SANTIFICAÇÃO SEM A QUAL NINGUÉM VERÁ AO SENHOR 

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Texto: Hebreus 12.14-16

J. C. Ryle, um Bispo em Liverpool, do século XIX, estava certo: “Precisamos ser santos, porque esse é um supremo fim e propósito pelo qual Cristo veio ao mundo… Jesus é um Salvador completo. Ele não retira, meramente, a culpa do pecado do que crê, ele vai além… rompe o seu poder (1 Pe 1.2; Rm 8.29)”.

Em seu livro A Redescoberta da Santidade, J. I. Packer afirma que O CRENTE DOS DIAS DE HOJE ENXERGA A SANTIDADE COMO ALGO OBSOLETO. Ele cita três evidências diferentes: (1) Não ouvimos mais falar de santidade em pregações e nos livros; (2) Não insistimos que nossos líderes devam ser santos; (3) Não tocamos na necessidade de santidade pessoal em nossa evangelização. Essas observações me soam coerentes.

Santidade evidente é o plano de Deus para seu povo, expresso no Antigo e no Novo Testamentos:

 Tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águia e vos cheguei a mim. Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19.4-6a).

Nos nossos dias o assunto da santidade pessoal tem retrocedido lamentavelmente para o segundo plano. O padrão de vida tem-se tornado dolorosamente baixo em muitos círculos. Tem sido por demais negligenciada a imensa importância de ornar “em todas as coisas, a doutrina de Deus, nosso Salvador” (Tt 2.10), tornando-a bela e atraente mediante nossos hábitos diários e nosso temperamento.

A sã doutrina protestante e evangélica será inútil, se não for acompanhada por uma vida santa. Ou pior do que inútil, será prejudicial. Será desprezada pelos homens sagazes e perspicazes deste mundo como algo irreal e vazio, o que faz com que a religião cristã seja lançada no opróbrio.

Quando olhamos para epístola aos Hebreus podemos ver a Palavra de Deus nos exortando a ter uma vida de santidade, e neste momento eu quero lhe convidar para juntos aprendermos um pouco sobre este assunto tão importante.

1-VOCÊ PRECISA PERCEBER A PECAMINOSIDADE DO PECADO

-O pecado é a transgressão da lei. 1 João 3.4

Aquele que desejar ter pontos de vista corretos sobre a santidade cristã terá de começar examinando o vasto e solene assunto do pecado. Terá de cavar bem fundo, se quiser construir um edifício bem alto. Um equívoco quanto a esse particular é extremamente prejudicial. Conceitos errôneos sobre a santidade geralmente advêm de ideias distorcidas quanto à corrupção humana.

A verdade absoluta é que o correto conhecimento do pecado jaz à raiz de todo o cristianismo salvífico. Sem ele, doutrinas como justificação, conversão e santificação serão apenas “palavras e nomes” que não transmitem qualquer sentido à nossa mente. Portanto, a primeira coisa que Deus faz quando quer tornar alguém em uma nova criatura em Cristo é iluminar-lhe o coração, mostrando-lhe que ele é um pecador culpado.

Se um homem não percebe a natureza perigosa da doença de sua alma, ninguém poderá admirar-se de que ele se contente com remédios falsos ou imperfeitos. Acredito que uma das principais necessidades da igreja, neste nosso século, tem sido e continua sendo um ensino mais claro e completo sobre o pecado.

1. Começarei o assunto fornecendo uma definição de pecado. Naturalmente, todos estamos familiarizados com os termos “pecado” e “pecadores”. Com frequência, dizemos que o “pecado” está no mundo e que os homens cometem “pecados”. Digo, ademais, que “um pecado”, falando mais particularmente, consiste em praticar, dizer, pensar ou imaginar qualquer coisa que não esteja em perfeita conformidade com a mente e a lei de Deus. Em resumo, segundo as Escrituras, “o pecado é a transgressão da lei” (1 Jo 3.4).

Até mesmo um de nossos poetas disse, com toda a verdade: “Um homem pode sorrir, sorrir e ainda ser um vilão”.

As solenes palavras do Mestre, no evangelho de Mateus, também deixam a questão sem sombras de dúvidas. Ali se acha escrito: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber” (Mt 25.41-42). Foi uma declaração profunda e bem pensada do santo arcebispo Usher, pouco antes de sua morte: “Senhor, perdoa-me de todos os meus pecados, sobretudo dos meus pecados de omissão”.

2. Concernente à origem e fonte dessa vasta enfermidade moral chamada “pecado” também me sinto na obrigação de dizer algo. Temo que as ideias de muitos crentes professos quanto a esse particular, são tristemente defeituosas e doentias. Não ouso passar adiante sem um comentário a respeito. Portanto, fixemos em nossa mente que a pecaminosidade de um homem não começa pelo lado de fora e sim pelo lado de dentro. Poderemos ver nela os botões e os germes do engano, do mau temperamento, do egoísmo, da voluntariedade, da obstinação, da cobiça, da inveja, do ciúme, da paixão – tudo o que, se alimentado e deixado à vontade, prolifera com dolorosa rapidez. Quem ensinou essas coisas à criança? Onde as aprendeu? Só a Bíblia pode responder a essas perguntas! Dentre todas as coisas tolas que os pais dizem sobre seus filhos nenhuma é pior do que a declaração comum: “No fundo, meu filho tem um bom coração. Ele não é o que deveria ser; apenas caiu em más companhias.

A primeira causa de todo pecado jaz na corrupção natural do próprio coração da criança e não na escola.

3. No tocante à extensão dessa vasta enfermidade moral do homem, chamada pecado, cuidemos para não errar. A única base segura é aquela dada pelas Escrituras. “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração”; “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto” (Gn 6.5; Jr 17.9). O pecado é um mal que permeia e percorre todas as partes de nossa constituição moral, bem como cada faculdade de nossa mente. A compreensão, os afetos, o poder de raciocínio, a vontade; tudo está, em certa medida, infeccionado pelo pecado.

Em suma, “Desde a planta do pé até à cabeça não há nele cousa sã, senão feridas, contusões e chagas inflamadas” (Is 1.6). O mal pode ser velado sob uma fina cortina de cortesia, polidez, boas maneiras ou decoro exterior; mas jaz profundamente em nossa constituição.

4. Acerca da culpa, da vileza e da ofensa do pecado aos olhos de Deus, minhas palavras serão poucas. Ele é Aquele que lê os pensamentos e os motivos, e não só as ações, e que requer “a verdade no íntimo” (Jó 4.18; 15.15; Sl 51.6). Nós, por outro lado – criaturas pobres e cegas, hoje aqui e amanhã acolá, nascidos no pecado, cercados de pecadores, vivendo em uma constante atmosfera de fraqueza, enfermidade e imperfeição – não podemos formar senão os mais inadequados conceitos sobre a hediondez do pecado.

 Somente quando Cristo vier pela segunda vez, perceberemos realmente a “pecaminosidade do pecado”. Com razão terá dito George Whitefield: “O hino no céu será: Que coisas tem feito Deus!” (Nm 23.23).

5. Resta apenas um ponto a ser considerado sobre o assunto do pecado, o qual não ouso esquecer. Esse ponto é a sua propensão para enganar. Trata-se de algo de capital importância e aventuro-me a pensar que não tem recebido a atenção que merece. O que significam palavras como “precipitado”, “festeiro”, “extravagante”, “inconstante”, “impensado” e “folgado”? Elas demonstram que os homens procuram enganar-se, crendo que o pecado não é tão pecaminoso quanto Deus afirma.

Quanto mais nos avizinhamos do céu, tanto mais somos revestidos de humildade. Em todas as eras da Igreja, se estudarmos as biografias, será encontrada uma verdade: a de que os santos mais eminentes – homens como Bradford, Rutherford e M’Cheyne – sempre foram os mais humildes entre os homens.

Resta-me apenas salientar alguns usos práticos que podemos fazer da completa doutrina do pecado de modo proveitoso para estes nossos dias.

a. Em primeiro lugar, afirmo que o ponto de vista bíblico sobre o pecado é um dos melhores antídotos para aquele tipo vago, nebuloso e indefinido de teologia tão dolorosamente popular nesta nossa época.

 b. Em segundo lugar, o ponto de vista bíblico sobre o pecado é o melhor antídoto para a teologia extravagantemente liberal e permissiva que está tão em voga na nossa época. A tendência do pensamento moderno é rejeitar os dogmas, os credos, bem como toda forma de religião que imponha obrigações.

c. Em terceiro, o correto ponto de vista sobre o pecado é o melhor antídoto para aquele tipo de cristianismo sensitivo, cerimonial e formal que tem varrido a nossa terra como um dilúvio nestes últimos vinte e cinco anos, levando tantos consigo.

d. O próximo ponto: um correto ponto de vista sobre o pecado é o melhor antídoto para as teorias forçadas do perfeccionismo, acerca das quais tanto ouvimos falar nestes últimos tempos.

e. Em último lugar, o ponto de vista bíblico sobre o pecado mostra ser um admirável antídoto para os conceitos inferiores de santidade pessoal que tanto prevalecem nestes últimos dias na Igreja. Sei que esse é um assunto extremamente doloroso e delicado, mas não ouso evitá-lo. Há muito tem sido minha triste convicção, que o padrão de vida diária entre os cristãos professos está baixando cada vez mais.

Temo que amor cristão, delicadeza, bondade, altruísmo, mansidão, gentileza, benignidade, abnegação, zelo pelo bem e separação do mundo são muito menos apreciados hoje em dia do que deveriam ser e do que costumavam ser nos dias dos nossos antepassados.

 Estou convencido de que o primeiro passo para quem quer atingir um elevado padrão de santidade é perceber plenamente a tremenda pecaminosidade do pecado.

 2- A VERDADEIRA SANTIFICAÇÃO É OPERADA PELO ESPÍRITO

Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. João 17.17 Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação. 1 Tessalonicenses 4.3

Esse é um assunto de máxima importância para a nossa alma. Há três coisas que, de acordo com a Bíblia, são absolutamente necessárias para a salvação de todo homem e mulher na cristandade. Essas três coisas são justificação, regeneração e santificação.

Em dias como os nossos, examinar com calma esse assunto, como uma das grandes doutrinas básicas do evangelho, pode ser de grande utilidade para a nossa alma.

1. A NATUREZA DA SANTIFICAÇÃO- A santificação é aquela operação espiritual interna que o Senhor Jesus Cristo realiza em uma pessoa pelo Espírito Santo, quando Ele a chama para ser um crente verdadeiro.

O instrumento mediante o qual o Espírito efetua essa obra geralmente é a Palavra de Deus, embora algumas vezes use as aflições e as visitas providenciais “sem palavra alguma” (1 Pe 3.1).

O beneficiário dessa operação de Cristo, mediante o seu Espírito, é chamado nas Escrituras de homem “santificado”.

O Senhor Jesus realizou tudo quanto é necessário para as almas de seu povo; não somente para livrá-los da culpa do pecado, mediante a sua morte expiatória, mas também para livrá-los do domínio dos seus pecados, conferindo o Espírito Santo aos seus corações; não somente para justificá-los, mas também para santificá-los. Portanto, Ele não é apenas a sua “justiça” mas também é a sua “santificação” (1 Co 1.30).

 Portanto, não hesitarei em apresentar uma série de proposições ou declarações correlacionadas, extraídas das Escrituras, as quais, conforme penso, serão úteis para definir a natureza precisa da santificação.

1. A santificação, pois, é o invariável resultado da união vital com Cristo, que a verdadeira fé confere a um crente: “Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.5). Aquele que tem uma esperança real e viva em Cristo purifica-se a si mesmo, assim como Ele é puro (Tg 2.17-20; Tt 1.1; Gl 5.6; 1 Jo 1.7; 3.3).

2. A santificação, uma vez mais, é o resultado e a consequência inseparável da regeneração. Uma regeneração que permite que um homem viva descuidadamente no pecado ou no mundanismo é uma regeneração inventada por teólogos sem inspiração, mas jamais mencionada nas Escrituras. Resumindo, onde não há santificação, também não há regeneração, e onde não há vida santa, também não há novo nascimento.

3. A santificação, uma vez mais, é a única evidência indiscutível da presença habitadora do Espírito Santo, algo essencial à salvação. “E se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). O selo estampado sobre o povo de Deus, pelo Espírito Santo, é a santificação. Todos quantos realmente “são guiados pelo Espírito de Deus”, esses são “filhos de Deus” (Rm 8.14).

4. Além disso, a santificação é o único sinal seguro da eleição divina. Sem dúvida, os nomes e o número dos eleitos são segredos, os quais Deus, sabiamente, reservou para a sua própria autoridade, não os revelando ao homem.

Por conseguinte, quando o apóstolo Paulo percebeu a “fé” atuante, o “amor” operante e a “esperança” paciente dos crentes de Tessalônica, disse: “reconhecendo, irmãos, amados de Deus, a vossa eleição” (1 Pe 1.2; 2 Ts 2.13; Rm 8.29; Ef 1.4; 1 Ts 1.3-4). Aquele que se orgulha de ser um dos escolhidos de Deus enquanto voluntária e habitualmente vive em pecado; está apenas enganando a si mesmo e proferindo ímpias blasfêmias.

O catecismo da nossa igreja ensina, de forma correta e sábia, que o Espírito Santo “santifica todos os eleitos de Deus”.

5. A santificação, por semelhante modo, é algo que sempre será visto. À semelhança do grande Cabeça da Igreja, de onde ela emana, a santificação não pode ser ocultada. Toda árvore é reconhecida pelo seu próprio fruto (Lc 6.44). Uma pessoa verdadeiramente santificada pode ser tão humilde que nada veja em si mesma, senão fraqueza e defeitos.

Um “santo” em quem coisa alguma pode ser vista, senão mundanismo ou pecado, é uma espécie de monstro que a Bíblia não aprova!

6-A santificação genuína manifesta-se no respeito habitual à lei de Deus, bem como no esforço habitual por viver na obediência a ela como a grande regra de vida.

 A santificação, além disso, é algo pelo qual todo crente é responsável. Ao assim dizer, não quero ser mal entendido. Afirmo, com toda firmeza quanto qualquer outro, que todo homem sobre a terra é responsável diante de Deus e que todos os perdidos ficarão mudos e sem desculpas naquele último dia.

7. A santificação é algo que admite crescimento e graus de intensidade. Um homem pode seguir um passo após o outro em sua santidade, estando muito mais santificado em um período de sua vida do que em outro.

 Em suma, eles “crescem na graça”, conforme o apóstolo Pedro exorta os crentes a fazerem; e conforme diz o apóstolo Paulo, eles continuam “progredindo cada vez mais” na santificação (2 Pe 3.18; 1 Ts 4.1).

 A santificação também é algo que depende em muito do uso diligente dos meios bíblicos. Quando falo em “meios”, tenho em vista a leitura da Bíblia, a oração privada, a frequência regular à adoração pública, o ouvir constante da Palavra de Deus e a participação regular na Ceia do Senhor.

Deus opera através de meios e Ele nunca abençoará uma alma que finja ser tão elevada e espiritual que possa dispensar esses exercícios, como se eles fossem desnecessários.

A santificação, por igual modo, é algo que não impede que um homem experimente intenso conflito espiritual interior. Por conflito entendo aquela luta no íntimo, no coração, entre as naturezas antiga e nova, a carne e o espírito, as quais podem ser encontradas juntas em todo crente (Gl 5.17).

O coração do mais piedoso crente, em seus melhores momentos, é um campo ocupado por duas forças rivais.

            A santificação, em último lugar, é absolutamente necessária para nos treinar e nos preparar para o céu. A maioria dos homens espera chegar ao céu quando morrerem; mas bem poucos, o que é de se temer, preocupam-se em considerar se conseguirão apreciar o céu, se ali chegarem. Teremos de ser santos antes de morrer, se quisermos ser santos quando estivermos na glória.

 Na minha consciência, creio que elas servirão para ajudar as pessoas a terem uma compreensão mais clara sobre a santificação.

3. AS EVIDÊNCIAS VISÍVEIS DA SANTIFICAÇÃO.

Em uma palavra, quais são os sinais visíveis de um homem santificado? O que poderíamos esperar ver nele? Essa é uma área muito ampla e difícil do nosso assunto. Por ser ampla, requer a menção de muitos detalhes que não podem ser plenamente tratados dentro dos limites de uma obra como esta. Por ser difícil, não podemos abordá-la sem ofender a alguns.

A verdadeira santificação, pois, não consiste em conversar sobre assuntos religiosos. Esse é um ponto que jamais deveria ser esquecido por nós. É mister que sejamos santificados não somente “de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1 Jo 3.18).

2. A verdadeira santificação não consiste em sentimentos religiosos passageiros. Novamente, esse é um ponto a respeito do qual se faz grandemente necessária uma certa palavra de cautela. À semelhança dos ouvintes que são comparados ao solo rochoso, eles recebem a Palavra “com alegria” (Mt 13.20).

3. A verdadeira santificação não consiste em formalismo externo ou em devoção exterior. Essa é uma enorme ilusão, embora, infelizmente, seja bastante comum.

4. A santificação não consiste em nos retirarmos de nossas ocupações comuns da vida, renunciando aos nossos deveres sociais. Seguir essa linha de pensamento na busca pela santidade tem servido de armadilha para muitos em cada época. Centenas de eremitas têm se confinado em algum deserto, e milhares de homens e mulheres têm se enclausurado dentro das muralhas dos mosteiros e dos conventos, laborando sob a vã noção de que, ao assim fazerem, poderão escapar do pecado, tornando-se notavelmente santos.

O tipo bíblico do homem santificado não é o homem que se oculta em uma caverna, mas o que glorifica a Deus sendo senhor ou servo, sendo pai ou filho, na família ou nas ruas, no mundo dos negócios ou no comércio. Nosso Senhor mesmo disse em sua última oração: “Não peço que os tires do mundo; e, sim, que os guardes do mal” (Jo 17.15).

 5. A santificação não consiste na casual realização de ações corretas. Antes, é a operação habitual de um novo princípio celestial que atua no íntimo, influenciando toda a conduta diária de uma pessoa, tanto nas grandes quanto nas pequenas coisas.

Um verdadeiro santo, tal como Ezequias, age “de todo o coração” e poderá dizer, juntamente com o salmista: “Por meio dos teus preceitos, consigo entendimento; por isso, detesto todo caminho de falsidade” (2 Cr 31.21; Sl 119.104).

6.A santificação genuína manifesta-se no respeito habitual à lei de Deus, bem como no esforço habitual por viver na obediência a ela como a grande regra de vida. Não existe engano maior do que a suposição de que um crente nada tem a ver com a lei e os dez mandamentos, somente porque ele não pode ser justificado mediante a guarda da lei.

7. A santificação genuína manifesta-se no esforço habitual de fazer a vontade de Cristo, vivendo em conformidade com os seus preceitos práticos.

 Esses preceitos podem ser encontrados dispersos nos quatro evangelhos e, sobretudo, no Sermão do Monte.

 A santificação genuína manifesta-se através do desejo habitual de viver segundo os padrões para as igrejas, estabelecidos pelo apóstolo Paulo em seus escritos. Esses padrões podem ser encontrados nos capítulos finais de quase todas as suas epístolas.

9. A santificação genuína manifesta-se através da atenção habitual às graças divinas ativas que nosso Senhor exemplificou de forma tão bela, especialmente no caso da graça do amor. “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34,35).

A fé salvadora e a graça real da conversão sempre produzirão alguma conformidade com a imagem de Jesus (Cl 3.10).

10. A santificação genuína, em último lugar, manifesta-se por meio da atenção habitual às graças passivas do cristianismo. Quando falo em graças passivas, quero dar a entender aquelas graças que são especialmente demonstradas mediante a submissão à vontade de Deus, quando nos ajudamos e nos toleramos mutuamente. Poucas pessoas, talvez, a menos que já tenham examinado esse ponto, têm ideia do quanto é dito a respeito dessas graças nas páginas do Novo Testamento.

4-A SANTIDADE IMPLICA EM VIDA PRÁTICA

A santificação [santidade], sem a qual ninguém verá o Senhor. Hebreus 12.14

O texto acima esclarece um tema de profunda importância. Trata-se da santidade prática. Ele sugere um questionamento que requer a atenção de todos os cristãos professos, a saber: Somos santos? Veremos o Senhor?

Esta indagação jamais ficará obsoleta. O sábio escritor sagrado nos diz: Há “tempo de chorar, e tempo de rir… tempo de estar calado, e tempo de falar” (Ec 3.4,7). Porém, não há tempo, nem mesmo por um dia, em que o homem não deva ser santo. Somos santos?

Esta pergunta diz respeito aos homens de todas as classes e condições. Alguns são ricos, outros, pobres; alguns eruditos, outros, ignorantes; alguns patrões, outros, empregados. Não obstante, não há classe nem posição social na qual um homem não deva ser santo. Somos santos?

É algo muito solene ouvirmos a Palavra de Deus afirmar: “A santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Mas agora procurarei apresentá-lo de uma maneira mais clara e prática.

1. A NATUREZA DA VERDADEIRA SANTIDADE PRÁTICA

No que consiste, portanto, a santidade prática? Esta é a pergunta difícil de se responder. Não quero dizer com isso que as Escrituras pouco se manifestam sobre o assunto.

a. A santidade é o hábito de ter a mesma mente de Deus à medida que tomamos conhecimento da sua mente, descrita nas Escrituras. É o hábito de concordar com os juízos de Deus, abominando aquilo que Ele abomina, amando aquilo que Ele ama e medindo tudo quanto há neste mundo pelo padrão da sua Palavra. A pessoa mais santa é aquela que em tudo concorda com Deus.

b. Um homem santo se esforçará por evitar todo pecado conhecido, observando cada mandamento revelado. Tal homem sentirá o que Paulo sentiu, ao declarar: “Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus” (Rm 7.22). E também o que Davi sentiu, ao escrever: “Por isso tenho por, em tudo, retos os teus preceitos todos e aborreço todo caminho de falsidade” (Sl 119.128).

c. Um homem santo esforçar-se-á por ser semelhante ao Senhor Jesus Cristo. Não somente viverá a vida de fé em Cristo, extraindo dEle toda a sua paz e força diárias, mas igualmente esforçar-se-á por ter a mesma mentalidade que nEle havia, a fim de ser conforme “à imagem” do Filho (Rm 8.29).

d. Um homem santo seguirá a mansidão, a longanimidade, a gentileza, a paciência, a brandura, o controle sobre a própria língua. Haverá de tolerar muito abuso, de exercer clemência, de deixar passar muita coisa e de ser tardio no falar em defesa dos seus próprios direitos. Vemos um brilhante exemplo disso no comportamento de Davi, quando Simei o amaldiçoou; ou, no exemplo de Moisés, quando Arão e Míriam falaram contra ele (2 Sm 16.10; Nm 12.3).

e. Um homem santo seguirá o autocontrole e a abnegação. Esforçar-se-á por mortificar os desejos do corpo, crucificando a carne com seus afetos e paixões, controlando seus maus desejos, restringindo suas inclinações carnais a fim de que em tempo algum venha a deixá-las em liberdade. Oh, quão importante foi a palavra do Senhor Jesus aos apóstolos: “Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as consequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço” (Lc 21.34).

f. Um homem santo seguirá o amor e a fraternidade. Ele se empenhará por observar a regra áurea de fazer pelos homens aquilo que gostaria que lhe fizessem e de falar conforme gostaria que os homens lhe falassem. Será cheio de afeto por seus irmãos, dando valor aos seus corpos, às suas propriedades, ao seu caráter, aos seus sentimentos, às suas almas.

g. O homem santo seguirá o espírito de misericórdia e benevolência para com o próximo. Não ficará ocioso o dia inteiro. Não se contentará apenas por não estar prejudicando a ninguém, mas procurará fazer o bem. Procurará ser útil em sua época e à sua geração, aliviando, no que for possível, as necessidades espirituais e a miséria humana ao seu redor. Lemos que Dorcas era “notável pelas boas obras e esmolas que fazia”; e Paulo testificou: “Eu de boa vontade me gastarei e ainda me deixarei gastar em prol da vossa alma” (At 9.36 e 2 Co 12.15).

h. O homem santo seguirá a pureza de coração. Temerá toda imundícia e impureza de espírito; ele evitará aquilo que tende por atraí-lo a essas coisas.O homem santo sabe que o seu coração assemelha-se a um pavio e por isso manter-se-á diligentemente afastado das fagulhas da tentação.

i. Um homem santo será caracterizado pelo seu temor a Deus. Não estou pensando no medo aterrorizador de um escravo que só trabalha porque teme ser punido, mas que se mostraria ocioso se soubesse que não seria descoberto. Quão nobre é o exemplo de Neemias a esse respeito! Ele não poderia ser acusado de coisa alguma, se tivesse seguido o exemplo deles. Contudo, ele disse: “Porém, eu assim não fiz, por causa do temor de Deus” (Ne 5.15).

j. O homem santo seguirá a humildade e sua atitude será de considerar os outros superiores a si mesmo. Verá mais maldade em seu próprio coração do que em qualquer outro coração. Compreenderá algo dos sentimentos de Abraão, quando este declarou: “Eis que me atrevo a falar ao Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18.27).

 O consagrado Bradford, fiel mártir de Cristo, algumas vezes encerrava suas cartas com estas palavras: “Um miserável pecador, John Bradford”. O idoso e bom Grimshaw, quando jazia em seu leito de morte, expressou as suas últimas palavras: “Aqui vai um servo inútil”.

 l. Um homem santo seguirá a fidelidade em todos os seus deveres e relações da vida. Ele procurará não somente preencher o seu lugar como fazem os outros que nunca pensam em sua própria alma, mas o fará de maneira ainda melhor, porquanto é impulsionado por motivos superiores e pode servir de maior ajuda do que eles. Nunca deveríamos nos esquecer daquelas palavras de Paulo: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Cl 3.23

m. Em último lugar, e não menos importante, um homem santo se caracterizará por uma mentalidade espiritual. Ele firma os seus afetos inteiramente nas realidades celestiais ao mesmo tempo em que não se envolve com as coisas deste mundo. Participará dos sentimentos de Davi, quando expressou: “A minha alma apega-se a ti”; “O SENHOR é a minha porção” (Sl 63.8 e 119.57). Tenho procurado delinear um esboço de santidade, ou seja, o caráter almejado por aqueles que são chamados “santos”, os traços principais de um homem santo.

A santificação sempre será uma obra progressiva. As graças manifestadas por alguns crentes ainda estão na “erva”, as de outros na “espiga” e somente as de alguns estão no “grão cheio”. Tudo deve ter um começo. Jamais deveríamos desprezar “o dia dos humildes começos” (Zc 4.10). A santidade, mesmo quando atinge o ponto culminante neste mundo, é apenas uma obra imperfeita.

Owen escreveu, com toda a razão: “Não posso entender como um homem pode ser um crente verdadeiro, se para ele o pecado não é a maior carga, a maior tristeza e o maior motivo de perturbação”. Essas são as características fundamentais da santidade prática. Examinemos a nós mesmos para verificar se estamos familiarizados com elas ou não. Submetamo-nos à prova.

2. A IMPORTÂNCIA DA SANTIDADE PRÁTICA

Deixe-me tentar mostrar algumas razões pelas quais a santidade prática é tão importante. Pode a santidade salvar-nos? Pode a santidade eliminar o pecado, encobrir a iniquidade, apresentar satisfação pela transgressão, pagar a nossa dívida diante de Deus? Não, de forma alguma. Deus me livre de afirmar tal coisa. A santidade nunca poderá fazer qualquer dessas coisas. Os melhores santos sempre foram “servos inúteis”.

 Nesse caso, por qual motivo a santidade é tão importante? Por que disse o escritor sagrado: “A santificação [santidade], sem a qual ninguém verá o Senhor”? Permita-me expor algumas razões que explicam isso.

a. Acima de tudo, devemos ser santos porque a voz de Deus, nas Escrituras Sagradas, assim nos ordena claramente. Diz o Senhor Jesus ao seu povo: “Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20); “Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5.48).

b. Devemos ser santos porque essa é a grandiosa finalidade e propósito daquilo que Cristo veio fazer no mundo. Paulo escreveu aos coríntios: “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5.15). E aos efésios, escreveu: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse” (Ef 5.25,26

c. Devemos ser santos, porque essa é a única evidência segura de que possuímos fé salvadora em nosso Senhor Jesus Cristo. O décimo-segundo artigo da confissão de fé da nossa igreja diz, com toda a verdade, que “embora as boas obras não possam eliminar o pecado e nem resistir ante a severidade do julgamento divino, contudo, são agradáveis e aceitáveis a Deus, em Cristo, resultando necessariamente de uma fé verdadeira e viva, de tal maneira que através delas, uma fé viva possa ser evidentemente reconhecida, tal como uma árvore pode ser distinguida pelos seus frutos”. Traill declarou, com muita verdade: “O estado de um homem é nulo e a sua fé, doentia, se as suas esperanças da glória não estiverem purificando o seu coração e a sua vida”.

d. Devemos ser santos porque essa é a única prova de que amamos o Senhor Jesus Cristo com sinceridade. Esse é um ponto acerca do qual Ele falou nos mais claros termos em João 14 e 15: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos”. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama”. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra”. “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando” (Jo 14.15,21,23 e 15.14).

 Declarou Gurnall: “Nunca afirmes que tens sangue real nas veias, que nasceste de Deus, a menos que possas provar a tua descendência, ousando viver de maneira santa”.

 f. Devemos ser santos por ser essa a maneira mais provável de fazer o bem ao próximo. Neste mundo, não podemos viver somente para nós mesmos. Nossas vidas estarão sempre fazendo o bem ou o mal para aqueles que as contemplam. Elas são um sermão silencioso que todos podem ler. É realmente triste quando elas servem de sermão em favor da causa do diabo e não da causa de Deus. O dia do julgamento mostrará que muitos, além de maridos, serão conquistados por uma vida “sem palavra alguma” (1 Pe 3.1).

g. Devemos ser santos porque disso, em grande parte, depende o nosso presente consolo. Nunca será um exagero sermos relembrados acerca disso. Somos tristemente aptos a esquecer que há uma íntima conexão entre o pecado e a tristeza, entre a santidade e a felicidade, entre a santificação e o consolo.

 h. Em último lugar, devemos ser santos porque sem a santidade na terra nunca estaremos preparados para desfrutar do céu. O céu é um lugar santo. O Senhor do céu é um Ser santo. Os anjos são criaturas santas. A santidade está estampada em tudo quanto existe no céu. O livro de Apocalipse expressa: “Nela nunca jamais penetrará cousa alguma contaminada, nem o que pratica abominação e mentira!” (Ap 21.27).

E agora, antes que eu prossiga, permita-me dizer algumas poucas palavras de aplicação.

 1. Antes de tudo, quero indagar de todos quantos estão me ouvindo: “Você é santo”? Rogo-lhe que escute a pergunta que lhe estou apresentando neste dia. Você conhece alguma coisa a respeito da santidade da qual venho falando?

Não estou perguntando se você frequenta regularmente os cultos de sua igreja ou se você já foi batizado, ou se costuma participar da Ceia do Senhor, ou se você tem o nome de cristão. Estou perguntando algo muito mais profundo do que isso: Você é santo, ou não?

Não estou indagando se você aprova a santidade em outras pessoas; nem se você gosta de ler sobre as vidas de pessoas santas ou de falar sobre as coisas santas; ou se você possui livros sobre a santidade, em sua biblioteca, nem se você deseja ser santo e espera que venha a atingir a santidade algum dia. Estou perguntando: Você é santo hoje, ou não?

Mas, por qual motivo estou perguntando de um modo tão direto, insistindo tanto nessa questão? Assim o faço porque as Escrituras determinam: “A santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Isso está escrito. Não é fantasia minha, está na Bíblia; não é a minha opinião particular, é a Palavra de Deus e não a palavra do homem: “A santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Sem dúvida, este é um texto que nos deve fazer considerar os nossos caminhos e examinar nosso coração. Por certo que deveria suscitar dentro em nós solenes pensamentos e compelir-nos à oração. Você pode alegar que se preocupa com isso e que pensa muito a respeito dessas coisas; mais do que alguém possa imaginar. Eu respondo: “Este não é o ponto. No inferno, as pobres almas perdidas fazem muito mais do que isso.A questão não é o que você pensa e o que você sente, mas o que você faz”.

Talvez você diga: “É impossível que alguém seja tão santo e ao mesmo tempo seja capaz de conduzir seus negócios nesta vida. Isso não é possível”. Mas, respondo: “Você está enganado. Isso pode ser feito. Com Cristo ao nosso lado, coisa alguma é impossível. Isso já foi feito por muitos crentes. Davi, Obadias e Daniel, bem como os servos da casa de Nero, todos são exemplos que comprovam que isso é possível”.

 Você, provavelmente, responderá: “Essas declarações são extremamente duras. O caminho é muito estreito”. A minha resposta será: “Sei disso. Assim afirma o Sermão do Monte”. Na religião, assim como em outras áreas, “não há avanço sem sofrimento”. Aquilo que nada custa, nada vale.

 Devemos ser santos na terra, se quisermos ser santos no céu. Foi Deus quem o disse e Ele não retrocederá: “A santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Observou Jenkyn: “O calendário do papa só declara santos às pessoas mortas, mas as Escrituras requerem a santidade da parte dos vivos”.

Sem dúvida, não deveríamos estranhar aquela Escritura que diz: “Importa-vos nascer de novo” (Jo 3.7). Certamente que é tão claro quanto a luz do meio-dia que muitos crentes professos precisam de uma completa transformação – novos corações, novas naturezas – se algum dia tiverem de ser salvos. As coisas antigas terão de passar; eles precisam tornar-se novas criaturas. Não importa quem seja, sem a santificação “ninguém verá o Senhor”.

 2. Agora, desejo me dirigir aos crentes por um momento. A esses pergunto o seguinte: “Você percebe a importância da santidade tanto quanto deveria perceber?”

Gostaria de dizer humildemente que somos inclinados a negligenciar a doutrina do crescimento na graça, não considerando bem até que ponto uma pessoa pode avançar em sua profissão religiosa e, ao mesmo tempo, não dispor realmente da graça divina, estando de fato morta aos olhos do Senhor. Acredito que Judas Iscariotes assemelhava-se muito aos demais discípulos. Quando o Senhor advertiu os apóstolos que um deles haveria de traí-Lo, nenhum deles perguntou: “Será Judas?” Seria mais aconselhável que pensássemos mais a respeito das igrejas de Sardes e Laodicéia do que costumamos fazer.

Todas as pessoas justificadas são santificadas, e todas as pessoas santificadas foram justificadas. Portanto, aquilo que Deus ajuntou, não ouse o homem separar

Devo dizer com franqueza que gostaria que não houvesse tão grande precaução sobre o assunto da santidade, conforme algumas vezes percebo na mente dos crentes. Poderíamos até pensar que se trata de um assunto perigoso, a julgar pela maneira cautelosa como é tratado! Contudo, certamente depois de havermos exaltado a pessoa de Cristo como “o caminho, a verdade e a vida”, não poderemos estar errados, se falarmos em termos incisivos acerca de qual deve ser o caráter daqueles que fazem parte do seu povo. Com razão, disse Rutherford: “O caminho que diminui a importância dos deveres e da santificação não é o caminho da graça. Os atos de crer e fazer são amigos que fizeram um pacto de sangue”.

Não quero me colocar como alguém melhor do que as demais pessoas. E, se alguém indagar de mim: “Quem você pensa que é para falar dessa maneira?” a minha resposta será: “Sou uma criatura realmente muito miserável”. Porém, afirmo que não posso ler a Bíblia sem desejar poder ver muitos crentes mais espirituais, mais santos, mais singelos, mais dotados de mente celestial, mais resolutos de coração do que eles são neste nosso século. Gostaria de ver um pouco mais do espírito dos peregrinos entre os crentes, uma separação mais decidida do mundo, uma linguagem que evidencie melhor o céu e um andar mais íntimo com Deus.

Não é verdade que precisamos de um padrão mais elevado de santidade pessoal nestes nossos dias? Onde está a nossa paciência? Onde está o nosso zelo? Onde está o nosso amor? Onde estão as nossas boas obras? Onde está a força da religião cristã a ponto de ser percebida, conforme se via nos tempos de outrora? Onde está aquele inequívoco tom, capaz de abalar o mundo que costumava distinguir os santos da antiguidade?

CONCLUSÃO

Você quer ser santo? Você quer se tornar uma nova criatura? Então terá de começar com Cristo. Você simplesmente não conseguirá fazer coisa alguma e nem obterá qualquer progresso, enquanto não sentir o seu pecado e fraquezas, e não fugir para Ele.

Ninguém pode lançar outro fundamento para a “santidade” além daquele que foi lançado por Paulo, a saber, Cristo Jesus. “Porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5).

A declaração de Traill é severa, mas verdadeira: “A sabedoria fora de Cristo é insensatez que condena; a retidão fora de Cristo é culpa e condenação; a santificação fora de Cristo é imundícia e pecado; a redenção fora de Cristo é servidão e escravatura”. Você deseja alcançar a santidade? Você sente hoje um autêntico desejo de ser santo? Você quer ser participante da natureza divina? Nesse caso, vá a Cristo.

 Não espere por coisa alguma. Não espere por ninguém. Não deixe para amanhã. Não pense primeiramente em preparar-se. Vá a Ele e diga, nas palavras daquele belo hino:

Nada trago a Ti, Senhor; espero só em teu amor;

Todo indigno e imundo sou.

Eu, sem Ti, perdido estou!

No teu sangue, ó Salvador, lava um pobre pecador.

Harpa Cristã, no 47

 A santidade é a obra que Ele efetua nos corações dos crentes, através do Espírito que Ele lhes proporciona no íntimo. Cristo foi nomeado para ser “Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados”. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (At 5.31 e Jo 1.12).

Você deseja continuar santo? Nesse caso, permaneça em Jesus Cristo. Cristo mesmo disse: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós… Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto” (Jo 15.4,5).

“Tudo posso naquele que me fortalece”. “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no filho de Deus.” Portanto, façamos a mesma coisa (Hb 12.2; Fp 4.13; Gl 2.20).

Que todos sintamos a importância da santidade, muito mais do que temos sentido até o presente! Que os nossos dias sejam santos, então, nossa alma será feliz! Se tivermos de continuar vivendo, que vivamos para o Senhor e, se tivermos de morrer, que morramos para o Senhor e, se Ele nos vier buscar, que nos encontre em paz, sem qualquer defeito ou mácula!

Fonte: O livro Santidade de J. C. Ryle

Pastor Eli Vieira

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