaria que não era apto para dirigir a nação.

3. LÍDERES ESPIRITUAIS FIÉIS (Dt 18:1-8) A Igreja de Jesus Cristo é um sacerdócio (1 Pe 2:5, 9), mas a nação de Israel tinha um sacerdócio. Todos os sacerdotes e levitas eram descendentes de Levi, o terceiro filho de Jacó e Lia. Levi tinha três filhos – Gérson, Coate e Merari, sendo que Arão e Moisés eram da família de Coate (Êx 6:16-25). Somente os descendentes de Arão eram chamados de “sacerdotes” e tinham o direito de servir no santuário propriamente dito. Os levitas, descendentes de Gérson e de Merari, assistiam os sacerdotes em diversos ministérios relacionados ao altar e ao santuário. Os sacerdotes e levitas não receberam herança na terra de Israel (Dt 10:8, 9; 12:12, 18, 19) e viviam dos dízimos, ofertas e sacrifícios levados ao santuário.

Os sacerdotes (w. 3-5). Os sacerdotes deveriam receber partes específicas dos sacrifícios, com exceção dos holocaustos. Queimavam um punhado da oferta de manjares no altar e ficavam com o resto para si, e várias partes dos sacrifícios animais eram dadas a eles como sua porção devida (Lv 6:8 – 7:38). Também recebiam as primícias dos grãos, do óleo, do vinho e da lã. Essa prática do Antigo Testamento nos remete ao ministério do Novo Testamento. “Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira o seu sustento? Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho” (1 Co 9:13, 14). A ordem do Senhor encontra-se em Lucas 10:7 e é citada em 1 Timóteo 5:18.

Se o povo não sustentasse os sacerdotes conforme Deus havia ordenado, então os sacerdotes teriam de buscar seu sustento em outro lugar, e isso os afastaria do ministério no santuário. Mas só os sacerdotes podiam oferecer sacrifícios, cuidar das lâmpadas e da mesa do Senhor com o pão da proposição e queimar incenso no altar de ouro. Sem a presença dos sacerdotes, o ministério no santuário seria interrompido, e o povo não teria intercessores nem auxílio espiritual.

Os levitas (w. 6-8). Os levitas viviam em quarenta e oito cidades espalhadas por toda a terra de Israel (Js 21). Supomos que houvesse uma escala definida para gerir o serviço no santuário, como era o caso no tempo de Davi (1 Cr 23 – 26), sendo que cada levita recebia uma tarefa e um horário. Os sacerdotes e levitas podiam comprar terras se desejassem (1 Rs 2:26; Jr 32:7; At 4:36, 37) e até tirar uma renda dessa terra. Contudo, sua maior preocupação deveria ser ministrar ao Senhor no santuário e ajudar o povo a conhecer a Deus e a obedecer à Palavra. Se um levita comprasse ou arrendasse sua propriedade e servisse no santuário por amor ao Senhor e à casa de Deus, teria permissão de ministrar ali e de tomar parte nas ofertas trazidas pelo povo. O fato de ter dinheiro por haver arrendado ou vendido alguma propriedade não mudava esse princípio. No tempo de Neemias, o povo não levou seus dízimos e ofertas fielmente ao templo, e alguns dos levitas tiveram de voltar para suas terras a fim de se sustentar (Ne 13:10-14). Neemias instou o povo a obedecer à Palavra e a sustentar seus líderes espirituais, e os israelitas levaram seus dízimos e ofertas para serem distribuídos entre os levitas. E triste que cristãos professos deixem de sustentar sua igreja por não dar fielmente seus dízimos e ofertas e, ainda assim, esperam que a igreja os ajude quando têm alguma necessidade.

4. PESSOAS OBEDIENTES (Dt 26:1 -19) Não basta uma nação ter líderes piedosos e competentes; é preciso que tenha também cidadãos piedosos que obedeçam à lei do Senhor. Confúcio dizia: “A força de uma nação vem da integridade de seus lares”. No entanto, lares são constituídos por indivíduos, de modo que é a força individual que ajuda a fazer de um lar aquilo que ele deve ser. Nas palavras de Daniel Webster: “Aquilo que torna os homens bons cristãos torna-os bons cidadãos”. As três confissões públicas registradas nesse capítulo nos ajudam a entender que tipo de cidadãos devemos ser como seguidores de Jesus Cristo.

Confissão da bondade de Deus (w. 1-11). Essa cerimônia era realizada na primeira vez que qualquer israelita levasse suas primícias ao Senhor. Não deve ser confundida com a oferta anual das primícias (Dt 16:4; Êx 23:19; 34:26; Lv 23:10-17; Nm 15:18- 20; 18:12, 13). A cerimônia especial não era apenas uma confissão da bondade de Deus para com Israel e para com o adorador, mas também uma declaração de que aquele ofertante havia se apropriado de sua herança na terra. Ele cultivara a terra e recebera uma colheita, portanto levava as primícias e 0 que tinha de melhor para dar ao Senhor. O cesto com os frutos perto do altar era testemunho da fidelidade do Senhor para com seu povo. A cerimônia toda era a versão do Antigo Testamento daquilo que é dito em Mateus 6:33.

A confissão começa com a entrada de israel na terra de Canaã (Dt 26:3), o que lembraria ao adorador o milagre da travessia do Jordão (Js 3). O Senhor, que abriu o mar Vermelho para que a nação deixasse o Egito, também abriu o rio Jordão, para que Israel pudesse entrar na terra e apropriar-se de sua herança. “E dali nos tirou, para nos levar” (Dt 6:23). O único motivo pelo qual os israelitas não entraram na terra antes foi a rebelião da geração mais velha em Cades-Barneia (Nm 1 3 – 14). O adorador era lembrado de que o segredo do sucesso de Israel era a fé nas promessas de Deus. Anos depois, Josué diria: “Nenhuma promessa falhou de todas as boas palavras que o S e n h o r falara à casa de Israel; tudo se cumpriu” (Js 21:45; ver 23:14; 1 Rs 8:56).

Em seguida, o adorador falaria sobre Jacó, o pai das doze tribos de Israel (Dt 26:5), que havia deixado seu lar e ido para Harã, na região Noroeste da Mesopotâmia (Os 12:12; Gn 25:20), para encontrar uma esposa. Depois de vinte anos na casa de seu sogro, Labão, em obediência a Deus, Jacó voltou a sua própria terra e assentou-se lá com seus doze filhos e suas famílias. De fato, Jacó havia sido um “fugitivo” e “peregrino” durante todos aqueles anos, mas o Senhor o havia guardado e abençoado. Os doze filhos de Jacó viriam a ser os fundadores das doze

tribos de Israel, e por intermédio de Israel Deus abençoaria o mundo todo (Gn 12:1-3).

Como Deus conseguiu transformar a família de um homem em uma grande nação? Levando-os para o Egito, onde passaram pela “fornalha de fogo” do sofrimento (Dt 26:5-7; 4:20; 1 Rs 8:51; Gn 46). Setenta pessoas viajaram para o Egito, onde José havia preparado um lar para elas e, anos depois, na noite de Páscoa, é provável que houvesse dois milhões de hebreus deixando o Egito em marcha triunfal. Quanto mais o inimigo perseguia os hebreus, mais eles se multiplicavam (Êx 1). Muitas vezes, o sofrimento e as provações são instrumentos de Deus para trazer bênçãos para seu povo, mesmo que durante essas tribulações talvez não sejamos capazes de compreender esse propósito. Quanto mais o inimigo perseguia a Igreja primitiva, mais os cristãos se dispersavam e se multiplicavam (At 5:41 – 6:1; 8:1-4).

A confissão não faz qualquer menção da murmuração de Israel em sua jornada nem de seu fracasso em Cades-Barneia. Trata-se de uma confissão de fé e não de incredulidade. “E o S e n h o r nos tirou do Egito […] e nos trouxe a este lugar e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel” (Dt 26:8, 9). O homem chama Canaã de “terra que mana leite e mel”, o mesmo nome que Deus usou com frequência para a terra prometida. Deus deu a seu povo um lugar maravilhoso, que supriria todas as suas necessidades. Nos anos em que Israel se rebelou e ficou vagando pelo deserto, alguns israelitas chamaram o Egito de “terra que mana leite e mel” (Nm 16:13). É triste quando as pessoas são tão materialistas a ponto de as coisas do mundo se tornarem mais convidativas que as coisas do Senhor.

Em resposta à bondade e à graça do Senhor, o adorador entregava a Deus as primícias e os melhores frutos de seu trabalho, pois não teria havido colheita se não fosse pela bênção do Senhor. Porém, ao apresentar as primícias, na verdade o adorador estava entregando toda colheita ao Senhor. A verdadeira mordomia consiste em dar a Deus aquilo que pertence a ele como reconhecimento de que tudo o que temos é dele. Então, usamos o que resta com sabedoria e para a glória do Senhor. Levar 10% ao Senhor e desperdiçar os outros 90% não é mordomia, é insensatez.

O Senhor “tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento” (1 Tm 6:17), o que explica por que Moisés admoestou os israelitas a se regozijar com todas as coisas boas que o Senhor lhes dava (Dt 26:11). Enquanto estavam no santuário, podiam levar uma oferta de ação de graças ao Senhor e desfrutar de um banquete de coisas boas, tudo para a glória de Deus. Contudo, observe a menção feita aos levitas e ao estrangeiro, aqueles com os quais precisamos compartilhar as dádivas do Senhor (Dt 12:12, 18; 16:11, 14). Isso nos leva à segunda confissão.

Confissão de honestidade e de generosidade (vv. 12-15). Trata-se, aqui, de uma cena que se desenrolaria dois anos depois, quando os israelitas deveriam levar o dízimo adicional aos oficiais locais (Dt 14:28, 29). A cerimônia anterior ocorreria apenas uma vez, depois da primeira colheita na Terra Prometida, mas esta cerimônia seria repetida a cada três anos. O sétimo ano seria o ano sabático, e, então, o ciclo começaria novamente. Essa confissão equivalia a uma renovação sucinta da aliança entre Deus e Israel realizada no Sinai, com a promessa do povo de obedecer ao Senhor e a promessa do Senhor de abençoar a obediência dos israelitas.

O dízimo do terceiro ano ficava nas cidades e era usado localmente para alimentar os levitas, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas. Ao entregar esse dízimo, o adorador deveria confessar ao Senhor que havia sido honesto ao separá-lo e que o estava empregando da maneira como o Senhor havia ordenado. Esse dízimo não deveria ser usado para fins pessoais, muito menos pecaminosos. Haveria o cuidado de não contaminá-lo tocando-o enquanto estivesse imundo por causa de morte na família. Em outras palavras, a separação do dízimo para outros era um procedimento sério a ser realizado com dignidade e obediência. A cerimônia terminaria com a oração de Deuteronômio 26:15, pedindo a Deus que abençoasse a nação toda e não apenas o adorador como indivíduo.

Tanto a primeira quanto a segunda confissões expressam apreciação pela terra que “mana leite e mel” (vv. 9, 15). É bom quando o povo de Deus aprecia todas as dádivas do Senhor. Durante os quarenta anos vagando pelo deserto, a geração mais velha havia desejado com frequência voltar para o Egito e desfrutar a comida de lá, mas essa fixação pelo passado colocou-os em apuros. Em se tratando das circunstâncias da vida, todos nós precisamos seguir o exemplo de Paulo: “Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4:11). Uma das melhores maneiras de aprender a ter contentamento é dividir com outros as bênçãos que Deus nos dá.

Confissão de obediência (w. 16-19). As duas primeiras confissões voltavam-se para o futuro, quando Israel estaria assentado em sua terra fazendo as colheitas. Essa confissão nos leva de volta às campinas de Moabe, onde Moisés estava preparando a geração mais jovem para entrar na terra. Moisés usou o termo “hoje” (vv. 16-18) várias vezes ao falar ao povo (Dt 2:25; 4:26, 39; 6:6; 7:11; 8:1, 18; 10:13; etc.). Sem dúvida, foi uma ocasião solene em que Moisés reiterou a lei e recapitulou a história de sua nação. O futuro de Israel dependia de o povo receber a Palavra de Deus, compreendê-la e lhe obedecer, e Moisés a estava compartilhando com eles.

O perigo constante era que o povo não recebesse a Palavra de Deus em seu coração, mas apenas a ouvisse e esquecesse. Como os judeus do tempo de Jesus, tinham ouvidos, mas não podiam ouvir (Mt 13:1315). O mero conhecimento superficial da Palavra não é suficiente. A fim de que a Palavra de Deus nos alimente e transforme para sermos abençoados por Deus (Sl 1:1-3), devemos nos dedicar a ela de corpo e alma. Deus havia tomado Israel para ser seu povo e havia prometido ábençoá-lo se lhe obedecesse (Dt 26:18), e Israel havia declarado que Jeová era seu Deus e que iria lhe obedecer (v. 17). Sem dúvida, Deus iria cumprir suas promessas, mas e quanto a Israel?

Deus tinha grandes coisas planejadas para Israel, assim como tem grandes coisas planejadas para cada um de seus filhos (Ef 2:10; 1 Co 2-.6-10). Se os israelitas mantivessem suas promessas da aliança com o Senhor, ele os abençoaria e faria deles uma bênção para outros, mas se eles lhe desobedecessem, Deus teria de discipliná-los. “Mas o meu povo não me quis escutar a voz e Israel não me atendeu. Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos. Ah! se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos! Eu, de pronto lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários […] Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha” (Sl 81:11-14, 16).

Deus é fiel para conosco, mas quanta coisa perdemos quando não somos fiéis para com ele!

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