WILLIAM WALLACE BARKLEY – MISSIONÁRIO PIONEIRO E EXÍMIO EDITOR (1929-2020)

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Em 2012 tive o privilégio de visitar, juntamente com alguns colegas, uma distante aldeia do povo Nadëb. Saímos de São Gabriel da Cachoeira por volta das 4 horas da manhã numa voadeira, paramos para reabastecer na pequena cidade de Santa Isabel do Rio Negro e adentramos então o Rio Uneiuxi. Não menos que 8 horas de viagem fluvial a partir dali, sendo as últimas 6 horas de navegação sem ver uma aldeia sequer ou mesmo uma alma viva. À luz da lua cheia, já passava das 21 horas quando finalmente chegamos à aldeia conhecida na região como “Roçado do Biu”. No dia seguinte seria entregue o Novo Testamento traduzido para a língua daquele povo, numa das mais lindas cerimônias tribais que já vi. Mas até aquele dia eu nem imaginava a razão daquela aldeia ser chamada Roçado “do Biu”.

Era o final da década de 1940, quando na Irlanda do Norte um jovem vocacionado entendia seu chamado ministerial. Ouviu missionários que vinham de várias partes do mundo, mas um lhe despertou interesse especial. Ele descrevia a morte de três missionários enviados aos indígenas do Brasil. Fred Roberts, Fred Dawson e Fred Wright eram da UMF (Unevangelized Fields Mission), uma zelosa Missão originada na WEC Internacional e que no Brasil se tornou conhecida como MICEB (Missão Cristã Evangélica do Brasil). Os “três Freds”, como ficaram conhecidos, foram martirizados em 1935 entre os Kayapó. História drástica, mas usada por Deus para direcionar aquele jovem vocacionado que a ouvia. Seu nome era William Wallace Barkley, que não perdeu tempo e foi se preparar na Inglaterra, estudando no London Bible College (1951-1954), quando frequentou a Westminster Chapel, na época pastoreada por ninguém menos que Martin Lloyd-Jones.

Em outubro de 1958 William Barkley chegava ao Brasil, se dirigiu para a Amazônia, subiu o Rio Negro, e já no ano seguinte foi usado por Deus para os primeiros contatos missionários com o povo Nadëb, até então formado por pequenos clãs caçadores-coletores nômades que transitavam o coração da Floresta Amazônica no interflúvio dos rios Uneiuxi, afluente do Negro, e Japurá, afluente do Solimões. Estavam ameaçados de extinção por causa de uma epidemia de sarampo. William subiu o rio com eles, reuniu várias famílias e lhes ajudou a fazer um “roçado”, introduzindo uma agricultura incipiente. A roça veio a se tornar uma aldeia, por isso o nome “Roçado”. Como era carinhosamente conhecido como “Bill”, diminutivo de William, chamaram a aldeia de “Roçado do Biu (Bill)”.

Sua participação nessa frente missionária fui curta, mas significativa. Não podendo dar continuidade, a SIL (Sociedade Internacional de Linguística) enviou Joseph e Lilian Boot para um ministério de longo prazo e estes sim se fixaram naquela aldeia onde serviram por dez anos (1965-1975); na sequência, a jovem irlandesa Helen Weir ali serviu por 21 anos; por fim, Rodolfo e Beatrice Senn estiveram entre eles a partir de 1996, quando viram a igreja nascer por volta do ano 2000, entregaram o Novo Testamento em sua língua e partiram dali em 2012. Missionários da MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil) e da WEC Internacional também serviram entre os Nadëb em outras aldeias.

Bill Barkley, agora com sua adorável esposa Mary, seguiu seu caminho mas investindo na difusão de literatura reformada em português. Entre 1963 e 1974 serviu em Manaus com a Livraria do Lar Cristão, quando mudou-se para São Paulo e fundou a Biblioteca Evangélica do Brasil, a primeira biblioteca pública evangélica do país. E em 1977 fundou a PES (Publicações Evangélicas Selecionadas), agora incorporada à Publicações Shedd. Através da PES publicou dezenas de livros do seu antigo pastor, Martin Lloyd-Jones, e nela serviu até o dia 5 de abril de 2020, quando aos 91 anos de vida bem vivida para a glória de Deus, foi chamado à morada eterna do Senhor.

Homem piedoso e humilde, que evitava holofotes e tudo o queria era “apenas ser útil”. E foi. Foi útil, dentre muitas outras coisas, como um dedicado editor e antes disso como missionário pioneiro entre indígenas. Nos deixou um legado. Sua história nos inspira e desafia a amar mais a Jesus.

Abaixo uma entrevista concedida à Rádio Transmundial em 2017:

Parte 1: https://www.transmundial.com.br/podcasts/bill-barkley-parte-1/

Parte 2: https://www.transmundial.com.br/podcasts/bill-barkley-parte-2/

Breve histórico dos Nadëb do Roçado: https://www.youtube.com/watch?v=Qt0GqwVWPSc

Por Cácio Silva

Fonte: APMT

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